EM MARCHA

Chavismo e oposição medem força nas ruas da Venezuela nesta quarta-feira (23)

Marchas acontecem na capital Caracas; nas últimas noites, oposição realizou protestos violentos

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Depois de dois anos sem realizarem mobilizações importantes, opositores convocam manifestação contra governo de Maduro / Foto: Reprodução

Caracas amanheceu nublada nesta quarta-feira (23), dia de protestos de rua de opositores e chavistas na Venezuela. O céu cinza e uma garoa constante dão o tom dramático do dia. “Se eu fosse místico, diria que Chávez mandou uma chuvinha para acalmar os ânimos”, escreveu em sua conta no Twitter o vice-ministro de comunicação do Ministério de Relações Exteriores, Willian Castillo, relembrando o ex-presidente Hugo Chávez, falecido em 2013, que deixou como sucessor o atual presidente Nicolás Maduro.

Realmente, o ambiente é de certa tensão. Isso porque os dois setores políticos do país, esquerda e direita, vão medir forças nas ruas da capital Caracas. Além disso, a data é importante para a nação sul-americana. O dia 23 de janeiro é quando se comemora os 61 anos do fim da ditadura de Marcos Pérez Jiménez, que levou à convocação de eleições diretas em 1958.

A oposição fez uma ampla convocação divulgada pelos grandes de comunicação privados alinhados a seu discurso. Já o chavismo o fez por meio do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que possui uma das maiores máquinas de mobilização política do país. 

Mais do que para o chavismo, os atos de rua desta quarta-feira serão uma prova de fogo para a oposição, que não tem conseguido mobilizar a população desde julho de 2017, quando após uma onda de protestos violentos pelo país, a eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte foi a decisão do governo Maduro para resolver os confrontos políticos. Contudo, a oposição optou por não participar dessa consulta popular.

Na última manifestação convocada por partidos e lideranças opositoras, no último dia 11 de janeiro, apenas 300 pessoas compareceram ao bairro de Altamira, zona leste de Caracas.

Enquanto isso, as mobilizações de apoiadores do governo Maduro vêm mobilizando multidões nos últimos anos. Foi assim na posse presidencial após a reeleição de Maduro, no dia 10 de janeiro, quando cerca de 300 mil pessoas, segundo dados oficiais, foram até a frente do Tribunal Supremo de Justiça, onde foi feito o juramento presidencial.

Dia de tensão

As duas marchas elevaram a tensão na capital venezuelana e muitas pessoas preferiram ficar em casa. Caracas normalmente é uma cidade com o trânsito carregado, mas nesta quarta-feira (23) as ruas estão esvaziadas. Também porque os últimos dois dias foram marcados por pequenos protestos opositores que tiveram como tom a violência, causando distúrbios na zona oeste da capital, sobretudo em bairros populares. 

Na madrugada desta quarta, a imprensa venezuelana reportou a morte de duas pessoas, uma delas teria sido uma adolescente de 16 anos, morta em um protesto contra o governo em Catia, bairro populoso de caráter popular localizado na região oeste de Caracas. A informação ainda não foi confirmada pelas autoridades. 

Além disso, um centro cultural no centro da capital foi incendiado na noite da última terça-feira (22). Trata-se do Museu Robert Serra, no popular bairro La Pastora, que fica na região do Palácio Presidencial de Miraflores. Para o analista político e morador deste bairro Marco Terrugi, as ações violentas são planejadas e realizadas pelos grupos de direita. "Não há espontaneidade na violência noturna. Isso é parte de um plano para 'aquecer a rua', gerar subjetividade e combiná-la com as declarações que chegam dos EUA. Os conhecemos, são os mesmos golpistas", afirmou Terrugi.

Outro ato violento de grupos opositores ocorreu na mesma noite, quando arrancaram uma estátua do ex-presidente Hugo Chávez, que estava na Avenida Dalla Cosca, e a penduraram na passarela da Ponte Coroní, no bairro San Félix. Ato que fez com que se acirrasem os ânimos dos setores chavistas. A isso também se soma o assalto ao quartel da Guarda Nacional Bolivariana, no início da semana. 

Ações violentas como essas foram condenadas por autoridades do governo. Durante toda a semana, o presidente Nicolás Maduro pediu para a população “não cair no jogo violento da oposição”. O presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, também dirigente do PSUV, convocou as forças políticas chavistas para saírem as ruas em atos com a bandeira da paz. “Vamos ao combate pela vida, pela paz, pela independência, pela pátria. Vamos ao combate junto ao povo, com Bolívar e com Chávez. Nós venceremos”, escreveu em sua conta no Twitter.

Influência dos EUA

Na véspera dos protestos da oposição venezuelana, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, fez um comunicado tendo como tema a Venezuela, no qual incitou a população do país a sair às ruas contra o presidente Maduro. "Ao levantar suas vozes amanhã [quarta-feira], em nome do povo americano, dizemos ao povo da Venezuela que estamos com vocês, apoiamos vocês e continuaremos apoiando vocês até que a democracia na Venezuela seja restaurada e seus direitos de liberdade sejam retomados. Fiquem com Deus", disse o norte-americano.

A declaração do governo estadunidense foi condenada pela vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, que acusou Pence "de incitar um golpe" em seu país.

"Temos assistido a uma situação sem precedentes. Parece que o vice-presidente dos Estados Unidos da América, Mike Pence, pretende vir governar a Venezuela, dando instruções sobre o que deve ser feito na Venezuela, pedindo abertamente um golpe de Estado na Venezuela", afirmou Delcy em declarações feitas à imprensa, na terça-feira, diretamente do Palácio Miraflores.

Edição: Vivian Fernandes