TENSÃO

“Irã não fará guerra contra nenhuma nação”, garante o presidente Hassan Rouhani

Declaração ocorre após Pentágono ordenar envio de militares ao Oriente Médio; Washington alega “propósitos defensivos”

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Declaração de ocorreu nessa terça-feira (18), no mais novo capítulo da escalada das tensões entre Irã e EUA / Foto: Vyacheslav Oseledko/AFP

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, afirmou nessa terça-feira (18) que o país não fará guerra com ninguém. A declaração ocorre após o Pentágono ordenar o envio de cerca de mil militares para as proximidades do país com “propósitos defensivos”. 

“O Irã não fará guerra contra nenhuma nação […] apesar de todos os esforços dos norte-americanos na região, seu desejo de cortar nossos laços com o mundo e manter o Irã isolado, eles não tiveram sucesso”, afirmou Rouhani. 

O mais recente capítulo da escalada das tensões entre os dois países começou após os EUA divulgarem um vídeo mostrando um suposto ataque contra navios petroleiros estadunidenses. Washington atribuiu a responsabilidade da ofensiva ao Irã.

Em um comunicado, o secretário de Defesa interino dos EUA, Patrick Sanahan, alegou que as forças são destinadas a propósitos defensivos para lidar com ameaças aéreas, navais e em solo no Oriente Médio. "Os Estados Unidos não estão  buscando um conflito com o Irã. A medida de hoje está sendo tomada para assegurar a segurança e o bem-estar dos nosso militares trabalhando na região e para proteger nossos interesses nacionais”, afirmou. 

Os militares adicionais se somam a outros 1,5 mil enviados no início do mês passado. Na ocasião, também foram encaminhados porta-aviões e bombardeiros, como resposta às “ameaças persistentes” do Irã. 

A Rússia pediu que os EUA cessassem as ações. “O que vemos são tentativas intermináveis e contínuas dos EUA de provocarem uma pressão política, psicológica, econômica e militar sobre o Irã de maneira bastante provocativa”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Sergei Ryabkov. 

Acordo nuclear iraniano

O envio de militares ocorre em um momento em que o governo dos Estados Unidos, liderado pelo presidente Donald Trump, endurece as investidas contra a república islâmica e pede que o país cumpra os termos do acordo nuclear iraniano, pacto do qual os EUA não fazem mais parte. 

Em vigor desde julho de 2015, o acordo foi assinado pelo chamado grupo 5+1 (EUA, Rússia, Reino Unido, França, China e Alemanha). O pacto tem como objetivo limitar o programa nuclear do Irã. Em troca, o grupo retirou as sanções que atingiam os setores de finanças, comércio e energia do país. Além disso, bilhões de dólares e de bens congelados foram liberados com o fim das imposições.

Após a saída dos EUA do pacto, em maio de 2018, Washington restabeleceu as sanções, contrariando os demais signatários, que afirmam que Teerã sempre respeitou os compromissos do acordo. Em abril, o governo estadunidense anunciou a extensão das imposições ao petróleo iraniano a todos os clientes que restavam no país, elevando ao máximo a pressão contra Teerã. 

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Em resposta, o país anunciou, em maio deste ano, que deixaria de aplicar alguns compromissos do pacto, aumentando o enriquecimento de urânio, e deu um prazo de 60 dias para que os demais signatários do pacto cumprissem algumas de suas exigências.

Na ocasião, Rouhani pediu que os interesses do país fossem respeitados, “especialmente a venda de petróleo e a eliminação de sanções bancárias”. 

Com as novas movimentações dos EUA, Teerã anunciou na última segunda-feira (17) que irá aumentar o seu estoque de urânio enriquecido para além do que havia sido firmado no acordo nuclear. Segundo o comunicado, o país não irá mais estabelecer um limite para o volume do material produzido. 

Em entrevista concedida ao Brasil de Fato no final de maio, Salem Nasser, professor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirmou que “o mundo inteiro está reconhecendo que o Irã cumpriu fielmente o que foi acordado no pacto de 2015. As agências de inspeção afirmaram isso, os europeus, os chineses. Foram os norte-americanos que saíram do consenso”. 

Para o professor, a própria ideia de que o projeto nuclear iraniano é uma ameaça ao mundo merece ponderações.

“Os iranianos sempre disseram que queriam dominar a tecnologia para outros fins, que não o de fazer bombas. Os EUA, Israel e o Ocidente generalizam a ideia de que não. De que havia o risco de que o Irã buscasse armas nucleares e que deveria ser parado. Isso durou até o acordo de 2015, que pareceu satisfatório para todo mundo”, salientou Nasser.

Contradições

Nos últimos meses, Trump intensificou as ameaças contra a república islâmica. Em maio, chegou a dizer que se o país “quiser brigar, será o fim oficial do Irã”. 

As declarações e ações mais recentes entram em contradição com o que era dito anteriormente por Trump. Após deixar o pacto, o mandatário defendeu publicamente o diálogo entre as partes para estabelecer um novo acordo nuclear, ao contrário do que defende o conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton. 

Bolton, desde antes de chegar à Casa Branca, já defendia a aceleração de um confronto militar e uma mudança de regime no Irã. O país chegou a apresentar um plano que previa o envio de até 120 mil soldados ao Oriente Médio. Trump, no entanto – e tendo em vista o desgaste causado pela guerra do Iraque –, fez sua campanha eleitoral se comprometendo com o diálogo como principal alternativa. 

Especialistas dizem que um conflito de grandes proporções na região teria consequências catastróficas, inclusive maiores que as ocasionadas pela guerra do Iraque.

Outro momento que deixou evidente a escalada das pressões ocorreu no início de abril, quando Trump anunciou que a Guarda Revolucionária do Irã passaria a constar na lista de grupos considerados terrorista pelo governo estadunidense. 

Embora cerca de 60 grupos em todo o mundo façam parte da lista de organizações apontadas pelos Estados Unidos como terroristas, é a primeira vez que Washington inclui o exército de um país.

Edição: Rodrigo Chagas