Tragédia

Ocupação 29 de março: O primeiro dia depois de perder tudo

Moradores relatam como foi voltar para casa e só encontrar escombros

Curitiba

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Moradores retornam na Ocupação após incêndio buscando sobras da tragédia que destruiu mais de 200 casas / Giorgia Prates

“Perdi tudo, o que vou fazer agora?…” os gritos da balconista M misturam-se com a fumaça que ainda sai de madeiras que insistem em queimar mais de 12 horas após o incêndio, juntando-se ao cheiro de panos, plásticos e corpos de animais. Tudo carbonizado, queimado.

No chão, cacos de telhas, metais retorcidos de fogões, máquinas de lavar, restos de camas e colchões. Cena de guerra, com mais de 200 casas destruídas. Dezenas de botijões de gás enfileirados. E o cheiro nauseante que insiste em permanecer nas narinas mesmo depois de sair do local. A balconista M descreve o horror que passou, ao lado de sua casa queimada. “Eles passaram correndo, com tocas ‘ninja’. Estavam com um galão. Do outro lado deram dois tiros e soltaram fogos. Senti cheiro de fogo, falei com minha filha, quando levantei estava pegando fogo em tudo. De trás para frente, chegando. E eles dando tiros do outro lado. A gente correndo com crianças e eles dando tiros. Eles falaram que a favela não vai ficar de pé, que vão tirar todos daqui.”

O vigilante P, também ao lado dos escombros de sua casa, conta que saiu para trabalhar perto das 20h e que antes havia visto tiros da polícia, mas que quando saiu, a “brigaiada já tinha acabado”. Uma vizinha contou que ouviu a polícia dizer que ia voltar. “Daí, por volta das 11h da noite, recebi uma ligação de minha enteada dizendo que estavam botando fogo na casa, não tinha como voltar, sair do trabalho”. Chegou à sua casa por volta do meio dia do sábado, vendo que tinha perdido tudo. “Ainda nem dormi. É a perdição da vida. A gente perde tudo por causa de uma bobeira, de uma pessoa. Como que o povo daqui vai fazer agora. Estava pagando há dois anos essa casa, R$ 200 por mês, ia terminar de pagar em janeiro agora. Como vou construir de volta? A PM vai pagar de volta?”

L, de 8 anos, morava com os pais e mais três irmãos noutra casa. Diz que estavam os seis em casa e ele quase dormia quando gritaram que estava pegando fogo. Quando a gente saiu já estava pegando fogo no telhado”, afirma. Conta que eles foram pra rua, os pais só conseguiram tirar os filhos, o cachorro e alguns cobertores. “Hoje meus pais vieram para cá e começaram a chorar. Eu chorei também”. Ele e a família estão ficando na casa de uma amiga de sua mãe.

Prioridade para doações

Igrejas e outras entidades estão recolhendo doações para as famílias

A mobilização em solidariedade começou logo nas primeiras horas da manhã de hoje.

PONTOS DE COLETA


  • Escola Ensino Fundamental Doutor Hamilton Calderari Leal - R. Victor Grycajuk, 121 - São Miguel.

  • Cras Moradias Corbélia - R. Profa. Cecília Iritani, 510 - Corbélia.

  • Ong Anjos, em frente a praça Alto Bela Vista, R. Carlos Eduardo Martins Mercer, 31 - no Sabará.

  • Igreja Sara Nossa Terra Barigui - Rua Ricardo Emílio Michel, 531, Cidade Industrial.

  • Associação Moradias Sabará 1, Rua Ary Caramão Arruda, 151 - Cidade Industrial.

  • Casarão da União Paranaense de Estudantes (UPE), Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1157 - São Francisco.

  • Sara Nossa Terra, Avenida Presidente kennedy, 2134, Rebouças. 

  • Mandarino Advocacia, Av Marechal Floriano Peixoto 228 a/c cj 1503, Edifício Banrisul na esquina das Marechais - Centro.

O QUE DOAR:


  • Produtos de higiene em geral

  • Toalhas de banho

  • Lençóis e travesseiros

  • Cobertores

  • Sapatos

  • Roupas

  • Alimentos

  • Utensílios domésticos

  • Lona

  • Materiais de construção em geral – tábua, pregos e telhas e móveis.

 

Edição: Ana Carolina Caldas