Luta e arte

Vigília Lula Livre recebe 2º Curso de Música Popular do MST, no Paraná

A formação reuniu cerca de 60 educandos de várias regiões do estado.

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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O curso focou na prática de canto, violão e batucada, com aulas no Espaço Marielle Vive de Formação e Cultura / Dandara Stürmer

Violões, surdos, tamborins, pandeiros e outros instrumentos musicais mudaram a rotina da Vigília Lula Livre entre os dias 26 e 30 de julho, em Curitiba (PR). Quem visitou o local nestas datas percebeu um reforço de peso na mística e na animação da programação. O motivo foi a realização do 2º Curso de Música Popular do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que reuniu cerca de 60 educandos, vindos de várias regiões Paraná. Além de camponeses, a formação teve participação de integrante do movimento Levante Popular da Juventude.

O curso teve como objetivo fazer a iniciação e o aperfeiçoamento técnico na música popular brasileira, apresentando a música como forma de expressão, denúncia e uma arma de luta popular. Aline Luana Oliveira, integrante do Setor de Comunicação e Cultura e da Coordenação Político Pedagógica do curso, explica que a intenção do Movimento é ir além da ocupação dos latifúndios de terra.

“Precisamos ocupar o latifúndio da arte. Desde as primeiras ocupações de terra, a música e a poesia sempre caminharam juntas, e muitas produções musicais aconteceram nos momentos de ocupações, momentos de lutas e nos momentos de greve”, afirmou.

O curso focou na prática de canto, violão e batucada, com aulas no Espaço Marielle Vive de Formação e Cultura - localizado a 70 metros da Superintendência da Polícia Federal, onde o ex-presidente Lula é mantido preso político -, e na sede campestre do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário (Sindijus).

Com orientação do professor e violinista Israel Laurindo, a frente de violão pode aprimorar as técnicas das cordas e aprender novos ritmos brasileiros. As aulas de canto foram conduzidas pela artista Susi Monte Serrat, conhecida pela participação permanente na equipe de Cultura da Vigília Lula Livre. A frente de batucada aprendeu sobre a finalidade e técnicas de manutenção de cada um dos instrumentos, com assessoria do músico e militante Igor de Nadai, integrante da CPP do curso e do MST. O aperfeiçoamento da técnica da bateria veio com a contribuição do professor e músico Tiaraju Pablo.

O encerramento do curso ocorreu da tarde de domingo (30), na Vigília Lula Livre,  com apresentação dos grupos da batucada e do violão. A primeira edição foi realizada em abril deste ano, também na Vigília Lula Livre.

O sonho de batucar

Entre as educandas do curso estava dona Neuza Aparecida Pereira. A agricultora tem 56 anos, integra o MST há 15 e atualmente mora no Acampamento Sebastião Camargo, em São Miguel do Iguaçu. Ela deixou a lavoura para realizar um desejo antigo: “Eu sempre tive esse sonho de tocar batuque, sempre gostei muito de dançar, mas o que eu mais gosto é de sambar e sou apaixonada pelas Escolas de Samba. Nunca tinha pegado em um batuque, nem encostado a mão. Essa foi a primeira vez”, conta com satisfação.

Natural do Rio de Janeiro, a agricultora veio para o Paraná aos três anos de idade e cultivou a influência do samba transmitida pelos pais. “Agora que realizei meu sonho, tudo indica que eu vou voltar nos próximos cursos”, planeja a integrante do MST.

Música como resistência e resgate da cultura popular

Diante dos inúmeros ataques do atual governo federal à Cultura, o violinista Israel Laurindo reforça a necessidade do resgate e do fortalecimento desse aspecto da luta: “Esse governo tem buscado uma aproximação muito forte com o estrangeiro, especialmente com um governo imperialista. Isso tem gerado um ataque ao que é nosso, ao que é nacional. Não só de riqueza material, como também de riqueza cultural. Essas oficinas são uma forma de resgate também da nossa cultura musical, da nossa cultura artística”.

Para o músico Tiaraju Pablo, os movimentos sociais precisam aprender a usar as batucadas de forma orgânica, por terem um papel essencial na luta e serem “a própria expressão da cultura da classe trabalhadora”. Ele conhece o potencial dessa ferramenta a partir de pesquisas e da orientação prática de baterias Brasil afora, em espaços como a Escola de Samba Unidos da Lona Preta e o movimento Levante Popular da Juventude.

“Precisamos saber valorizar essa arte e valorizar essa cultura. Quando organizamos a batucada dentro dos movimentos sociais, a gente está conectando o nosso povo a suas ancestralidades mais profundas. Conectamos também a uma consciência histórica que precisa a todo momento ser vivenciada”, garante o músico, ao reforçar também o papel das Escolas de Samba no Brasil. 

Edição: Laís Melo