Incertezas

Sem confirmar candidatura, Cristina Kirchner busca unidade para eleições argentinas

Ex-presidenta, eleita senadora em 2017, lidera coalizão que busca agrupar setores de oposição ao atual presidente Macri

Brasil de Fato | Buenos Aires (Argentina)

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Senhora segura cartaz em apoio à Cristina Kirchner durante marcha na Praça de Maio, em agosto de 2018 / Foto: MONK Fotografía

A dois meses do prazo final para confirmação de candidaturas nas eleições argentinas, Cristina Kirchner ainda não anunciou sua participação na corrida presidencial. Em meio à incerteza sobre o nome que disputará o pleito de outubro de 2019, a Unidad Ciudadana, coalizão que a ex-presidenta integra e pela qual se elegeu senadora em 2017, tenta construir acordos para fazer frente à aliança Cambiemos, do atual presidente Mauricio Macri

Com um apelo à articulação política e à construção de consensos, o espaço político que Kirchner lidera pretende agrupar setores da oposição em torno a críticas às políticas econômicas de Macri, seu principal ponto de debilidade. Sob lemas como "existe outro caminho" e "queremos voltar a ter futuro", a estratégia da Unidad Ciudadana é evitar discussões sobre o passado e esvaziar o discurso do governo de Macri, que se apoia no que chama de "pesada herança" kirchnerista como obstáculo para a melhora da economia argentina.

"Para Macri, a candidatura de Cristina é necessária, porque é a única que permite polarizar e confrontar em uma campanha baseada na ideia que ele defendeu desde o primeiro minuto de seu governo, a de que há uma luta contra o passado, contra uma herança pesada. Acredito que, se Cristina Kirchner não for candidata, as poucas chances que ele ainda tem de ganhar terminam. Cristina é necessária para a disputa de Cambiemos", avalia Elizabeth Gómez Alcorta, advogada e referência política da Frente Patria Grande – organização criada em outubro de 2018 com o objetivo de se criar um espaço popular para as eleições de 2019.

Mauricio Macri

Enquanto a candidatura de Cristina Kirchner não se confirma, Macri enfrenta desafios relacionados a seu desempenho como governante. 

Em 2015, a aliança Cambiemos chegou não só ao governo nacional, mas reafirmou seu domínio sobre a cidade de Buenos Aires, capital do país, e venceu a disputa pelo governo da província (estado) de Buenos Aires, que concentra quase metade dos argentinos e é um tradicional território político do peronismo – movimento político que agrupa lideranças posicionadas à esquerda e à direita no espectro político.

Em 2017, Cambiemos confirmou seu favoritismo nas eleições legislativas e venceu em 13 das 24 províncias da Argentina. A coalizão de Macri conquistou os cinco distritos eleitorais mais importantes do país, as províncias de Buenos Aires, Córdoba, Santa Fé e Mendoza, e a cidade de Buenos Aires.

Já em 2018, a Argentina registrou uma inflação de 47%. Em junho daquele ano, o governo de Macri acertou um empréstimo de US$ 57 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o maior valor destinado pelo fundo ao país.

Para o cientista político Nicolás Tereschuk, a situação crítica da economia argentina faz com que os planos de reeleição de Macri se vejam ameaçados, especialmente pela perda de poder político diante dos resultados na economia, o que afeta também o alcance do Judiciário sobre seus opositores – e aumenta a possibilidade de que ele também seja alvo de investigações.

"A figura central do sistema político da Argentina é o presidente. Se esse presidente tem muito poder, o Judiciário se movimenta da maneira que o presidente determina e, quando esse presidente perde poder, o Judiciário não segue a sua própria canção, espera que alguém coloque a partitura", explica Tereschuk.

Diante de um presidente enfraquecido, o peronismo vê uma possibilidade de apresentar candidaturas de maior consenso, que apaguem algumas nuances ideológicas em nome da possibilidade de reconquistar o poder perdido nas eleições de 2015. "O que se vê agora é o kirchnerismo fazendo acordos com diferentes setores do peronismo, acordos que não vimos nas eleições de 2017, quando o peronismo se mostrou muito dividido", aponta o cientista político. 

Cristina Kirchner

A situação jurídica de Cristina Kirchner também é motivo de alerta. A ex-presidenta já conseguiu, no Senado, evitar a perda de foro privilegiado diante de pedidos de prisão preventiva, que não puderam ser cumpridos. No entanto, a mesma casa legislativa aprovou por unanimidade que fossem realizadas operações de busca e apreensão em dois endereços da senadora – ela mesma votou a favor. Em 21 de maio, a ex-presidenta deve sentar pela primeira vez no banco de réus em um processo em que é acusada, junto a integrantes de seu governo e empresários, de integrar uma associação ilícita para desviar recursos do Estado em obras públicas. 

"Eventualmente ela teria que sentar no banco dos réus durante a campanha e acredito que isso forma parte das variáveis que ela avalia para decidir se se candidata ou não e, eventualmente, para decidir quando lança essa candidatura", pondera Gómez Alcorta. A data estipulada para a apresentação de candidaturas é 22 de junho.

A causa mais importante contra Kirchner é o caso chamado Cadernos da Propina, iniciado a partir de anotações em um caderno de um ex-motorista de Cristina e Néstor Kirchner, ex-presidente (2003-2007) morto em 2010. A causa também conta com a colaboração de delatores ligados ao casal de ex-mandatários. 

No entanto, o próprio Judiciário se encontra hoje no centro de um debate sobre sua legitimidade, com a revelação de contribuições regulares entre promotores, juízes e agentes ocultos de inteligência, especialmente a partir do caso de Carlos Stornelli, promotor que investiga a causa dos Cadernos e é acusado de extorquir empresários supostamente citados em delações. 

A falta de transparência sobre a forma como atuam e o alcance das informações que agentes de inteligência coletam na Argentina reforçaram o debate sobre a necessidade de reformar o Poder Judiciário do país, segundo Gómez Alcorta.

"Sem dúvida, o Judiciário é utilizado como principal ferramenta política para a disputa eleitoral. Essas revelações expuseram isso. Agora, ninguém pode fingir que não vê, porque é evidente o papel que o Judiciário tem e suas relações promíscuas com a agência de inteligência e o poder político", explica a advogada, que lembra que esse problema não é exclusivo do macrismo e persistiu em todos os governos democráticos desde 1983.

Edição: Aline Carrijo