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Em cinco meses, autoproclamação de Guaidó trouxe prejuízos bilionários à Venezuela

Última manobra do opositor junto aos EUA bloqueou a venda de diluentes do petróleo e pretende causar rombo de US$ 11 bi

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Além da agenda de boicote internacional, Guaidó protagonizou uma tentativa de golpe militar, em 30 de abril / Foto: Ronaldo Schemidt/AFP

No último domingo (23), a autoproclamação de Juan Guaidó como "presidente encarregado" da Venezuela completou cinco meses. O cenário atual é de diálogo entre representantes do deputado opositor e da administração do presidente Nicolás Maduro, que participam de mesas de negociação na Noruega.

::A invenção de Guaidó: como os EUA criaram o líder do golpe de Estado na Venezuela

No entanto, nem sempre houve espaço para diálogo. Nesse período como "presidente", Juan Guaidó viajou para os Estados Unidos, Europa, Brasil, Colômbia, Paraguai, Argentina e Equador.

Além de pedir apoio e reconhecimento de outros países para seu governo autoproclamado, Guaidó transformou-se num dos principais incentivadores do recrudescimento do bloqueio econômico e diplomático contra seu próprio país.

A resposta dos seus apoiadores internacionais foi imediata. Até o momento, cerca de US$ 5,4 bilhões (cerca de R$ 21 bilhões) foram bloqueados em contas venezuelanas no exterior.

A principal afetada foi a indústria petrolífera, responsável pelo ingresso de 95% das divisas no país. Por conta de uma ordem executiva do Departamento de Tesouro dos EUA, foram bloqueados cerca de US$ 30 bilhões (cerca de R$120 bilhões) em ativos e bens da subsede da estatal PDVSA no Estados Unidos, a CITGO Petroleum, desde 28 de janeiro de 2019.

Apesar de não ter respaldo legal e legitimidade para gerir qualquer fundo estatal venezuelano, com manobras e apoios de governos de outros países, Guaidó tem conseguido se apropriar de dinheiro do país.

Sanções como arma de guerra

Há menos de um mês, no dia 7 de junho, os Estados Unidos bloquearam a venda de diluentes de petróleo – utilizados na produção de gasolina e outros combustíveis – à Venezuela.

Segundo estatísticas do próprio departamento de Estado dos EUA, divulgados pelo secretário John Bolton, as novas medidas esperam gerar um prejuízo de US$ 11 bilhões (cerca de R$ 44 bilhões) ao país governado por Nicolás Maduro.

Os Estados Unidos parecem correr contra o tempo – o que não é mentira, já que neste mês Guaidó chega à metade do seu mandato como presidente da Assembleia Nacional e, quando deixar de ocupar o cargo, perderá também o pretexto legal utilizado para exercer a função de presidente interino da nação.

Como Guaidó se apropriou dos recursos da CITGO

O governo autoproclamado de Guaidó foi prontamente reconhecido pelos Estados Unidos. O reconhecimento de Trump permitiu ao grupo opositor apropriar-se da sede diplomática da Venezuela em Washington, além de garantir o controle da CITGO. É justamente nesse ambiente onde a oposição tem focado suas movimentações para seu autofinanciamento.

Andrés Eloy Padilla Villalba, diretor da CITGO, nomeado por Guaidó, se tornou corretor público de títulos da empresa na bolsa de valores. Em apenas uma oferta, US$ 5,5 milhões em títulos (cerca de R$ 22 milhões) foram vendidos. Ou melhor, privatizados.

O diretor é irmão de Luis Carlos Padilla Villalba, deputado pelo partido Ação Democrática e presidente da Comissão de Energia e Petróleo da Assembleia Nacional da Venezuela. O uso do dinheiro vendido nunca foi informado.

Outro corretor das ações da CITGO na bolsa é Germán Rivero Zerpa. O banqueiro foi designado diretor da Fundos de Desenvolvimento Social da Venezuela (Fivendes), uma empresa criada em março pelo primo de Juan Guaidó, Juan Víctor Salcedo Márquez – que atualmente vive em Chicago, mas abriu a conta bancária da empresa em Londres.

Márquez tem direito de administrar 75% da verba da Fivendes. Os outros 25% estão na mão de dois bancos privados.

Bônus 2020

Em maio deste ano, a Assembleia Nacional venezuelana, presidida por Guaidó, aprovou que a diretoria opositora da CITGO se apropriasse dos dólares do Estado venezuelano bloqueados pelos EUA para pagar os bônus da dívida da empresa na bolsa de valores.

O advogado Lee Buchheit foi nomeado como assessor "pro bônus" pelos opositores para propor um novo plano de reestruturação da dívida externa venezuelana, apesar de que o governo de Maduro segue pagando os juros e amortizações da dívida.

Só em 2018, o Estado desembolsou US$ 1,4 bilhão (R$ 5,6 milhões). Segundo o Banco Central da Venezuela (BCV), o país terminou 2015 com uma dívida pública de US$ 120 bilhões (R$ 480 bilhões).

Buchheit é o mesmo advogado responsável por "renegociar" dívida contraída pelo Iraque depois da guerra promovida pelo Estados Unidos, no início dos anos 2000. Mais recentemente, em 2016, também assessorou a secretaria de finanças da Argentina – país que possui a segunda maior taxa de inflação do continente e uma taxa de desemprego de 10,1%. Ele trabalha em um escritório da Unidade de Assessoria Internacional e Resolução de Disputas, em Londres, mesmo lugar onde a conta de Fivendes foi aberta.

Em paralelo, uma investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos apura a apropriação, por parte dos dirigentes de Guaidó, de cerca de US$ 70 milhões (cerca de R$ 280 milhões) que seriam destinados a pagar os bônus da dívida da empresa.

Edição: Rodrigo Chagas