BATALHA ELÉTRICA

Venezuelanos enfrentam as dificuldades após três dias sem luz, água e telefone

Governo de Nicolas Maduro denunciará a sabotagem energética em organismos internacionais

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Alguns negócios ficaram lotados depois que a energia voltou em alguns bairros da capital venezuelana, neste domingo (10) / Telesur

Na madrugada deste domingo (10), o abastecimento elétrico da Venezuela começou a ser restabelecido em alguns estados, assim como na capital. Às 13h, cerca de 80% da eletricidade já havia sido recuperada em Caracas.

O apagão afetou 18 dos 23 estados abastecidos pela central hidrelétrica de Guri. O governo afirmou que o blecaute é fruto de sabotagem cibernética no sistema de eletrônico de controle das turbinas. Depois de mais de 60h de apagão, as histórias de superação mostram como os venezuelanos enfrentaram essa crise energética no país.

Para chegar ao trabalho, o artista e jornalista Edwin Rodriguez Useche teve que caminhar mais de 10 km, entre a Praça Venezuela, na zona central de Caracas, e Boleita, na zona leste, quase aos pés da montanha Ávila, que corta Caracas. Ele trabalha no canal de notícia internacional Telesur, um dos poucos meios de comunicação que conseguiu manter as atividades de forma permanente.

"Eu vivo na zona oeste da cidade, consegui um ônibus até Praça Venezuela e depois tive que caminhar. Por sorte, encontrei uma feira e pude comprar umas bananas, pois a maior parte dos negócios estão fechados, assim fica difícil conseguir comprar alimentos", explica o trabalhador, morador do bairro popular de Pinto Salinas, na região de Mariperez.

Assim como Edwin milhares de venezuelanos têm sua própria história de resistência diante das dificuldades enfrentadas no país. O jornalista uruguaio Juan Manuel Silva abriu as portas de sua casa para os vizinhos cozinharem. Pois muitos deles possuem fogões elétricos. A generosidade foi retribuída por um dos vizinhos, que lhe emprestou o carro, pois Juan não tinha como chegar ao trabalho.

A produtora de TV Wendi Uzcategui vive em Petare, uma das maiores favelas da América Latina, localizada no leste de Caracas. "Fiquei impressionada com grau civismo das pessoas nessa crise elétrica. Nos momentos em que a eletricidade voltava, mesmo que por algumas horas, as pessoas, de maneira disciplinada, se colocavam em tarefas para organizar a vida, como guardar água, lavar a roupa e a louça. No meu edifício essa manhã havia luz e foi incrível escutar todas essas máquinas ligadas. Todos estão tratando de resolver os problemas e tentando seguir a vida com normalidade", destacou a venezuelana, que entre sexta-feira e sábado trabalhou mais de 26 horas, já que muitos de seus companheiros não puderam chegar ao trabalho.

Foi assim que o chefe de redação Ricardo Romero permaneceu 19h trabalhando para levar notícias de seu país ao mundo. Ele chegou na Telesur às 14h do sábado e saiu às 9h da manhã deste domingo.

O canal, que conta com uma planta elétrica própria, montou um plano de contingência para manter o público informado. Mas nem todos conseguiam chegar a empresa. "Alguns trabalhadores estão sem telefone e sem sinal, não temos comunicação com eles. Também não têm como chegar à TV", afirma.

Isso porque além do metrô, que deixou de funcionar, os ônibus públicos diminuíram a circulação e uma das razões é que a falta de energia também afetou os postos de combustível, que necessitam de bombas para retirar o produto dos tanques subterrâneos de armazenamento.

Nas ruas, muitos feirantes de frutas e verduras decidiram armar as bancas para vender seus produtos a preço mais baixo para evitar o prejuízo. Algumas farmácias e padarias também se mantiveram abertas durante os dias de apagão.

O pagamento é só em dinheiro vivo, já que a grande maioria das máquinas de cartão deixaram de funcionar. Conseguir dinheiro na Venezuela, normalmente já oferece desafio devido a inflação, especulação e desvalorização da moeda. Nessa situação, essa questão fica mais complicada porque os bancos e os caixas eletrônicos não funcionam desde quinta-feira.

Ataque ao sistema elétrico

Durante uma marcha em apoio ao governo de Nicolás Maduro, em Caracas, neste sábado, o presidente venezuelano afirmou que o sistema elétrico da Venezuela sofreu mais de 150 ataques cibernéticos.

"Os mais graves foram três: quinta às 17h, sexta-feira à 1h da manhã e neste sábado às 12h do meio dia”, disse o presidente que classificou os ataques como uma guerra elétrica. “Usaram alta tecnologia eletromagnética contra a rede elétrica venezuelana”, informou Maduro. Uma multidão foi às ruas, hoje, para apoiar o presidente do país.

O ministro de Comunicação da Venezuela disse que existem evidência de participação de políticos dos Estados Unidos, como o senador Marco Rubio, no ataque contra o sistema eletrônico de controle das turbinas da central hidrelétrica de Guri.

"O Twitter do senador Marco Rubio é revelador", disse Rodriguéz ao referir a publicação feita na quinta-feira (7). "Como soube Rubio, pouco minutos depois do ataque, que os geradores reservas haviam falhado? Nesse momento, ninguém sabia ainda", disse o ministro em declarações à imprensa na sexta-feira.

Sobre esse tema, Rodríguez também disse que o governo venezuelano vai apresentar uma demanda por violação dos direitos humanos nos organismos internacionais.

Nesse domingo, o ministro informou ainda que foram canceladas as aulas em todas as escolas e universidades do país, nessa segunda-feira (11). Por sua parte, o ministro da Defesa anunciou que às instalações elétricas ficarão sob o controle e a vigilância da Força Armada Nacional Bolivariana.

Edição: Katarine Flor