TEATRO

Espetáculo protagonizado mulheres negras sofre boicote da Câmara no Rio de Janeiro

“Encruzilhada Feminina” foi cancelada minutos antes por causa de uma homenagem ao governador eleito Wilson Witzel (PSC)

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Após ter o espetáculo cancelado em cima da hora, roteirista, diretora, atriz e espectadoras protestam nos degraus da Câmara Municipal / Divulgação/Instagram

Uma peça teatral protagonizada por mulheres negras teve sua estreia cancelada em cima da hora na última quinta-feira (29) pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no centro da cidade. A apresentação do espetáculo “Encruzilhada Feminina” estava agendada há seis meses para acontecer no hall de entrada da casa legislativa, mas foi cancelada minutos antes do horário combinado, às 18h30.

As mulheres foram informadas que poderiam se apresentar do lado de fora da casa. O motivo alegado pela administração foi a realização de uma cerimônia em homenagem ao governador eleito Wilson Witzel (PSC). Decepcionadas, roteiristas, diretoras, atrizes e espectadoras protestaram nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, em repúdio ao ocorrido.

As artistas aceitaram o convite da Câmara Municipal por se tratar de um espaço politicamente importante de abordar a temática do espetáculo: o cotidiano das mulheres negras. “Nessa encruzilhada que a gente tem caminhado até agora, diante de tantos golpes, temos seguido com muita firmeza”, declara Cynthia Rachel, escritora e diretora do “Encruzilhada Feminina” em entrevista concedida à apresentadora Denise Viola, no Programa Brasil de Fato RJ.

Elas recusaram outras propostas e a estreia acabou não acontecendo. Agora, apesar da decepção, as artistas procuram outro local para se apresentar. “Estamos passando por um momento muito delicado da cultura, então a gente precisa, de fato, estar cada vez mais atento pra caminhar e fortalecer a nossa educação”, completa.

Confira a entrevista completa com Cynthia Rachel, escritora e diretora do “Encruzilhada Feminina”:

Brasil de Fato: Vocês estavam prontas pra estrear quando receberam a informação de que não ia haver apresentação?

Cynthia Rachel: Estamos ensaiando desde fevereiro e a nossa pretensão, a partir do convite que partiu da Câmara dos Vereadores, era estrear lá e não aconteceu. O que foi muito frustrante pra gente. Chegamos pra preparar nossa grande estreia e fomos informados que a casa sediaria um evento e que, por normas burocráticas internas, nós não poderíamos ficar no que lugar onde seria nossa apresentação, o hall de entrada. Foi nos sugerido apresentar do lado de fora, mas como não foi esse o acordo que fizemos inicialmente, foi um baque. Ficamos sem saber o que fazer. As questões burocráticas partiram da politica da Câmara, porque ficamos sabemos no ato da nossa chegada que haveria um problema. Ficamos mediando como se apresentar, onde, de que forma, e acabamos não apresentando nada.

Sem meias palavras, a gente tá falando de um extremo desrespeito e uma atitude que também foi racista. Embora a escadaria seja um espaço de expressão política, para se apresentar do lado de fora não precisa de autorização.

Foi uma medida paliativa que não soou tão bem pra gente. E nós não quisemos, é claro. Como nosso espetáculo é político, de artes cênicas, nós abraçamos o convite de estrear na Câmara. Seria ótimo discutir alguns temas dentro daquela casa que é do povo e que precisa contemplar as pautas do povo. Em momento algum nós procuramos a Câmara pra fazer a apresentação, nós fomos convidadas. Durante o nosso processo de construção do espetáculo nós recebemos alguns convites pra fazer a apresentação em outros lugares. Mas a gente ponderou porque a nossa ideia junto com a da Câmara e quem nos recebeu, era de estrear lá. Infelizmente nós recebemos muitas propostas e acabamos não realizando o que foi proposto inicialmente. Então, de fato, é bem frustrante.

A peça é um projeto político de artes cênicas, que tem vários atos mostrando diferentes situações que a mulher negra vive no seu cotidiano. É uma proposta extremamente necessária, e agora quais são as possibilidades?

Talvez a gente apresente no Centro Cultural dos Correios dentro de uma exposição instalada, que conta a história de uma família de artistas chamada “Benet Domingo”. Recebemos a proposta e estamos em negociação, também com outros espaços. As pessoas, de fato, estão bem solidárias com a gente e isso é muito bom. Nessa encruzilhada que a gente tem caminhado até agora, diante de tantos golpes, temos seguido com muita firmeza. Daqui pra frente temos muitas coisas pra traçar, então vamos abraçar muitos espaços que nos foram solidários. Não sei se ainda esse ano, mas a ideia é levar o “Encruzilhada Feminina” para muitos espaços e sempre propor um debate. Nosso espetáculo traz muitas informações, muitas pautas importante que a sociedade precisa discutir.

É no debate e na inquietação que a gente cresce e repensa nossas atitudes.

Estamos passando por um momento muito delicado da cultura, então a gente precisa, de fato, estar cada vez mais atento pra caminhar e fortalecer a nossa educação, cultura. E fazer acontecer, porque se não partir de nós a gente sempre vai sofrer com os golpes que estão postos. Precisamos nos fortalecer pra caminhar melhor. A gente vem fazendo um trabalho muito bonito, que traz questões importantes e ele precisa caminhar.

Edição: Mariana Pitasse