Crime ambiental

Documentário denuncia contaminação por contato com lama tóxica da Samarco

No filme “Renova: O crime é periódico”, moradores da região atingida relatam sintomas causados por metais pesados

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ouça o áudio:

Relatório constatou alto nível de níquel e quantidade anormal de arsênio em onze pessoas atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão / Yuri Barichivich / Greenpeace

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) lançou nesta terça-feira (5) o documentário Renova: O crime é periódico, que denuncia a mineradora Samarco por comprometer a saúde dos atingidos com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

O filme coleta relatos dos moradores do município de Barra Longa (MG) e da bacia do rio Doce, que apresentam sintomas causados pelo contato com metais pesados após o crime socioambiental, como problemas neurológicos, respiratórios, osteoarticulares, gástricos e dermatológicos.

Assista ao documentário Renova: O crime é periódico

O documentário começou a ser produzido em março de 2018, após um relatório produzido pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, que constatou alto nível de níquel e quantidade anormal de arsênio no organismo de onze pessoas. Na época, a fundação Renova - pertencente às empresas Vale e BHP Billiton e criada para prestar assistência aos atingidos - declarou que “quaisquer danos à saúde da população que tenham relação comprovada com o rompimento serão considerados e tratados no processo de reparação dos referidos impactos”. Contudo, nada em relação a isso foi feito.

Em 2018, durante uma assembleia realizada na cidade, a população começou a relacionar os sintomas de saúde com a contaminação pelos minérios. Maíra Gomes, militante do MAB e uma das responsáveis pelo filme, destaca no documentário o depoimento de uma moradora que concluiu seu relato afirmando: “enquanto isso, a Vale vai muito bem, obrigada”. “A Vale vai tão bem que agora, mais uma vez, foi responsável por mais um crime em Minas Gerais”. Uma das vítimas da contaminação, Sofya, tinha apenas dez meses quando a barragem de Fundão rompeu, em 2015. Simone, mãe da menina, relatou em entrevista ao Brasil de Fato que o problema teria se agravado quando, em maio de 2016, a prefeitura decidiu utilizar a lama de rejeitos retirada para o calçamento de ruas da parte alta da cidade.

Um estudo desenvolvido em uma parceria entre pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes),  Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) monitorou também a contaminação do solo pelos rejeitos da mineração. Na pesquisa, foram encontrados cobre, manganês, zinco, cromo, cobalto, níquel e chumbo no solo de Minas Gerais e do Espírito Santo. “É fundamental fazer a denúncia de que as consequências vão muito além da lama ou de uma casa que foi derrubada.” afirma Maíra.

Outra denúncia é sobre a atuação ineficiente da Renova, que não reconheceu todos os atingidos, não fornece centros de atendimento jurídico gratuito e não cumpre as medidas de assistência a todos os impactados pelo crime. “A Renova tem que ser retirada do processo de reparação. Os atingidos, junto ao poder público, são quem tem que estar a frente desse processo. Quem tem que custear são as empresas criminosas, no entanto, a gestão não pode ser feita pela Renova.”

Além de expor as consequências do crime, o documentário pretende conscientizar a população e o poder público, para que se dê atenção aos futuros impactos na saúde de quem teve contato com a lama tóxica em Brumadinho (MG). Os rejeitos contaminaram o Rio Paraopeba, que já não tem mais vida após o rompimento da barragem, e pode chegar ao Rio São Francisco, que abastece 550 municípios do país. De acordo com Maíra, a data de lançamento do filme estava prevista para o dia 14 de março, dia nacional dos atingidos por barragens, mas com o novo crime da Vale, decidiram pelo adiantamento para que sejam tomadas medidas que visem preservar a saúde da população.

Edição: Mauro Ramos