A dualidade de viver nas ruas

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Mosaico Cultural

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Elas não são do lar, donas de casa, domésticas ou domesticadas / Divulgação/Estimar
Em livro, mulheres sem teto falam de força e fragilidade

Nos últimos tempos vem ganhando força as reflexões e discussões sobre as dificuldades de ser mulher em uma sociedade como a nossa. Violência, assédio sexual e moral, desigualdade salarial, dupla jornada de trabalho. São muitas as questões que elas precisam lidar no dia a dia, não importa a idade, cor ou classe social.

Mas, se essas barreiras já são difíceis de cruzar, imagina para as mulheres que vivem à margem da sociedade? Que muitas vezes, por falta de opção, fazem das ruas, praças e pontes das cidades, o seu único lar.

E foi justamente essa inquietação que levou a socióloga Josete Lopes de Carvalho, lá em 2018, a pensar e escrever o livro Mulheres Sem Teto em Situação de Rua. "A gente soma à situação de rua, essa questão da vulnerabilidade feminina também para um corpo que está ali deslocado do seu lugar mais colocado culturalmente, que é o espaço doméstico. Quando ela vai para a rua, quando ela se encontra em situação de rua, ela se torna ainda mais vulnerável", explica a socióloga.

Josete, que também é diretora do Estimar - Instituto de Pesquisa Social, ouviu 30 mulheres em situação de rua que vivem no centro da cidade de São Paulo, incluindo 10 transgêneros. Ela conta que a missão maior do livro é tirar o manto da invisibilidade delas. Dar um rosto, um nome e valorizar a história de cada uma.

"Elas estão sempre muito no nosso caminho, próximas a nossa casa ou nosso trabalho, mas ao mesmo tempo, muito distantes socialmente, a gente conhece muito pouco. Então, a pesquisa é essa ferramenta que ajuda a conhecer, se aproximar e, talvez, propiciar uma certa empatia com uma população que sofre tanto preconceito e tanta violência".

Em meio a tanta privação material, violência constante e, sobretudo, indiferença, essas mulheres ainda conseguem mostrar o seu lado mais humano para quem tem a coragem de se aproximar e ouvir suas histórias, sem julgamento.

Josete explica que, apesar do trabalho de aproximação com elas ter contado com a ajuda de instituições que acolhem essa população, não foi um processo tão fácil. No entanto, depois que ela conquistou a confiança delas, um novo mundo se abriu.

"Depois que você quebra essa primeira barreira, que perde a desconfiança, elas foram muito receptivas. Elas falaram muito livremente da vida delas, era uma conversa. A gente tinha um roteiro ali para conversar, a gente usou o mesmo roteiro para todas, e foram conversas com muita abertura, com risadas, choros."

Durante as entrevistas, a socióloga conta que ouviu histórias que se repetiam a cada relato. Falta de segurança, estratégias para sobreviver nas ruas, a rotina desgastante de quem depende de terceiros para as necessidades mais básicas.

"Essa questão de estar dormindo, às vezes, na rua mesmo ou quando elas estão em algum albergue, nunca se sentirem seguras, isso é uma coisa que traz um incômodo realmente muito grande ouvir as histórias dessa vivência delas. Elas levantam, não sabem bem onde que vão almoçar, elas tem que correr, almoçar em um lugar, tomar um banho em outro, vai dormir em outro. Então, é uma vida muito precária, um cotidiano muito precário", diz.

Mas, as conversas também revelaram que por trás de todo o sofrimento e as dificuldades de viver em situação de rua, essas mulheres ainda têm seus desejos e sua força para resistir. "Então, tem esse lado muito difícil, mas elas também têm momentos em que se divertem, elas também têm os seus afetos, a sua vaidade. Então, tem o outro lado de uma tentativa de superação, de se organizar, de se adaptar à vida que está colocada naquele momento", explica a socióloga.

Josete explica que foram impressos cerca de 30 livros, pois a ideia era deixar uma cópia em lugares estratégicos para divulgação. Mas, todo o conteúdo da publicação está disponível para download gratuito no site estimar.com.br. 

Edição: Tayguara Ribeiro