AMÉRICA LATINA

Após suicídio de García, Lava Jato do Peru ouvirá ex-diretor da Odebrecht no Brasil

Delação de Jorge Barata implicou pessoas próximas ao ex-presidente peruano e serviu como base para seu pedido de prisão

Concentração no funeral de Alan García, que era investigado pela Lava Jato; procuradores voltam ao Brasil / Foto: Wikicommons

Procuradores da Lava Jato peruana voltarão ao Brasil nesta terça-feira (23) para ouvir um novo depoimento do ex-diretor da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, cujos depoimentos anteriores implicaram todos os últimos quatro presidentes eleitos no país andino, incluindo Alan García, que se suicidou na última quarta (17) pouco antes de ser preso. Mesmo diante do trágico acontecimento, a operação, que dizimou a classe política do Peru, pretende dar continuidade às investigações em meio ao apoio popular angariado e às ainda tímidas críticas e questionamentos sobre os métodos empregados ao longo da força-tarefa.

García, prestes a completar 70 anos, sempre alegou inocência frente às acusações de recebimento de coimas (propinas)no valor de 4 milhões de dólares provenientes da brasileira Odebrecht na licitação do metrô de Lima e da estrada Interoceânica, duas megaobras que marcaram sua gestão de 2006 a 2011. A delação do brasileiro Barata, implicando pessoas do entorno do ex-presidente, incluindo seu ex-ministro e secretário pessoal Luis Nava, foram as bases da decisão da Justiça peruana que determinou a detenção de García, sem a demonstração de provas materiais.

O ex-mandatário havia pedido ao Uruguai asilo político, denunciando ser vítima de perseguição, argumento rejeitado pelos uruguaios no início do ano.

"O presidente sempre assumiu suas responsabilidades frente ao povo e à história, não frente à polícia fascista que deseja exibir troféus. Estabeleceu-se um mecanismo de perseguição e busca de popularidade de pessoas imbuídas de poder que querem passar para a história como carcereiros, mas suas biografias ficarão escritas em páginas muito escondidas e com letras bem pequenas", afirmou o deputado do Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra) Mauricio Mulder, amigo pessoal de García e um dos poucos críticos dos métodos empregados ao largo dos processos e suas consequentes sentenças.

"A visão crítica é por parte da população, a qual considera que se está abusando de duas figuras jurídicas: a detenção preliminar, que permite o encarceramento do investigado por até dez dias e a prisão preventiva, quando a reclusão pode alcançar 36 meses. Nós, os analistas políticos, dizemos que a justiça é igual para todos", diz o analista peruano Luis Fernando Nunez.

No ano em que elegeu o combate à corrupção como tema da República para 2019, a Justiça decretou a prisão preventiva do último presidente eleito, Pedro Pablo Kuczynski, de 80 anos, que renunciou ao cargo devido a supostos delitos de corrupção em 2018, além da compra de votos de parlamentares para evitar sua destituição. Na mesma condição, desde o ano passado, está a opositora Keiko Fujimori, líder do fujimorismo, corrente majoritária no Congresso através da Fuerza Popular. Ollanta Humala (2011-2016), presidente que permaneceu privado de sua liberdade por quase um ano, segue investigado e há ainda a demanda para extradição do ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006), atualmente vivendo nos Estados Unidos, todos por conta de possíveis desvios relacionados às atividades da Odebrecht.

Os conflitos de García 

Apesar da montanha russa que caracterizou a atuação política do líder do movimento aprista, o suicídio chocou aliados e adversários, uma vez que o enfrentamento de crises era recorrente na carreira do político, eleito pela primeira vez à presidência com 35 anos. Embora surpresos com a notícia de que o ex-mandatário havia atirado contra a própria cabeça no momento em que a polícia entrava em sua casa, o sentimento expressado por muitos demonstrava pouca resignação diante do ocorrido, senão um tom revanchista, conforme expressam peruanos ouvidos pela reportagem. O atual presidente Martín Vizacarra expressou suas condolências.

Da tentativa de nacionalização de setores da economia durante o primeiro mandato de 1985 a 1990, quando chegou a ser considerado uma liderança do campo de esquerda na região, ao alinhamento às práticas neoliberais nos anos 2000, época em que voltou à presidência, García manteve-se por décadas na dianteira de um dos movimentos políticos maios longevos do Peru, o Apra, apesar das contestações. "Em 1985, o partido Aprista, que havia sido proscrito em décadas anteriores ao ser vinculado com a extrema-esquerda, tinha entre suas bandeiras a luta contra o imperialismo. Sob essa perspectiva, García representava o social cristianismo e vinculava-se à Internacional Socialista", diz Luis Poma, assessor parlamentar da Frente Ampla peruana.

"Seu governo tenta expropriar os bancos privados, razão do confronto com as oligarquias, desencadeando hiperinflação e o descalabro econômico. Essa posição inicial de estatizar os meios de produção se contradizia com a política que atentava contra os direitos humanos em sua luta contra o Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro", complementa. As evidências de violações possuem uma síntese da violência empregada pelo Estado no episódio da Matança de El Frontón, quando cem presos que seriam ligados à guerrilha foram assassinados durante um suposto motim na ilha prisão localizada nas proximidades de Lima, em 1986.

Exílio e volta

Logo após deixar o Executivo, o ex-presidente considerou-se ameaçado pelo regime de Fujimori, que governaria entre 1990 a 2000, e exilou-se por oito anos entre a Colômbia e a França - García evitava repetir a experiência vivida por seu pai, preso político durante a ditadura de 1950 por trabalhar como secretário do Apra. De volta ao Peru com a prescrição de processos que enfrentava, perderia a eleição de 2001 para Alejandro Toledo. Cinco anos mais tarde, em aliança com as oligarquias que antes enfrentara, derrotaria Ollanta Humala, associando o adversário ao chavismo, ao mesmo tempo em que se apresentava como moderado e capaz de fazer o país avançar.

O arrojo discursivo e a moderação bastaram para que o eleitorado relevasse as denúncias de violação e as dificuldades financeiras da primeira gestão, colocando uma vez mais Alan García no principal posto da República em 2006.O chamado superciclo econômico experimentado com o subida do preço dos minerais, sobretudo do cobre, fizeram o PIB peruano deslanchar, possibilitando a realização de obras e alguns programas sociais como o Água para Todos. A sensação, no entanto, era de que a bonança pertencia às empresas e investidores e não à massa dos trabalhadores.

A última eleição comprovou o espaço perdido.  García fez menos de 5% dos votos no primeiro turno da disputa presidencial e o movimento aprista elegia uma de suas menores bancadas para o Parlamento, com apenas cinco deputados. Pesquisa divulgada pela Ipsos em 2018 apontou que 90% da população desaprovava o ex-presidente, números que foram de alguma maneira amenizados com o comparecimento expressivo de apoiadores ao funeral público do líder, que deixou uma carta lida por sua filha Lucia na qual expõe as razões para o seu ato.

"Se reverterá (essa rejeição), porque, ao final da história, onde está a propriedade, as minhas contas correntes? Não existem. O que me interessa é que o Peru avance e o partido aprista se mantenha. Passarão os anos para entenderem que o meu interesse é pela história e não a opinião imediatista e pequena dos que agora vivem", declarou Alan García em entrevista à TV peruana, um dia antes de seu suicídio.

Edição: Opera Mundi