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Colômbia | Com diálogo de paz travado, ELN denuncia genocídio de lideranças no campo

Na segunda parte da entrevista com integrantes da guerrilha, tema é a violência paramilitar e estatal contra camponeses

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Desde que as Farc ingressaram na política institucional, o ELN passou a ser a maior guerrilha colombiana, com 2,3 mil membros / Foto: ELN-Paz

Quando Juan Manuel Santos (2010-2018) transmitiu a presidência da Colômbia ao político de extrema direita Iván Duque, em agosto de 2018, seis rodadas dos diálogos de paz haviam sido realizadas entre o governo e o Exército de Libertação Nacional (ELN), a maior guerrilha em atividade no país. Desde aquela data, não houve novos encontros.

No último 4 de julho, a guerrilha completou 55 anos de atuação e o Brasil de Fato começou a publicar uma série de três entrevistas com integrantes do ELN, que, desde o rompimento dos diálogos em janeiro deste ano, estão ilhados em Havana exigindo do governo colombiano a retomada das negociações.

Nesta segunda parte da entrevista (veja a primeira parte aqui), os guerrilheiros analisam a conjuntura da Colômbia rural, o recrudescimento da violência no campo após a chegada de Duque ao poder e as dificuldades de implementação dos acordos realizados entre governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) – a guerrilha se tornou partido político e entregou as armas após processo de paz finalizado em 2016. 

O membro da delegação de paz do ELN em Cuba Pablo Beltrán explica que desde que Iván Duque assumiu a presidência, em agosto de 2018, o político de extrema direita passou a descumprir os acordos de paz firmados com as Farc: "Dedicou-se a isso, a despedaçar a paz, descumprindo os acordos, reduzindo-os cada vez mais, matando ex-combatentes, matando líderes sociais".

Duque é afilhado político do ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002-2010), cujo governo alinhado com os Estados Unidos também rompeu com qualquer possibilidade de diálogo com a insurgência armada colombiana e pôs em marcha a maior ofensiva militar contra as guerrilhas – operação intitulada de "segurança democrática". 

Sob o comando de Uribe, o contingente das Forças Armadas do país passou de 215 mil homens, em 1998, para 445 mil, em 2010. As pressões e os incentivos por resultados da força pública tiveram consequências perversas, como a morte dos chamados “falsos positivos”, civis executados extrajudicialmente pelo Exército e apresentados como guerrilheiros.

Organizações de direitos humanos denunciam que a prática dos "falsos positivos" era utilizada para contabilizar assassinatos dos grupos paramilitares do país, como vítimas do Exército. O próprio ex-presidente Uribe foi acusado, em 2013, no Tribunal de Justiça e Paz de Medellín – segunda maior cidade da Colômbia e curral eleitoral do ex-presidente – por sua participação na "promoção, organização e apoio a grupos paramilitares".

"O Estado colombiano tem como política a militarização dos territórios, com forças públicas e grupos paramilitares, e assim mantém seu controle territorial. O objetivo [deles] é a eliminação do adversário, não só da insurgência, mas também a oposição de líderes afros, indígenas e camponeses frente às políticas extrativistas, e a exigência do cumprimento de seus direitos. Isto se reflete no aumento sistemático do genocídio e da perseguição contra líderes populares e sociais", argumenta Isabel Torres, da delegação de paz do ELN em Havana.

Foi Uribe quem inaugurou o chamado Plano Colômbia, um acordo que se insere na política internacional antidrogas dos Estados Unidos, que envolve investimentos militares, intervenções na atuação das forças armadas colombinas, e utilização de fumigações aéreas para erradicação de cultivos ilícitos na área rural do país.

"Estão matando todos que estão comprometidos com a substituição de cultivo de uso ilícito, como foi pactado no Acordo de Paz. Qual foi o papel dos Estados Unidos? Por que fazem isso? Porque Trump disse: 'Fumiguem tudo com glifosato'. É preciso fazer erradicação forçada. Quais os planos de substituição voluntária? É guerra contra as drogas. E por que a Colômbia é importante na agenda do Trump? Porque é seu peão na América Latina", exclama Pablo Beltrán, um dos membros do grupo de negociação do ELN.

Apesar da hostilidade do governo de Duque, que retomou as políticas de guerra de Uribe, o ELN afirma manter-se disposto a dialogar. "Estamos em permanente ação de interlocução, com personalidades, organizações sociais de regiões e territórios na Colômbia, e também com a comunidade internacional, todos aqueles que trabalham pelo cumprimento do acordo com as Farc e pela retomada do diálogo com o ELN", concluiu Beltrán.

Confira na íntegra a segunda parte a entrevista feita pelo Brasil de Fato, em parceria com os portais Colombia InformaPeoples DispatchResumen Latinoamericano Ecuador Today:

Edição: Vivian Fernandes