DIREITOS HUMANOS

Israel cometeu crimes contra a humanidade em Gaza, afirma comissão da ONU

Segundo relatório, franco-atiradores atacaram civis desarmados durante onda de manifestações que ocorreu em 2018

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Estudo aponta que mais de 6 mil pessoas, entre manifestantes, paramédicos e jornalistas foram atingidos por militares israelense / Foto: Said Khatib/AFP

A Comissão de Inquérito Independente das Nações Unidas sobre Protestos no Território Palestino Ocupado divulgou, nessa quinta-feira (28), os resultados de uma investigação que afirma que Israel cometeu crimes contra a humanidade e crimes de guerra ao reprimir as manifestações da chamada Marcha do Retorno, protestos semanais que ocorreram entre março e dezembro de 2018 na Faixa de Gaza. 

“Soldados israelenses cometeram violações contra os direitos humanos e o direito internacional humanitário, alguns dos quais podem constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade e devem ser imediatamente investigados por Israel”, afirmou o presidente da Comissão, Santiago Canton. 

Segundo a investigação, mais de 6 mil civis desarmados foram atingidos por militares, dos quais 189 foram mortos. Entre eles, 35 eram crianças, três eram “claramente paramédicos” e dois eram jornalistas que estavam devidamente identificados. 

“Não pode haver justificativa para matar e ferir jornalistas, médicos e pessoas que não apresentam ameaça iminente de morte ou ferimentos graves aos que estão ao seu redor”, afirmou Sara Hossain, pesquisadora que também faz parte da Comissão. 

“Atividade terrorista”

Após a Comissão anunciar os dados do relatório, Israel alegou que os protestos em Gaza, na verdade, mascaravam “atividades terroristas” de grupos armados. No entanto, a Comissão concluiu que “as manifestações eram de natureza civil com objetivos políticos claramente definidos”. 

O estudo afirma que foram encontrados “motivos razoáveis para acreditar que membros das Forças de Segurança de Israel, durante a resposta às manifestações, mataram e feriram civis que não participavam de hostilidades, nem representavam uma ameaça iminente”.

Para chegar às conclusões apontadas no documento, a Comissão realizou 325 entrevistas com vítimas, testemunhas e fontes, reunindo 8 mil documentos sobre os ataques. O estudo também analisou material de mídias sociais, filmagens dos incidentes e imagens captadas por drones. Israel não autorizou que os investigadores visitassem alguns dos locais dos crimes. 

Um documento mais completo será publicado e apresentado ao Conselho de Direitos Humanos em 18 de março de 2019, em Genebra, na Suíca. 

Outro levantamento publicado pelo Escritório das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários (Ocha), em dezembro de 2018, aponta que ao menos 295 palestinos foram mortos e mais de 29 mil foram feridos durante 2018. O número é o mais alto desde que começou a ser documentado pelo Ocha, em 2005. 

Além dos 189 mortos durante a Marcha do Retorno, Forças de Segurança de Israel atacaram propriedades palestinas localizadas em assentamentos, ferindo e matando civis. A ocorrência desses incidentes subiu 69% em comparação a 2017. 

Manifestações

As marchas do retorno começaram em 30 de março, Dia da Terra, data em que os palestinos relembram o assassinato de seis manifestantes pelas mãos das Forças de Segurança de Israel, em 1976, e deveriam ir até 15 de maio, dia que marca a expulsão de centenas de milhares de palestinos durante o conflito que levou à criação do Estado de Israel, em 1948. A data é chamada pelos palestinos de Nakba (grande catástrofe, em árabe). 

As manifestações reivindicam o retorno de 5 milhões de palestinos deslocados de suas terras desde a criação do Estado de Israel. Entre 10 mil e 30 mil palestinos protestaram na fronteira da Faixa de Gaza durante as primeiras manifestações. 

Os protestos foram intensificados após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a transferência da embaixada do país em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A decisão rompe com o consenso internacional de não reconhecer Jerusalém como capital israelense, uma vez que é considerada sagrada por muçulmanos, judeus e cristãos, representando um ponto sensível para a região. 

Edição: Vivian Fernandes