CRÔNICA

A figueira e o muro

E todos nós, ao menos, deixamos de atacar aquilo que não conhecíamos

Brasil de Fato I Curitiba

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"A figueira ficava iluminada pelo fogo ao pé dela" / Gibran Mendes

A figueira crescia gigantesca ao lado da casa, no terreno do “velho”, era como a gente chamava, separada de nós por um muro gigantesco e com arames farpados. Ao longe, nalgumas noites, um sábado por mês, a figueira ficava iluminada pelo fogo ao pé dela e escutávamos alguns cânticos que nunca na vida tínhamos escutado – nem na televisão, nem em casa, muito menos na escola. E nossa reação era imediata. Aquilo era desconhecido pra nós e alguns adultos ainda decretaram: “É macumba”. Então, pedras, paus e xingamentos eram comuns por parte da criançada. Até que um dia, quando vimos uma movimentação perto da figueira, subimos no muro na parte da tarde. Certamente, seria mais uma noite para hostilizar o culto que acontecia do lado das nossas casas. Quando o tal “velho”, dono do terreno, nos cumprimentou, sorriu e perguntou se a gente não queria acompanhar aquele momento. Alguns de nós aceitaram o desafio e pularam o muro. E todos nós, ao menos, deixamos de atacar aquilo que não conhecíamos.

Edição: Redação Paraná