EDUCAÇÃO

Estudantes enfrentam dificuldade para conseguir vagas na rede pública do Rio

Escolas da rede estadual também apresentam problemas de infraestrutura e falta de professores

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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O déficit que chegou a 20 mil vagas para o segundo seguimento do fundamental dois e também para o ensino médio / Divulgação

Ingressar na escola tornou-se uma tarefa árdua para os jovens que dependem da rede pública do estado do Rio de Janeiro. O déficit que chegou a 20 mil vagas para o segundo seguimento do fundamental dois e ensino médio gerou a primeira crise no setor da educação para o governo de Wilson Witzel (PSC).

A estudante Lorena Souza, de 17 anos, foi uma das jovens afetadas pela deficiência do sistema de matrículas da rede estadual de ensino. Souza morava em Belém, no Pará, e mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores oportunidades de estudo e trabalho. A jovem, que está no primeiro ano do ensino médio, encontrou muita dificuldade para conseguir uma vaga na rede pública.

“Tem que fazer a matrícula pelo site do matrícula fácil, tem muita gente na fila de espera. Eu fui fazer para duas escolas e em ambas tinham 115 pessoas na minha frente. A maioria das vagas são para o turno da noite, eu estou estudando à noite, mas espero conseguir a vaga depois do carnaval para o diurno”, conta.

Após um mês de tentativa, Souza teve a matrícula aceita no dia 18 de fevereiro. A estudante conseguiu uma vaga no Colégio Estadual Rosa Luxemburgo, em Quintino, na zona Norte do Rio, próximo da sua residência. Contudo, a falta de professores e de vagas no ensino diurno acabam sendo obstáculos para os alunos.

“Sempre falta professor, saímos cedo. Tem dias que a aula começa às 19h e às 20h já estamos liberados porque não têm professores. As pessoas que estudam à noite não têm tempo para se dedicarem à escola à tarde, pois precisam cuidar do filho, trabalhar. Se ela estuda à noite é porque ela quer estudar e não tem como estudar sem professor”, ressaltou.

Calor em sala de aula

Os transtornos enfrentados por alunos e professores da rede pública do estado do Rio passam também por problemas relacionados à infraestrutura das escolas. Em algumas unidades de ensino o sistema de climatização não está funcionando. Numa cidade como o Rio de Janeiro, cujas temperaturas durante o verão têm ultrapassado os 40°C o ar condicionado torna-se uma questão de salubridade para aqueles que convivem no ambiente escolar.

Daniele Queiroz é professora de Matemática da rede estadual. Ela atua no CIEP Aspirante Francisco Mega, no bairro de Magalhães Bastos, zona Oeste da cidade, durante dois dias da semana. De acordo com a professora, a unidade possui dois aparelhos de ar condicionado por sala de aula e, por falta de manutenção, eles não estão funcionando.

“Os aparelhos não funcionam, eles estão em sala de aula, uns até ligam, mas só ventilam e ficamos numa situação bem insalubre, não só os professores, mas principalmente os alunos. Essa situação não prejudica só o nosso trabalho, mas, acima de tudo, o rendimento dos alunos. Gostaria de convidar qualquer pessoa que critica sem saber qual é a realidade de uma sala de aula da rede pública, porque é uma condição fora do normal”, relata Queiroz. 

Crise anunciada

A gravidade dos problemas da rede pública já é alvo de denúncias do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) há alguns anos. A instituição alertou que a política de reestruturação do governo do estado, com fechamento de escolas, turnos e turmas causaria prejuízos para a população.

Izabel Costa é coordenadora geral da direção do Sepe central. Ela relata que desde 2015, durante a gestão do governador Luiz Fernando Pezão (MDB), a instituição vem se posicionado com relação à política de educação adotada pelo estado.

“Nesse período nós fomos ao MPE [Ministério Público do Estado do Rio] e levamos a situação de diversas unidades escolares, fizemos a denúncia junto à justiça e na verdade, o quadro dramático de carência que nós temos hoje é o resultado desses anos de fechamento de vagas na rede estadual, sobre o pretexto de uma otimização que na verdade significou uma economia para os cofres públicos”, explica Costa.

A coordenadora geral do Sepe ainda ressalta os outros problemas enfrentados pela rede. Segundo a professora de História, a juvenilização do ensino noturno é uma das principais causas da evasão escolar.

“Temos uma juvenilização muito grande do noturno, muitos  só conseguem vaga à noite,  distante de suas residências. O que faz com que a evasão aumente e há ainda a dificuldade de deslocamento, porque, o Rio Card nem sempre chega no início da aula, muitos  alunos têm dificuldade em ir para a escola o que contribui para  esse quadro de fechamento de vagas e de evasão de estudantes”, comenta.

A assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) não respondeu aos questionamentos da reportagem do Brasil de Fato até o fechamento desta reportagem. 

Edição: Mariana Pitasse