DIREITOS HUMANOS

EUA barram declaração na ONU que condenava ataque contra migrantes na Líbia

Investida contra centro de detenção ocorreu nesta quarta-feira (3); atentado deixou 44 pessoas mortas e 130 feridas

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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EUA impediram a adoção unânime de uma declaração proposta pelo Reino Unido condenando o bombardeio em Tajoura, perto de Trípoli / Foto: UN

Os Estados Unidos barraram nesta quinta-feira (4), durante reunião entre os Estados-membros do Conselho de Segurança da ONU, uma declaração que condenava o ataque aéreo contra um centro de detenções na Líbia. A investida ocorreu na quarta-feira (3).

Além da condenação, o documento pedia um cessar-fogo e o retorno ao diálogo político no país. Desde 2011, a Líbia passa por um processo de disputa pelo controle da capital, Trípoli, entre tropas do Governo de União Nacional (GNA) e forças rebeldes do exército Nacional Líbio (ENL), lideradas pelo general Khalifa Haftar.

Durante a reunião, que durou cerca de duas horas, o Reino Unido tentou convencer os demais 14 membros do conselho a adotarem o texto. Segundo fontes diplomáticas, apenas os EUA rejeitaram a medida, afirmando que ainda seria necessária uma luz verde vinda de Washington. 

O ataque que ocorreu nesta quarta-feira deixou 44 pessoas mortas e mais de 130 feridas. A ofensiva já é considerada a maior em número de mortos desde que as forças do general Haftar iniciaram, há três meses, uma série de ataques contra tropas terrestres e aeronaves do país. 

O alvo foi o centro de detenção de Tajoura, que fica dentro de um quartel militar nas proximidade de Trípoli. Cerca de 600 pessoas viviam nas instalações. Os migrantes, a maior parte de países da África subsaariana, foram presos enquanto tentavam alcançar o litoral europeu atravessando o Mediterrâneo. A lei líbia considera crime a tentativa de entrar ou sair irregularmente de seu território. 

Atualmente, existem 25 centros como esse no país, onde estão detidos 5.695 migrantes. Segundo informações do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, 2.433 estão em Trípoli. 

O episódio levanta novos questionamentos à política da União Europeia (UE) de firmar parcerias com milícias líbias para impedir que migrantes atravessem o Mediterrâneo. A ação os coloca, muitas vezes, nas mãos de traficantes de pessoas ou faz com que sejam detidos. As condições dos centros de prisão, segundo grupos de direitos humanos e a ONU, são desumanas. 

Autoria

Nenhum grupo assumiu a autoria do ataque, mas o governo sediado em Trípoli atribui a culpa a Haftar e ao Exército Nacional da Líbia. O militar participou, em 2011, do movimento que ajudou a depor o então presidente Muamar Kadafi. 

De lá para cá, Haftar passou a liderar uma milícia que controla o Leste da Líbia e não reconhece as autoridades apoiadas pela ONU, o Governo de Unidade Nacional. O militar chegou a afirmar, na última sexta-feira (29), que passaria a atingir, além do governo apoiado pela ONU, aviões, embarcações e cidadãos da Turquia na Líbia. 

Em nota, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que atua no país, afirmou que “os migrantes já estão vulneráveis a doenças, encarceramento, exploração e violência diária" e que "ver tantos mortos em um ataque tão grande é de partir o coração”. 

Segundo Ghassan Saleme, enviado das Nações Unidas na Líbia, o ataque pode ser considerado um crime de guerra. "O absurdo dessa guerra atingiu hoje seu resultado mais odioso e mais trágico com esse massacre sangrento". 

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha também se posicionou a respeito da investida: “As notícias são devastadoras. Os migrantes já estão vulneráveis a doenças, encarceramentos, exploração e violência diária. Ver tantos mortos em um ataque tão grande é de partir o coração”, diz em nota. 

Edição: Rodrigo Chagas