Demissões

Sonhos partidos: trabalhadores projetam luta após anúncio do fechamento da Ford

Sindicato e operários têm esperança de reverter decisão da companhia por meio de mobilização em São Bernardo (SP)

São Paulo | Brasil de Fato

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Sindicato promete usar de todas ferramentas disponíveis para reverter decisão / Sindicato dos Metalúrgicos do ABC/Divulgação

“A gente não estava esperando uma notícia dessas. Por mais que a gente viesse vivendo tempos de crise nos últimos cinco anos, a gente ainda esperava que houvesse uma melhora da situação da empresa, e o que houve foi o contrário. Foi um baque para todo mundo”, conta Lucas Padilha, de 25 anos, quatro deles trabalhando na Ford como montador.

A montadora anunciou nesta terça-feira (19) que fechará sua fábrica de São Bernardo do Campo (SP), onde estão empregados aproximadamente 2,8 mil trabalhadores diretos e outros 1,5 mil terceirizados. Em reunião realizada com representantes dos funcionários, a companhia alegou “incertezas jurídicas” e um prejuízo de R$ 2,5 bi acumulado na América Latina ano passado, o que justificaria o fechamento da planta.

Em nota, a empresa também divulgou que encerrará a produção dos caminhões Cargo, F-4000, F-350 e do New Fiesta, produzidos na fábrica do ABC. Segundo dados levantados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o possível fechamento da fábrica geraria 24 mil demissões em cadeia.

Para Padilha e os demais funcionários, a ameaça de fechamento significa o fim de muitos sonhos gestados durante o período em que trabalharam ali: “Ali estão guardados todos os nossos sonhos: a conquista de um carro, da casa própria, tudo está vinculado ao nosso ambiente de trabalho. A gente só se sente perdido agora, a gente tinha muito em mente, almejava muitas coisas que foram interrompidas por esse anúncio”, lamenta.

A direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC se movimenta para estabelecer um plano de luta contra o fechamento da fábrica: “A ideia é [usar] todas as ferramentas. Tanto pressionar os governos para que façam mediação, quanto fazer paralisações e ir pra rua”, disse a assessoria de imprensa do sindicato. Até quarta-feira da semana que vem (26), os trabalhadores da Ford de São Bernardo cruzarão os braços. Neste dia, haverá assembleia em frente à fábrica, às seis e meia da manhã.

“A reunião já tinha sido pedida pelo sindicato para negociar investimentos para a planta. Defendíamos a vinda de novos produtos para a fábrica, porque ela está apenas com o New Fiesta, e sabemos que com um carro só ela não se mantém, mas eles disseram que não iam negociar”, afirmou à reportagem a assessoria de imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Questionado sobre a postura da empresa ao anunciar o fechamento da fábrica, Padilha relata seu descontentamento: “Acho que foi incorreta, porque foi uma notícia muito repentina, a gente não estava preparado. Dar uma notícia dessa forma foi um desrespeito com os trabalhadores”.

Contexto

Segundo comunicado da Ford à imprensa, o fechamento das atividades em São Bernardo faz parte de uma reformulação global da montadora, “como um importante marco para o retorno à lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul”. Com a decisão, a Ford deixará de comercializar no Brasil as linhas Cargo, F-4000, F-350 e Fiesta, assim que terminarem os estoques.

Em 2018, a montadora registrou lucro líquido de US$ 3,7 bilhões, uma queda de 52% em relação ao ano anterior.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira