DIREITO À DEFESA

Rússia e Venezuela fazem treinamento militar com aviões bombardeiros

Dois aviões militares russos pousaram em solo venezuelano essa semana e despertaram crítica dos EUA

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Rússia também enviou 100 oficiais para realizarem treinamento / Foto: AVN

Dois aviões militares, considerados das armas de guerra e defesa aérea mais potentes do mundo, pousaram no aeroporto internacional Simón Bolívar, na cidade de Maiquetía, na Venezuela, na última segunda-feira (10). Trata-se de aeronaves Tu-160, modelo considerado o maior avião de combate supersônico já fabricado. Esse modelo pode transportar mísseis de longo alcance e até armas nucleares. A delegação militar russa está composta de 100 oficiais das Forças Armadas Russas e outros dois aviões militares: um de carga e outro de passageiros, com capacidade para 200 pessoas. 

Durante a recepção das aeronaves e dos oficiais russos, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, afirmou que a presença dos russos em solo venezuelano faz parte da estratégia de aproximação entre os dois países. "O intercâmbio que existe atualmente entre as duas nações é intenso. Há apenas alguns meses recebemos oficiais da Força Aeroespacial Russa, que estiveram na Síria combatendo", disse Padrino López, na segunda (10).

No entanto, a presença de armas de guerra na Venezuela não representa uma ameaça militar, de acordo com o professor de Relações Internacionais da Universidade Central da Venezuela e de mestrado da Universidade Militar Bolivariana, Ernesto Wong. "Esse treinamentos aéreos não representam uma ameaça, mas sim uma demonstração de poder de defesa contra países que, como Colômbia, fizeram ameaças ao país. A Venezuela tem capacidade e direito de se defender", disse o professor.

Já o mestrando da Higher School of Economics de São Petersburgo, na Rússia, Giovanny Simon, afirma que a presença dos oficiais e dos equipamentos militares passam uma mensagem clara de que a Venezuela não está sozinha. "Esse treinamento militar é uma demonstração de força no sentido de mostrar que a Venezuela não está sozinha. Mostra que esse aparente isolamento da Venezuela não é completo". Giovanny Simon tem graduação, mestrado e também é doutorando em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. 

Segundo a análise do pesquisador brasileiro residente na Rússia, é estratégico para o país ter essa relação e aproximação militar com a América do Sul. "O interesse da Rússia nesse intercâmbio miliar com a Venezuela tem um visão geopolítica de manter uma relação com a América Latina. O giro político de alguns governos da América do Sul, por influência dos EUA, faz com que a Rússia tenha interesse em manter um posicionamento diferente na América Latina. Especialmente porque o futuro governo de Jair Bolsonaro vai assumir a presidência dos BRICS", destaca o mestrando da Higher Shoool of Economics de São Petersburgo.

Na semana passada, o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu realizou um encontro com o homólogo venezuelano na Rússia, e falou sobre a intensão de que os aviões russos continuem voando para a Venezuela, e que navios militares também pudessem atracar em portos venezuelanos. Para Shoigu a estratégia russa nessa operação é ganhar experiência em operações a longas distâncias. "Essa é uma oportunidade de obter experiência importante para a aviação de longo curso e manter o equipamento em estado operacional".

EUA critica treinamento

A reação do secretário de Estado dos Estados Unidos da América (EUA), Mike Pompeo, foi imediata. Em sua conta de Twitter Pompeo criticou o treinamento militar conjunto da Rússia e da Venezuela. "O governo russo fez os aviões bombardeiros cruzar meio mundo até chegar à Venezuela. Os povos da Rússia e da Venezuela precisam entender o que isso significa: dois governos corruptos desperdiçam recursos públicos e suprimem a liberdade, enquanto os seus povos sofrem", publicou o secretário de Estado dos EUA. 

Em resposta, o porta-voz do presidente russo Vladimir Putin, Dmitry Peskov, divulgou, nessa terça-feira (11), uma declaração em que afirma que as palavras do de Mike Pompeo foram inapropriadas e pouco diplomáticas. Peskov afirmou ainda que o orçamento militar dos EUA daria para alimentar todo continente africano. "No que se trata de desperdício de recursos públicos, não concordamos. Além disso, talvez não seja apropriada essa declaração já que vem de um país em que a metade do orçamento militar daria para alimentar toda a África ", disse Peskov a jornalistas.

O ministro de Relações Exteriores, Jorge Arreaza também comentou a crítica de Pompeo. Para o ministro venezuelano as declarações do funcionário estadunidense contra a presença russa no continente são insólitas. "EUA possui pelo menos 800 bases militares, conhecidas, em 70 países. Além disso, 75 dos 107 programas militares dos EUA para cooperação de segurança operam na América Latina".

Para Arreaza, o dinheiro investido no orçamento militar dos EUA poderia ser usado para diminuir as desigualdades sociais do país. "Se os EUA estivessem realmente preocupados, deveriam revisar seu imenso e injustificado orçamento militar de mais de U$ 674 bilhões em 2019. Certamente os 50 milhões de pobres e famílias sem acesso à saúde pública dos EUA podem sugerir um destino mais justo para esses recursos", publicou o ministro venezuelano na sua conta do Twitter.

Os governos russo e venezuelano não informaram até quando os militares e os equipamentos russos ficam na Venezuela.

Edição: Mauro Ramos