Junta militar

Pelo menos 30 manifestantes são mortos em repressão a protesto pacífico no Sudão

Lideranças da mobilização chamaram episódio de “massacre sangrento” e fizeram chamado para “desobediência civil total”

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Militares assumiram controle dos arredores da sede do exército na capital após dispersarem protesto pacífico com armas de fogo / Foto: Ashraf Shazly/AFP

Pelo menos 30 manifestantes foram mortos e mais de cem ficaram feridos na manhã desta segunda-feira (3) durante ação das forças de segurança do Sudão contra uma vigília que ocupava a área em torno da sede do exército e do Ministério da Defesa em Cartum, capital do país, há cerca de um mês.

Depois de lançar gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes, sem sucesso, os agentes atiraram com armas de fogo contra o ato. Há mais de um mês, grupos organizados ocuparam o local para reivindicar a saída da junta militar que tomou o poder em 11 de abril.

Um vídeo publicado nas redes sociais mostra o momento dos tiros contra os manifestantes, além de agentes com cassetetes agredindo pessoas que já estavam caídas no chão perdendo a consciência. Além dos mortos, há relatos de muitos feridos em estado grave.

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Barracas montadas pelos manifestantes foram incendiadas pelas forças de segurança. “Eles [os agentes] agora controlam a maior parte da área da vigília e atearam fogo nas clínicas improvisadas. A maioria dos manifestantes acabou dispersada. Os soldados estão bloqueando todas as entradas na área com veículos militares para impedir a volta da população”, afirmou Mohammed Alamin, jornalista de Cartum, à Al Jazeera.

Muitos dos manifestantes obrigados a sair da vigília principal se reagruparam em outras regiões da capital, onde ergueram barricadas e bloquearam pontes e vias com pedras e queimaram pneus para impedir o deslocamento dos veículos das forças de segurança.

Entre os agentes envolvidos na operação, havia não só membros da polícia, como também do grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (FAP), utilizados pelo regime derrubado de Omar Al-Bashir no genocídio de Darfur.

“Os manifestantes que estavam em vigília em frente ao comando geral do exército estão enfrentando um massacre de uma tentativa traiçoeira de dispersar o protesto”, afirmou em nota a Associação de Profissionais Sudaneses (APS), que tem liderado as manifestações massivas de civis no Sudão desde a queda de Bashir.

Há denúncias de que os soldados das FAP, liderados pelo vice-presidente da junta militar hoje no comando do país, invadiram hospitais, atiraram com balas de fogo e espancaram as equipes médicas que estavam atendendo os manifestantes feridos. Muitas clínicas estão até agora cercadas pelas FAP.

O Comitê de Médicos Sudaneses, que tem acompanhado de perto as mobilizações, fez um chamado para todos os profissionais da área se mobilizarem e se prepararem para atender os feridos, pois ainda há receio de mais episódios de violência. A APS também chamou a Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho e a organização Médicos Sem Fronteiras a intervir, já que muitas pessoas com ferimentos ainda não conseguiram receber tratamento.

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A APS afirmou que não vai hesitar diante do terrorismo de Estado e prometeu “não recuar até a queda da junta militar”. A associação conclamou os cidadãos de todo o Sudão a irem às ruas com “manifestações pacíficas e fechamento de todas as vias principais com barricadas”. Milhares de pessoas de todo o país estão se mobilizando em resposta ao chamado da APS por uma “desobediência civil total”.

As Forças da Declaração de Liberdade e Mudança (FDLM), que incluem uma variedade de partidos políticos de oposição além da APS, anunciaram que não vão negociar mais com a junta e aumentarão a resistência.

Reafirmando que a junta militar tem “responsabilidade criminal pelo sangue dos mártires”, as FDLM prometem julgar os responsáveis pela violência de forma justa após o sucesso da revolução, que afirmam ser “inevitável”.

Greve e repressão

A ação desta segunda-feira é mais um episódio de violência por parte dos militares que tomaram o poder após a queda de Bashir. Na semana passada, dois manifestantes foram mortos supostamente por “balas perdidas” durante confronto com as forças de segurança, enquanto dezenas ficaram feridos e outros foram presos em resposta a uma greve geral deflagrada na terça-feira (28). Uma das vítimas era uma trabalhadora ambulante que estava grávida, confirmou o Comitê de Médicos Sudaneses.

Foi a Associação de Profissionais Sudaneses que chamou a greve geral, com apoio de diversos partidos de oposição, para pressionar a junta militar, no poder desde 11 de abril, para começar a transição para um governo civil. Em dois dias de paralisação, 90% dos trabalhadores do país aderiram à greve, nos setores público e privado, incluindo transporte público, bancos, portos, hospitais e farmácias, segundo a organização.

A rádio Dabanga informou que as bancas de jornal também ficaram vazias nos dias de mobilização, indicando a adesão de jornalistas e outros profissionais da mídia.

O Conselho Militar de Transição (CMT), que está no poder do país, não assumiu a responsabilidade pelas mortes da semana passada, alegando que o soldado que atirou estava bêbado. O CMT alegou que os manifestantes eram “elementos rebeldes” que representavam uma ameaça para a “coerência do Estado e a segurança nacional”, já indicando o aumento da repressão que se viu nesta segunda-feira.

Antes mesmo do anúncio feito pela junta, a APS divulgou uma nota pedindo que todos os atores “monitorem de perto a situação do Sudão e façam todo tipo de pressão sobre o CMT para evitar uma iminente ameaça às liberdades e vidas da população sudanesa”.

Perseguição

Há denúncias de que, na quarta-feira (29), mesmo dia do confronto, as forças do Estado também invadiram a agência de notícias Ramtan, em Cartum, detiveram um produtor e um fotógrafo, e confiscaram equipamentos e documentos da empresa. A sucursal da rede Al Jazeera na cidade também foi fechada e jornalistas e equipes do veículo tiveram a autorização de trabalho revogada.

*Com atualizações da Al Jazeera.

Edição: Peoples Dispatch | Tradução: Aline Scátola