CONTROLE

Opinião | Rio de Janeiro: laboratório para uma política de controle

As favelas e periferias são escolhidas pelos governantes para que as polícias experimentem suas armas e treinamentos

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Wilson Witzel, atual governador do Rio, nos primeiros dias de seu governo declarou que “a polícia tem que atirar na cabecinha” / MAURO PIMENTEL/AFP

É crescente a política de criminalização e de militarização no Brasil. O Rio de Janeiro nos últimos anos foi - sem dúvida - um grande laboratório de uma política de matar, controlar, encarcerar. Sabemos, também, que são as favelas e as periferias os locais escolhidos pelos governantes para que estas polícias experimentem suas armas, treinamentos de controle, censura, e outros aparatos militares como drones, helicópteros e carros blindados (caveirões), etc, em uma política racista.

Nos últimos 10 anos, quase 50 favelas do Rio de Janeiro sofreram cotidianamente com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), e, em algumas delas, com o exército. Em 2014 e 2015, o Conjunto de Favelas da Maré, localizada na zona norte do Rio, favela em que nasci e moro, sofreu a invasão do exército: ano de realização da Copa do Mundo no Brasil. Naquele período, tivemos que conviver com tanques de guerra; soldados revistando moradores; revistando crianças; invadidos as casas; entrando nas escolas, substituindo, algumas vezes, a presença de professores em sala de aula; sem falar na distribuição da revistinha "O Recrutinha", com desenhos de tanques de guerra para as crianças desenharem e montarem - algo que não deveria ter sido permitido dentro de um país que se declara democrático.

Tanques, helicópteros, drones

Não à toa, definimos o Rio de Janeiro como um grande laboratório desta política de controlar e de matar. No ano passado, não foi só a favela da Maré que voltou a sofrer com operações policiais ordenados pelas polícias junto ao exército, mas todo o Rio esteve sob intervenção federal militar. Ou seja, o que foi “experimentado” pelos governantes e suas polícias e soldados na Maré (2014-2015), foi colocado em prática, anos seguintes, para todo o Rio.

Mas, sabemos que os moradores do asfalto, dos bairros nobres da cidade, não sentiram o impacto em seu cotidiano e sua saúde mental de ver e ter que conviver com tanques de guerra, helicópteros e carros blindados e drones, tiros, terror - foi a favela e a periferia que sofreram com tudo isso. Poderíamos até afirmar que no asfalto a política que funciona é a baseada nos direitos humanos, é a segurança pública  que garante a vida, enquanto na favela e na periferia, a política é a de militarização da vida como forma de controle dos corpos e territórios empobrecidos.

Wilson Witzel, atual governador do Rio, nos primeiros dias de seu governo declarou que “a polícia tem que atirar na cabecinha”, definindo que toda essa forma de controle, de encarceramento, de militarização e de criminalização, é feita de forma pensada, é de cima para baixo, é uma política que deixa nítida a separação entre brancos e negros, favela e asfalto, pobres e ricos, já que são sempre os mesmos corpos atingidos e “experimentados”.

Se relembrarmos algumas falas de governantes anteriores, perceberemos que falas e políticas parecidas foram feitas. Sérgio Cabral, antigo governador do Rio, declarava que “mulher de favela era fábrica de produzir marginal”. A visão dos de cima sobre as favelas e periferias e, consequentemente, suas práticas governamentais seguem o mesmo ritmo, nada muda.

Diante de uma política governamental que tem como prática a militarização, nos perguntamos: Quem controla essa política de matar se ela vem de cima? Se ela vem dos governantes e das suas redes de controle - mídia, polícia, até mesmo a educação vem sendo militarizada no Rio e no Brasil - quem controla os de cima e suas polícias?

Nas favelas do Rio, na Palestina, no Haiti

Em dezembro do ano passado, Witzel viajou a Israel em busca de drones para aumentar a repressão e para atirar e matar nas favelas do Rio. Infelizmente, não surpreende que o governador recorra a tecnologias de Israel, Estado que há décadas, utiliza o povo palestino como laboratório de tecnologias e táticas repressivas e assassinas, através de um regime brutal e ilegal de apartheid, colonização e ocupação. Tudo isso é exportado como parte de uma lucrativa indústria.

Se o Brasil hoje já é o quinto maior comprador de armas de Israel e o Bope [Batalhão de Operações Policiais Especiais] já realiza treinamentos com empresas militares israelenses, a viagem de Jair Bolsonaro a Israel no mês passado sinaliza uma coordenação ainda mais profunda entre os dois governos. E as conexões internacionais não param por aí: no ano passado, por exemplo, três caveirões utilizados na operação brasileira no Haiti foram entregues pelo Exército Brasileiro à Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro.

Assim, das favelas cariocas à Faixa de Gaza ocupada e sitiada, das periferias brasileiras ao Haiti militarizado pelo Brasil, são crescentes e alarmantes os laços entre os governos e empresas que desafiam nossas vidas, dignidade e nossos direitos. Contra a militarização e racismo globalizados não nos resta outra alternativa que não sejam internacionalizar nossa resistência.

Se eles internacionalizam o racismo, a militarização e o apartheid, nós internacionalizaremos a luta contra o racismo, a militarização e o apartheid!

*Moradora da Maré, jornalista (Puc-Rio), mestre em Comunicação, Educação e Cultura em Periferias Urbanas (Febf-UERJ) e integrante do Movimento de Favelas do Rio de Janeiro.

Edição: Mariana Pitasse