Educação

"A brincadeira é um espaço de aprender as regras sociais", afirma Zoia Prestes

A psicóloga e pedagoga defende a importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Zoia Prestes foi uma das tradutoras do livro "Imaginação e Criação Na Infância", de Lev Semionovitch Vigotski / Zoia Prestes

Durante a campanha eleitoral de 2018, uma das poucas propostas apresentadas para a área de educação, pelo então candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), era o ensino a distância.

Bolsonaro pretende aplicar a medida nos ensinos fundamental, médio e superior. Na prática, crianças a partir de seis anos deixariam de frequentar a escola para aprender por aulas online. Além de receber críticas de especialistas e professores, a proposta contraria uma das teses defendidas pelo russo Lev Semionovitch Vigotski, um dos mais importantes autores e pesquisadores no campo da psicologia e da pedagogia.

Em suas obras, o pensador defende que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e também das condições do meio em que elas estão inseridas. Em dezembro do ano passado, a livraria e editora Expressão Popular publicou uma das obras do pensador russo, intitulada Imaginação e Criação na Infância, que contou com a tradução de Zoia Prestes e Elizabeth Tunes. A obra foi sorteada para os ouvintes na Rádio Brasil de Fato.

O Brasil de Fato entrevistou a pedagoga e psicóloga Zoia Prestes que falou sobre Vigotski e o cenário brasileiro atual no campo da educação.

Brasil de Fato  - Vigotski defende que as relações sociais contribuem para o desenvolvimento das crianças e como essa proposta defendida por Jair Bolsonaro, do ensino domiciliar, pode impactar no processo de desenvolvimento das crianças?

Zoia Prestes - Primeiramente, eu quero agradecer a oportunidade que a Expressão Popular me deu de publicar esse livro, uma segunda edição dele, que inaugura uma nova forma de apresentação até do próprio livro. É um livro muito importante, sem dúvida.

A proposta de ensino domiciliar impacta principalmente crianças a partir da fase de alfabetização, de ensino da escrita e da leitura, e não só isso. O meio para o desenvolvimento da criança é muito importante. Tanto é que, quando avaliamos, por exemplo, o desenvolvimento de uma criança, não podemos avaliar apenas por um comportamento em um determinado meio. E obviamente a escola, a instituição em que ocorre o processo educativo, é de suma importância para poder oferecer mais uma gama de relações que a criança pode desenvolver.

O meio não é simplesmente um meio pra si, esse meio existe em função do nosso olhar, da nossa relação com ele. Quanto mais a criança ouvir, ver e se relacionar, mais rica será essa relação e mais rica será a forma dela imaginar também e de pensar as coisas a sua volta.

Como você vê esse modelo de educação que defende o livre brincar?

Eu gosto muito de um texto, não é exatamente um texto, mas uma palestra que o Vigotski proferiu em 1933, que é a brincadeira e o desenvolvimento psíquico da criança. O que ele traz como importante é que a criança não precisa de um brinquedo, por exemplo, para emergir a brincadeira.

A brincadeira ainda é uma atividade que não é inata, as crianças aprendem a brincar. O que eu tenho defendido em base nas ideias de Vigotski é que, por mais que se estabeleça um tempo e um espaço para brincadeira, isto é, uma forma de escolarização, de institucionalização da brincadeira, ela acontece. O que eu mais vejo não é o livre brincar da criança, eu vejo muito o adulto interferindo no brincar da criança.

Estou falando de um tipo de brincadeira, porque existem vários tipos. A brincadeira que Vigotski vai centrar a atenção e vai falar, que é uma atividade que guia o desenvolvimento da criança de mais ou meno dois anos e meio até os seis, sete anos, é o faz de conta. É nessa brincadeira que emerge na criança a imaginação e da imaginação é um passo para que o desenvolvimento do pensamento abstrato ocorra.

A criança é livre para imaginar, então ela não está apenas reproduzindo aquilo que ela experimentou, ouviu ou viu da vida real, não é uma simples reprodução, é uma atividade que ela imagina. Se a criança quer ser mãe, ela vai imaginar uma mãe. Ela não está representando a mãe dela, ela pode estar constituindo uma mãe de diferentes elementos de mães que ela conheceu.

A brincadeira é um espaço de aprender as regras sociais, é onde a criança toma consciência das regras sociais. Não à toa que com sete, oito anos, essa brincadeira atinge o nível mais elevado, vira um jogo com regras. A situação se inverte: já vai estar a regra em primeiro plano e a situação imaginária em segundo. Para que ocorra o desenvolvimento da imaginação, a brincadeira do "faz de conta" tem que acontecer e para isso acontecer, tem que ter espaço, tem que ter tempo e não é isso que eu vejo na grande maioria das nossas instituições.

Qual o impacto da tecnologia na educação da criança?

As crianças vivem seu tempo, aquilo que a sociedade propõe e oferece. A gente não pode simplesmente recorrer a um saudosismo e dizer “na minha época não era assim, na minha época eu ia para rua, brincava na rua, hoje as crianças não brincam".

Tudo em excesso é prejudicial, assim como a televisão, o computador ou o tablet. Acredito que temos que aprender a lidar com a criança e com essa realidade. Eu não vejo só criança em tablet e celular o tempo inteiro, eu vejo muito adulto também. A poderíamos também fazer a mesma pergunta: qual é a influência disso para o próprio desenvolvimento do adulto?

A criança que vê o adulto o tempo inteiro no celular, vai pensar “bom, alguma coisa tem lá”. Nós apendemos muito e a criança principalmente, ela observa o mundo e aprende também pelo exemplo. Então, obviamente em uma família ou em um espaço formativo, espaço coletivo de educação, que possa oferecer a maior gama de possibilidades, a criança provavelmente não vai ficar apenas no tablet e no celular.

Eu acho que o impacto disso é pouco estudado, acho que uma criança já sabe pegar o celular e ler o ícone do aplicativo e isso, obviamente, tem implicações no desenvolvimento do pensamento e também na forma de alfabetização dessa criança. Precisamos fazer pesquisas sobre isso para que a escola possa também se apropriar e não apenas proibir. Quando proíbe, provoca uma reação inclusive contrária.

Qual a importância da obra de Vigotski no atual cenário brasileiro, quando muito se fala sobre doutrinação e escola sem partido?

Vigotski defende a diversidade do desenvolvimento humano, não existe um modelo de desenvolvimento humano. Qualquer ser humano se desenvolve, tem tantas formas de desenvolvimento quanto as pessoas tem, então essa conversa de doutrinação e de ideologia de gênero não convence e não se sustenta.

O que eles, na verdade, defendem é a escola de um partido só, que é o partido deles, com as ideias deles. Falar que vai tirar ideologia da escola é uma falácia, é uma bobagem, porque tudo que nos fazemos tem a nossa visão de mundo e visão de mundo é falar de ideologia.

Ou você realmente está do lado daqueles que pensam no humano, no desenvolvimento humanitário de ajuda, de colaboração, de coletivismo ou você defende uma sociedade individualista, que pensa só no acúmulo de bens materiais e não na distribuição daquilo que a própria humanidade produz.

Nós nem deveríamos mais reproduzir esse tipo de fala. Acredito que temos que continuar na nossa linha e defender essa ideia de Vigotski, de desenvolvimento da diversidade, do desenvolvimento humano. Ele vai nos ajudar muito a combater esse tipo de discurso, que é falacioso, que não se sustenta teoricamente e nem cientificamente.

Edição: Júlia Rohden