IMPERIALISMO

Após sanções dos EUA que impõem "bloqueio total", Venezuela interrompe diálogo de paz

Casa Branca afirma que novo decreto de Trump tem o objetivo de isolar completamente o país governado por Nicolás Maduro

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Vice-presidenta da Venezuela e ministros em coletiva de imprensa. / Foto: Minci

Nicolás Maduro anunciou nesta quarta-feira (7) que o governo não irá participar da nova rodada de diálogos com a oposição em Barbados, previstas para esta quinta (8) e sexta-feira (9). De acordo com o presidente, a decisão é uma resposta às novas sanções impostas pelos Estados Unidos contra a Venezuela.

“Temos um diálogo permanente com diversos setores, e os de Barbados são diálogos com o setor opositor extremista. Muita gente me pergunta porque estou dialogando com os que quiseram me matar, e eu disse que há que se dialogar para conquistar a paz”, declarou Maduro.

O diálogo entre o governo e a oposição, mediado pela Noruega, estava acontecendo em Barbados desde julho passado.

O bloqueio total de Trump

"Trump, sem lançar bombas, se apropriou de nossos bens", disse vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, em declarações a imprensa nesta terça-feira (6). O governo de Donald Trump aplicou novas sanções através de um decreto presidencial na última segunda-feira (5).

A medida bloqueia todas propriedades, ativos e recursos do Estado venezuelano em território estadunidense. O objetivo é elevar a pressão econômica sobre a Venezuela, segundo expressou o assessor de segurança da Casa Branca, John Bolton.

"Estamos dando este passo para negar o acesso de Maduro ao sistema financeiro global e isolá-lo internacionalmente ainda mais", disse Bolton, em entrevista à jornalista venezuelana Carla Angola, apresentadora de um canal de TV de Miami.

Bolton detalhou a abrangência das novas sanções. Além de congelar todos os ativos venezuelanos, proíbe quaisquer transações com o governo da Venezuela, autorizando sanções a pessoas estrangeiras que fornecerem bens ou serviços ao país. Como punição, a medida "restringe a entrada nos Estados Unidos desses indivíduos”, escreveu Bolton em sua página no Twitter.

O segundo o ministro das Relações Exteriores, Jorge Arreaza, esse decreto “formaliza o que já vinha acontecendo”. A pior medida contra a Venezuela, de acordo com ele, foi o bloqueio dos ativos da petrolífera estatal venezuelana PDVSA, em março desse ano. A empresa era responsável por 95% dos recursos em moeda estrangeira na Venezuela.

A vice-presidenta Delcy Rodríguez classificou a media como um "golpe transnacional" contra seu país. Disse ainda que as novas sanções são “perigosas”, porque restringem ainda mais comércio do país com terceiros e limita a importação de alimentos e medicamentos para o país.

:: Como o bloqueio imposto pelos Estados Unidos afeta a vida dos venezuelanos ::

Rodríguez também criticou as declarações do assessor de segurança de Trump. “O senhor Bolton ameaçou expressamente a duas grandes potências, China e Rússia, devido à relação de cooperação que esses países mantêm com a Venezuela. Ameaçou também o setor privado venezuelano, assim como a setores privados internacionais. Essa é uma ameaça mundial. Uma agressão a legislação internacional”, explicou.

O chanceler venezuelano fez um alerta sobre possíveis novos bloqueios, ainda mais severos. “Os Estados Unidos estão ameaçando com um bloqueio naval internacional”, afirmou.

O cientista político Jorge Ladera explica que esse tipo de bloqueio seria físico, com a marinha dos Estados Unidos e seus aliados do Caribe, que bloqueando a passagem de embarcações com destino à Venezuela.

Essa ação poderia provocar escassez severa no país. “Isso já aconteceu no passado, entre 1902 e 1903, quando governo de Cipriano Castro manteve uma grande dívida com governos da Europa. O bloqueio era obrigar a Venezuela a pagar a dívida”, informa Jorge Ladeira.

Consequências na prática

O cientista político Jorge Ladera chama a atenção para as consequências do bloqueio sobre os cidadãos comuns e empresários. “A diferença de outras sanções, que foram aplicadas especificamente contra uma pessoa ou empresa, agora a medidas são a nação de maneira geral, de maneira que afeta os interesses dos venezuelanos como nação. Inclui ainda o controle migratório, podendo proibir a entrada de venezuelanos no EUA, assim como sanções a empresários venezuelanos que for averiguado qualquer vínculo de comércio com o governo de Nicolás Maduro”, afirma.

O especialista em relações internacionais Martín Pulgar, consultor do Ministério de Relações Exteriores da Venezuela diz que a principal consequência será em relação aos investidores: “Essas sanções dão base legal para a perseguição a investidores que apoiam o governo do presidente Maduro, mesmo sendo empresários dos EUA ou estrangeiros com filiais nesse país”.

Além disso, a confiscação de bens, estatais e privados, pode tornar-se uma prática contra os venezuelanos, alerta Pulgar. “Um efeito colateral poderia ser o controle de bens de venezuelanos pelo governo dos EUA”.

Cuba e Rússia manifestam solidariedade

Os governos de Cuba e Rússia foram os primeiros a manifestar sua posição contrária às novas sanções impostas pelos Estados Unidos contra a Venezuela. “O bloqueio de ativos do governo da Venezuela nos EUA é outra ação para prejudicar e roubar essa nação. Nossa solidariedade com o presidente Nicolás Maduro e a união cívico-militar do povo chavista. Queremos o fim do ataque a nossos povos e que cesse a tentativa de dominação imperialista”, manifestou o ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, através de sua conta no Twitter.

As reações na Rússia também foram imediatas. O presidente do Conselho da Federação (Senado russo) dos Negócios Estrangeiros, Konstantín Kosachev, divulgou um comunicado em que aponta ilegalidades nas sanções dos EUA. “Sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas, ações desse tipo são vistas como vandalismo internacional nas áreas econômica e financeira. Como a óbvia interferência nos assuntos internos da Venezuela soberana, porque o bloqueio dos ativos oficiais é um ato de impedimento às autoridades oficiais deste país e, através disso, é um apoio direto à oposição”, afirmou Kosachev, em um comunicado oficial.

Edição: Rodrigo Chagas