VISITA PRESIDENCIAL

Em encontro com Macri, Bolsonaro ignora crise argentina e defende acordo com UE

Protestos contra a visita do presidente brasileiro estão marcados para ocorrer em Buenos Aires

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Bolsonaro foi recepcionado por Macri e sua esposa, Juliana Awada, em um dos salões da Casa Rosada, sede da presidência argentina / Juan Mabromata/AFP

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) se encontrou nesta quinta-feira (6) com o mandatário da Argentina, Mauricio Macri. Em declaração conjunta, concedida no início da tarde na Casa Rosada, sede da presidência argentina, o chefe de estado brasileiro falou do desejo dos países em promover uma maior integração entre o Mercosul e a União Europeia (UE). 

“Estamos na iminência de assinar um acordo [entre] o Mercosul e a União Europeia […] Nesse momento, trouxemos praticamente todos os ministros que interessavam e interessam para a concepção deste objetivo, e em grande parte devemos ao seu trabalho”, afirmou Bolsonaro, em referência a Macri, após reunião a portas fechadas entre os chefes de estado. 

O presidente chegou à Casa Rosada aproximadamente às 11h40 e entrou por uma porta lateral enfeitada com as bandeiras de Brasil e Argentina. Bolsonaro foi recepcionado por Macri e sua esposa, Juliana Awada, em um dos salões da sede.

Embora o mandatário brasileiro já tenha recebido o chefe de estado argentino em janeiro, é a primeira vez que vai a Buenos Aires. A visita presidencial conta com uma comitiva de 15 pessoas, entre as quais os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil), Fernando Azevedo e Silva (Defesa), Paulo Guedes (Economia), Tereza Cristina (Agricultura) e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional. 

Macri também falou da tentativa de união entre Mercosul e UE. São “grandes oportunidades de avanço da integração global, que permitirão dar um novo dinamismo ao nosso desenvolvimento industrial e à nossa agricultura, que tem uma grande potência. Temos uma grande possibilidade de crescimento futuro”, disse o mandatário.

A integração regional, no entanto, ficou em segundo plano durante o comunicado. Uma reunião ministerial ocorrerá em Bruxelas no final deste mês para discutir o acordo com a UE. Segundo o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, é possível que um pacto seja concluído no encontro.

Eleições argentinas

Sem citar diretamente a ex-presidente e atual senadora argentina, Cristina Kirchner, candidata à vice nas eleições que ocorrem em outubro deste ano, Bolsonaro fez um apelo para que os eleitores reelejam Macri. 

“Conclamo o povo argentino, que Deus abençoe a todos eles, porque terão pela frente agora o mês de outubro eleições. Todos têm que ter, como no Brasil grande parte teve, muita responsabilidade, muita razão e menos emoção para decidir o futuro desse país maravilhoso", disse. 

Atualmente, a Argentina atravessa uma de suas maiores crises econômicas. Alguns especialistas chegaram a comparar o momento vivido no país com 2001, ano em que o então presidente Adolfo Rodríguez Saá declarou moratória às vésperas do natal, dando um calote que superava os US$ 102 bilhões. 

A desvalorização da moeda argentina, a inflação, que fechou 2018 em 47,6%, e o empréstimo de US$ 57,1 bilhões junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), afetaram a imagem de Macri, que passa por uma diminuição de sua popularidade. 

Manifestações

A visita de Bolsonaro gerou reações imediatas nos argentinos. Manifestações contra sua ida ao país estão marcadas para ocorrer às 18h desta quinta-feira na Praça de Maio. O protesto, que contará com a presença de ONGS, políticos locais, e movimentos sociais, começará com um ato das Mães da Praça de Maio, grupo que desde a última ditadura argentina (1976-1983) atua no país exigindo notícias de seus filhos desaparecidos. 

À Agência Efe, os organizadores do evento, que terá como nome #ArgentinaRechaçaBolsonaro, afirmaram que a ascensão do mandatário “à presidência e sua contínua apologia à tortura e à discriminação fazem com que no Brasil cresçam todos os indicadores de violência racista, de gênero, feminicídios, homofobia e transfobia”.

Os manifestantes também afirmaram que irão protestar em defesa da soberania e solidariedade latino-americana, criticando as políticas de Macri e o enfraquecimento dos blocos regionais. 

O mandatário brasileiro deve regressar ao Brasil na manhã desta sexta-feira (7).  Além da reunião com Macri e a declaração conjunta, a agenda de Bolsonaro inclui ainda uma reunião ampliada com ministros, um encontro com representantes dos poderes Legislativo e Judiciário, com empresários, e uma transmissão ao vivo no fim do dia.

Edição: Aline Carrijo