Militante do MAB alerta: efeitos do crime de Brumadinho serão sentidos em todo Brasil

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No Jardim da Política

Ouça o áudio:

Daiane Hohn, membro da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é a convidada do programa No Jardim da Política / José Eduardo Bernardes
É mais barato indenizar famílias do que reestruturar as barragens

O programa No Jardim da Política desta quinta-feira trouxe como destaque a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, com o rompimento da barragem da empresa Vale. Nos estúdios, a equipe do Brasil de Fato entrevistou Daiane Hohn, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

De acordo Hohn, se a lama com lixo industrial não for barrada, pode chegar a atingir até 19 municípios e aproximadamente um milhão de pessoas no estado de Minas Gerais e na região da bacia do rio São Francisco. Há uma expectativa de que os responsáveis pelo crime ambiental contenham o avanço da lama contaminada e tomem providências para reparar as famílias e o meio ambiente, mas ela ressalta o caráter criminoso do acontecimento.

“O rompimento de uma barragem é possível de antever, então a gente sabe quem são os culpados”, apontou Daiane.

Hohn também mostrou preocupação com a presença da mineradora Vale na região destruída de Brumadinho após o rompimento. Para ela, seria necessário o afastamento imediato da empresa na cena do crime e citou a tragédia em Mariana, ocorrida em 2015 também em Minas Gerais, como uma experiência negativa, uma vez que “deixar nas mãos do criminoso a fiscalização e penalização do crime só prejudica os principais atingidos.”

“Em Mariana, [foram] eles (donos da empresa) que criaram os acordos de reparação, eles que cadastraram as pessoas, os atingidos não participaram das decisões sobre os rumos das suas vidas. A negação dos direitos é contínua, então diante do aprendizado de como a empresa trata os atingidos, achamos que a Vale não pode estar em Brumadinho, ela não pode assumir a tarefa de cadastrar e fazer a reparação sozinha”.

Lucro acima de todos

O modelo de mineração brasileiro, sob iniciativa privada, foi apontado por Daiane como uma das principais causas para o rompimento de barragens. Ela acredita que a busca pelo lucro máximo, acima do meio ambiente e da vida, está por trás das tragédias. A estrutura da barragem em Brumadinho havia sido vistoriada e liberada para atuar em dezembro de 2018, um mês antes do rompimento, no entanto, a suspeita é de que as liberações passaram por cima de exigências de segurança.  

Ela ainda alertou que existem diversas outras barragens espalhadas pelo Brasil que estão em situação semelhante à de Brumadinho e apontou que a privatização requer que os donos das empresas dêem respostas à sociedade. “O Estado não tem que puxar pra si a responsabilidade, não pode colocar aportes financeiros e recursos em algo que busca o lucro das empresas, que não retorna pro Estado. Então é responsabilidade das empresas privadas repor. Essa é uma discussão que a sociedade precisa fazer. Porque a barragem rompeu? Estavam mexendo? O que tinha lá? A gente ainda está tentando entender”.

Daiane ressaltou que essa resposta é necessária, principalmente porque as consequências do crime ambiental protagonizado pela mineradora Vale vão muito além de Brumadinho. Com o meio ambiente contaminado e desequilibrado pelos dejetos tóxicos, a agricultura e lençóis freáticos são atingidos de forma que o Brasil inteiro é afetado pela tragédia. “São Paulo é alimentado pelas frutas plantadas em solo regado por águas de outros estados, por exemplo”, cita.

Segundo a entrevistada, a busca pelo maior lucro possível precariza o trabalho dos funcionários e piora ainda mais a atividade de mineração, que é a que mais mata trabalhadores no país. “É mais barato indenizar as famílias do que reestruturar as instalações das barragens para que se adequem à padrões de segurança atuais”, denunciou.

A conversa terminou com um apelo da coordenadora do MAB para que a tragédia não seja esquecida com o tempo e para que a população pressione e cobre para que a Vale seja penalizada. Ela também ressaltou a urgência em se discutir e rever a forma como são constituídas as barragens no Brasil.  Além disso, como coordenadora do MAB, Daiane encerrou a entrevista com um recado: “as empresas não quer que vocês falem, mas o MAB está junto e a voz de Brumadinho será ouvida”.

Além da entrevista no estúdio, o programa também teve um bate papo com a escritora, pesquisadora e cientista social Bianca Santana, autora do livro “Quando me descobri negra”. A autora contou que foi importante notar, pela repercussão do livro, que muitas pessoas se viram em sua obra. “Vou contando episódios que muitas pessoas têm me dito que se identificam. Situações de racismo que não tinham sido percebido como racistas antes. Muitas vezes o racismo não é explícito”, desabafou.

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Edição: Pedro Ribeiro Nogueira