Literatura e política

“Saídas para crise precisam incluir políticas que emancipem a mulher”, diz Manuela

Em Curitiba, a ex deputada lançou seu livro onde conta como foi aliar maternidade e politica

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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"Precisamos reaprender a ouvir. Existe um lugar de fala e existe um lugar de escuta." / Giorgia Prates

Todas as vezes que foi eleita para um mandato, Manuela D´ávila conseguiu um feito importante, seja de vereadora mais jovem eleita, aos 25 anos, seja como deputada federal por dois mandatos e mais recentemente deputada estadual como a mais votada da cidade de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul. Pela primeira vez, depois de 14 anos, inicia um ano sem mandato como parlamentar e diz estar muito feliz. Veio a Curitiba na nessa segunda, 11, para lançar seu livro “Revolução Laura”, que parte de anotações suas durante a campanha presidencial em que foi candidata a vice-presidente da República, e reflexões sobre a maternidade e o espaço da política. O lançamento aconteceu no debate “Gênero e Resistência”, no Teatro da Reitoria, organizado pelo Instituto Política por.de.para Mulheres .

Em entrevista para o Brasil de Fato PR, Manuela fala sobre caminhos para fortalecer a luta das mulheres e o diálogo com a população:

BdF-PR - Você veio a Curitiba para lançar o livro “Revolução Laura” que leva o nome da sua filha. 

É um livro de amor. Ter vivenciado uma campanha, no caso eu como candidata a vice presidente da República, junto com a minha filha, Laura, foi um processo de tomada de consciência de como é difícil as mulheres ocuparem um espaço público. Mas, também como é possível adaptar e mudar estes espaços quando nós nos impomos. O livro parte de anotações minhas ao longo desta trajetória que tenta falar sobre uma experiência inédita de uma mulher com uma criança amamentada concorrendo a uma eleição presidencial.

Depois de 14 anos na política parlamentar, você inicia 2019 sem mandato. Quais são teus planos?

Estou muito feliz. Para mim, é a possibilidade de voltar a militar desde este lugar do movimento social que é a minha origem, tendo mais liberdade de tempo para conversar, ouvir e formular conjuntamente saídas para a crise tão grave que o Brasil vive.  Para fazer tudo isso, criei um Instituto junto com mais outras pessoas para trabalhar o tema das Fake News e as redes de ódio.

E de que forma é possível conscientizar a população a respeito das fake News?

A gente precisa dar a dimensão adequada para este tema, como algo que estrutura o que estamos vivendo e não como algo periférico. Queremos que as pessoas compreendam o impacto das redes de ódio nas vidas das pessoas. E resgatar um valor que se perdeu, que é a empatia. A ideia que o outro tem direito ao mesmo que eu tenho. Quando a gente resgata a ideia de empatia também é mais fácil criar um projeto de desenvolvimento mais justo pata o Brasil. E a questão é: Se a gente acha que conquistar para gente é o suficiente ou se a gente acha que é para todos.

De que forma você acha que é possível reconquistar a base social já que setores de esquerda já fizeram essa autocrítica?

Precisamos reaprender a ouvir. Existe um lugar de fala e existe um lugar de escuta. Nós ao nos organizarmos coletivamente na resistência, precisamos fazer estas duas coisas: a fala e a escuta. Isso tudo no sentido de construir de forma clara um projeto de desenvolvimento para o país que dialogue com as angustias da população.

Considerando que historicamente o feminismo tem várias fases, atualmente qual a luta primordial das e para mulheres?

Eu acho que o principal eixo do feminismo na atual conjuntura é o projeto de enfrentamento à crise, porque não é casual que no mundo inteiro as mulheres sejam as mais mobilizadas. É porque as crises e a saídas de austeridade punem principalmente as mulheres. Numa sociedade machista, as mulheres é que utilizam os serviços do Estado de forma prioritária. Se a saída de austeridade propõe o congelamento do PIB por 20 anos, são as mulheres que terão trabalho mais precarizado com ausência de vagas em creches para os seus filhos. O Estado é responsável por um conjunto de serviços que permitem que a mulher seja mais ou menos emancipada. Para mim, ao pensarmos nas saídas para crise precisamos pensar em políticas públicas que emancipem a mulher.  

 

 

Edição: Laís Melo