Opinião

Artigo | Sérgio Moro e Dallagnol operavam na sombra

Pelo avançar das investigações jornalísticas e, espera-se, também policiais, chegaremos ao nome de todos envolvidos

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Procurador do Ministério Público Federal e coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol / Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

De acordo com investigações que fizemos no meio virtual, concluímos que a direita brasileira difundiu diante da sociedade o mito da conspiração comunista, tendo o Foro de São Paulo como fator imagético primordial. Tal mito, por espalhar o terror, afirmando que as “forças do mal” (comunistas) estariam por dominar toda a América Latina (URSAL), levou as autodenominadas “forças do bem” a se unir, organizar e agir, sob a forma de contra complô, de modo a enfrentar as tais “forças malignas”. As recentes revelações de The Intercept Brasil estão deixando claro os primeiros nomes da Organização Criminosa que cooptou mulheres e homens públicos, colocando-os à serviço da “causa santa”, o combate ao comunismo.

 Como afirmamos em recente entrevista e por meio de artigo publicado pelo Brasil de Fato, as ditas forças do bem preferem operar nas sombras. Entretanto, por sombras devemos entender não apenas o fato de estarem agindo às escuras, mas também pelo fato de estarem perseguindo a própria sombra. Segundo Jung, a sombra seria o lado oculto que possuímos, que reprimimos e que não queremos que seja mostrado. Todos possuímos uma, mas, quanto mais reprimida a sombra, mais perigosa e traiçoeira ela se transforma. Indivíduos de moral baixa e corruptos, como Moro e Dallagnol, percebem a si mesmos como pessoas honradas e impolutas, recalcando e escondendo diante de si e do mundo a sua triste realidade. De modo a se protegerem de sua própria personalidade oculta, eles a projetam em seus inimigos, os políticos corruptos, o Lula ladrão e os perseguem implacavelmente. Ou seja, acusam os outros de serem aquilo que são.

 O arquétipo da sombra não é um fenômeno apenas individual, podendo ocorrer também nos diversos tipos de grupos. As agitações políticas, em todos os países, estão cheias desses tipos de projeções, nas quais um grupo enxerga no outro as suas próprias mazelas e visa aniquilá-las, não em si, mas aniquilando o outro. Tal comportamento é totalmente compatível com a mitologia da conspiração, onde os reais conspiradores realizam o mesmo programa que acusavam os seus inimigos de pretenderem implantar. No Brasil, estamos diante deste fenômeno. Indivíduos perseguindo as suas sombras (corrupção, homossexualidade, falsidade, ideologia) as projetam sobre os seus inimigos e, qualquer um que se levante e ouse revelar aquelas sombras, transforma-se automaticamente em inimigo e deve ser desqualificado e/ou aniquilado. Tempos sombrios.

Dimas Antonio de Souza é professor de Ciência Política do Instituto de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

Edição: Elis Almeida