CONFLITOS

Do PSL, deputada denuncia ministro e expõe mais fragilidades do governo Bolsonaro

Cientista político analisa que “facções” podem levar a uma crise de governo

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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A deputada federal Alê Silva (PSL) afirma ter sido ameaçada pelo ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, também do PSL / Foto: Reprodução e Valter Campanato/Agência Brasil

O governo federal está envolvido em mais uma polêmica relacionada às candidaturas laranjas. Desta vez, uma deputada do partido do presidente Jair Bolsonaro (PSL) denuncia que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, a teria ameaçado de morte. Para o professor Juarez Guimarães, do Departamento de Ciência Política da UFMG, o caso é mais uma evidência de que o governo federal é sustentado por facções e tende a uma crise de governo.

“O próprio PSL não tem funcionado como um partido, mas como um agregado de políticos eleitos que lutam entre si por influência. Muitas vezes com métodos próprios de facção, como ameaçar uma pessoa de morte”, reflete o professor. Na linguagem da Filosofia Política, facções são grupos de interesses particulares, individuais, em oposição a interesses coletivos.

Os conflitos entre pessoas da base e da equipe de governo de Bolsonaro, aliados à impopularidade crescente que tende a continuar alta, podem criar uma situação não só de fraqueza, mas uma crise de governo, cogita Juarez. O que deve continuar refletindo na dificuldade de constituir uma maioria parlamentar no Congresso Nacional.

Entenda o conflito

A deputada federal por Minas Gerais Alê Silva (PSL) procurou a Polícia Federal em 10 de abril afirmando ter ficado sabendo de ameaças por parte do ministro do Turismo, que também é filiado ao PSL. Ela é a primeira parlamentar a expor para as autoridades a fraude de candidaturas que Marcelo Álvaro teria organizado, nas eleições de 2018, quando era presidente do PSL em Minas.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Alê Silva afirma que procurou a Polícia Federal para prestar um depoimento espontâneo e também requereu escolta policial. As duas ameaças feitas pelo ministro teriam sido transmitidas a ela por colegas de partido e a deputada terá uma escolta de dois policiais militares.

O ministro respondeu às acusações por meio de entrevista à rádio Super Notícia, na manhã desta segunda-feira (15). Ele rechaçou as quatro denúncias de candidatas laranjas divulgadas pela imprensa desde janeiro, afirmando que todas foram fruto de motivações pessoais. “Cleuzenir [primeira a denunciar o esquema] começou a pedir emprego para o marido e alguém da casa dela. Quando ela percebeu que o emprego não sairia, ela muda o comportamento, muda a fala, e começa a fazer denúncias”, declarou.

No caso da deputada Alê Silva, o ministro alega que houve vingança política, já que a deputada perdeu influência nos diretórios do PSL na sua cidade, Coronel Fabriciano, e região. “No mundo político a gente acaba fazendo alguns adversários, e essas duas pessoas do próprio PSL, os nomes, documentos e endereços já estão de posse da Polícia Federal e do Ministério Público, mostrando que existe uma ação coordenada para atingir o ministro do turismo”, expõe o ministro.

Repercussão

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) compartilhou em seu twitter que procurou as deputadas federais que chefiam a Secretaria da Mulher e a Procuradoria da Mulher da Câmara sobre as ameaças a Alê Silva. Ela diz que as deputadas farão uma reunião na próxima semana para tomar medidas em solidariedade.

Nem o governo federal nem Jair Bolsonaro se pronunciaram publicamente sobre as denúncias.

O “laranjal”

Marcelo Álvaro Antônio foi deputado federal de Minas Gerais por quatro anos. Em 2018, mudou de partido pela terceira vez, ingressando no PSL, e apoiou Jair Bolsonaro; assim, sua votação tornou-se quatro vezes maior. Mesmo sendo novo no partido, assumiu o cargo de presidente da legenda de Minas em janeiro de 2018 e coordenou as campanhas.

De acordo com o jornal Folha de São Paulo, Marcelo Álvaro Antônio está envolvido em um esquema que implica quatro candidaturas laranjas em Minas Gerais. Elas teriam recebido R$ 279 mil da verba pública. Cerca de R$ 85 mil foram destinados a quatro empresas que são de assessores, parentes ou sócios de assessores do hoje ministro do Turismo.

Edição: Joana Tavares