LUTA ARMADA

Para ELN, Colômbia privilegia intervenção na Venezuela ao invés de conflitos internos

Na 3ª parte da série de entrevistas, membros da guerrilha comentam as tensões na América Latina com governos de direita

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Pablo Beltrán, membro do Exército de Libertação Nacional (ELN) e chefe da equipe de negociação da guerrilha nos Acordos de Paz em Cuba / Foto: ELN-PAZ

No último dia 4 de julho, o Exército de Libertação Nacional (ELN) completou 55 anos. Atravessando mais de cinco décadas de conflito social armado, a atual maior guerrilha da Colômbia, e uma das mais conhecidas da América Latina, aguarda o retorno das negociações de paz interrompidas pelo presidente colombiano, Iván Duque, desde que assumiu o governo em agosto de 2018.

As  alterações na correlação de forças em outros países da América do Sul afetaram também as negociações de paz entre o ELN e o governo colombiano. Em abril de 2018, o presidente equatoriano, Lenín Moreno, anunciou que o país não seria mais a sede da Mesa de Diálogo nem país garantidor dos Acordos de Paz. Após a decisão, a mesa foi levada a Cuba e, posteriormente, interrompida pelo presidente colombiano, que, em janeiro deste ano, declarou os membros da guerrilha que integram a delegação de paz foragidos e exigiu que o país caribenho os extraditasse, desrespeitando os protocolos de diálogo pactados entre as partes.

Ilhados em Cuba desde a suspensão do diálogo, a delegação de paz do ELN analisa, nesta terceira parte da entrevista (primeira parte e segunda parte), o cenário da América Latina e o papel da comunidade internacional nos conflitos regionais. Os avanços da direita na região, como a formação do Grupo de Lima e a influência dos Estados Unidos no continente, além da eleição de governos de direita como no Brasil, com Jair Bolsonaro (PSL), também são comentados.

"Os EUA consideram Bolsonaro um grande aliado, ele é chamado até de Trump dos trópicos. Ele se une aos países de Lima, e cumprindo o mandato dos EUA, começam a ofensiva contra a Venezuela com o objetivo de destituir o governo legítimo de Maduro", analisa Pablo Beltrán, membro do ELN e chefe da equipe de negociação da guerrilha nos Acordos de Paz em Cuba.

De acordo com a guerrilha, tanto Bolsonaro no Brasil quanto Iván Duque na Colômbia "cumpriram a cartilha dos Estados Unidos" durante o episódio de tentativa de entrega da suposta ajuda humanitária nas fronteiras de ambos os países com a Venezuela em 23 de fevereiro, mas saíram desgastados, como comenta Aureliano Carbonell, também integrante da delegação do ELN em Cuba. 

"A Colômbia e este governo [de Bolsonaro] se desgastaram nisso. Não conseguiram, como propunham, derrubar o governo venezuelano. Mas o governo está aí, é quem representa o país, apesar de todos os ataques, bloqueios, do isolamento internacional ao qual foi submetido. E nisso a Colômbia se desgastou. Prometeram que em algumas horas já não existiria mais o governo de Maduro. Essas foram as palavras do Duque ao planejar a tal da ajuda humanitária. Isso não aconteceu e desgastou a Colômbia", comenta.

Para Carbonell, o presidente colombiano privilegiou a intervenção na Venezuela em detrimento dos conflitos internos do país. "Enquanto estávamos criando problemas para a Venezuela, o país estava numa situação crítica. A popularidade de Duque nesses meses foi enferrujando em 30%. Teve as inundações no Chocó, os assassinatos de líderes sociais e de ativistas dos direitos humanos. E continuou toda a crise do processo de paz, só para citar alguns casos", comenta.

Em abril deste ano, mais de 12 mil integrantes de movimentos indígenas, camponeses, afro-colombianos e outras organizações populares realizaram uma jornada de protestos para denunciar que, desde que Duque assumiu o governo, houve um aumento no número de assassinatos de líderes sociais e o acirramento da guerra armada e da atuação de paramilitares nos territórios colombianos.

Confira na íntegra a entrevista feita pelo Brasil de Fato, em parceria com os portais Colombia InformaPeoples DispatchResumen LatinoamericanoEcuador Today:

Edição: Vivian Fernandes