ENTREVISTA

“É a maior crise da democracia desde 64!”- Marcelo Freixo

Deputado conversa com o repórter Marcos Thomaz, em João Pessoa

Brasil de Fato | João Pessoa

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Freixo veio participar do 13º Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em João Pessoa - PB / Fotos Karl Newman

O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) vem se consolidando como uma das maiores forças da esquerda brasileira. Segundo parlamentar mais votado no estado carioca na última eleição, foi ao segundo turno na disputa pela prefeitura municipal contra o pastor Marcelo Crivella, no pleito passado, e já é apontado como forte concorrente para a corrida eleitoral do ano que vem. Aproveitando a passagem de Freixo pela Paraíba (veio a João Pessoa participar do 13º Fórum Brasileiro de Segurança Pública), além do seu próprio futuro político, conversamos sobre temas diversos como o covarde assassinato, ainda sem solução, da amiga, ex-assessora e colega de partido Marielle Franco, sua atuação contra as milícias cariocas, a ascensão da extrema direita no país, o festival de trapalhadas do governo Bolsonaro, os riscos a democracia nesse Brasil polarizado e colérico, os equívocos da esquerda nesse processo, além das perspectivas sobre um novo mapa de reorganização da esquerda brasileira, sem a hegemonia petista. 

Confira abaixo, na íntegra, a entrevista exclusiva que o parlamentar carioca concedeu ao blog (https://marcosthomazm.wixsite.com/), em uma sala do Centro de Convenções da capital paraibana. 

Marcos Thomaz - Além da postura sempre firme, combativa, contundente contra o atual governo Bolsonaro, o senhor virou “meme” nas redes por um vídeo “formalmente descontraído” sobre uma das inúmeras trapalhadas do sr. Bolsonaro e seus aliados. Mais especificamente, no vídeo, em tom crítico você discorria um episódio em que a bancada do PSL, partido do presidente, metia o pé pelas mãos, mais uma vez… Esse governo seria a tradução literal do “seria cômico, se não fosse trágico”? 

Marcelo Freixo - É exatamente isso. Aquele vídeo que acabou viralizando… Eles estavam… É a bancada da bala, muito dominada pelo partido do presidente, convocando o Glenn – nota do Blog (Glenn Greenwald, jornalista americano do site The Intercept, que sacudiu a estrutura da Operação Lava Jato, ao revelar conversas comprometedoras do processo) a falar na Comissão de Segurança, achando que era uma forma de retaliar o jornalista! E eu fui para a Comissão de Segurança, eu sou membro da Comissão, dizendo que eu concordava com aquilo e que o Glenn tinha muito a dizer, e aí eles se arrependeram e tentaram derrotar a própria proposta!! Então é um nível de trapalhada, é um nível de amadorismo muito grande, mas no fundo para um nível de reacionarismo, de autoritarismo muito profundo… aí é mais preocupante que engraçado, é mais trágico, que cômico! Então a gente ri quando tem que rir, mas a gente ri pouco porque na verdade a situação é muito preocupante! A gente não vive hoje um governo de direita, a gente vive hoje um governo que não tem respeito pela democracia, a gente vive hoje um governo que alimenta e que elogia a tortura, que não tem respeito à memória, que não reconhece que existe fome. Então isso não tem graça, mas realmente como eles são muito toscos, as vezes você não consegue não rir de algumas coisas, mas é a maior crise da democracia desde 64! E isso é muito grave!! 

Marcos Thomaz - A sensação é que essa postura incendiária constantemente… o próprio presidente ateando fogo e querendo deixar os aliados e simpatizantes sempre “armados” … É como se o colapso institucional fosse algo estratégico… 

Marcelo Freixo - Olha, eu não sei até que ponto… Esse debate tomou conta dos meios de comunicação essa semana… – Repórter: Há uma declaração do Bolsonaro, inclusive negando… – Marcelo Freixo- É. Eu conheço o clã Bolsonaro há muitos anos… Eu fui deputado estadual há 12 anos com o Flávio Bolsonaro, que foi deputado no mesmo período que eu. Conheço de perto como é que eles funcionam e eles não estão enganando ninguém. Eles sempre foram ruins… Eles não passaram a ser ruins depois que ganharam a eleição para presidente! Eles sempre foram absolutamente desrespeitosos com a democracia, sempre elogiaram a ditadura, sempre elogiaram a violência policial, propuseram a legalização das milícias… eles sempre foram absurdos! Mas, nós vivemos uma crise da democracia profunda, uma crise de modelo e o Bolsonaro acabou configurando como uma candidatura antisitêmica mesmo sem ser… Ele nunca foi antistêmico, ele sempre foi subsistêmico!! Ele sempre fez parte de tudo que há de pior, basta ver o laranjal que tem nos gabinetes da sua família, as práticas de laranja, as práticas que sempre foram as piores possíveis de um sistema que ele nunca negou. Mas ele ganha uma eleição com um antipetismo, antisistêmico fruto de um momento que a gente vive, mas que nos traz um problema grave. Eu sempre digo que o que entrou em crise no Brasil um PRESIDENCIALISMO DE COALIZÃO e agora a gente tem um PRESIDENTE DE COLISÃO! Então na verdade alguém que tem uma enorme incapacidade de resolução de conflitos e alguém que produz novos conflitos no dia a dia! O que vai dividindo ainda mais o Brasil na sua capacidade de diálogo. Isso chega nas microsociedades, que são as famílias! Irmão deixa de falar com irmão. Pai deixando de falar com o filho por um debate que poderia ser um debate saudável, do campo de idéias, mas quando é levado para o campo do ódio e da intolerância, isso gera rupturas e fissuras que são muito graves nas relações sociais perante a democracia. 



Marcos Thomaz - Qual a sua sensação pessoal com um histórico de combate à atuação de milícias, tendo uma colega parlamentar, amiga e ex-assessora assassinada covardemente por esse grupo criminoso, ver a ascensão ao poder de políticos ligados a esse grupo?? 

Marcelo Freixo - É muito grave! Eu acho que a milícia representa um estado leiloado, não é um estado paralelo. É disso que falo aqui no Fórum. A milícia não é um problema de segurança pública, a milícia é um problema de política pública. A milícia é um grupo criminoso dentro do Estado, que domina território, que domina atividades econômicas e que se tem projeto de poder. Então a milícia pela primeira vez é um grupo criminoso que se aproxima de uma realidade de máfia. E aí ela não é uma ameaça ao modelo de segurança local, é uma ameaça à democracia, porque a partir do momento que o domínio territorial se transforma em domínio eleitoral, eles passam a ameaçar a democracia como um todo! Eles não ameaçam só a vida daqueles que eles dominam fisicamente. Eles passam a ameaçar todo um sistema político representativo a partir de uma quebra de representatividade, movida pelo crime, pela força. Eles quebram o monopólio de força do Estado. Então isso, sem dúvida alguma, é uma ameaça muito mais profunda do que um problema local, de segurança pública. A morte da Marielle, ainda sem solução até este momento que a gente conversa, nós tivemos lá na prisão do seu assassino, da pessoa que apertou o gatilho, mas não temos ainda o mandante, né?? E certamente a capacidade de encontrar o mandante tem a ver com a capacidade de organização do crime no Rio de Janeiro! Olha o ponto em que chegamos: um lugar como o Rio de Janeiro e eu não estou falando de um lugar periférico do Brasil tem uma vereadora assassinada por uma razão política e não se consegue saber que grupo político é capaz de matar para se fazer política?!?! É grave a situação que a gente vive!! 



Marcos Thomaz - Voltando a política nacional, qual a parcela de responsabilidade da esquerda nacional no surgimento e, principalmente, na consolidação de um personagem controverso como Bolsonaro? 

Marcelo Freixo - Não é a esquerda que cria o Bolsonaro, mas as falhas da esquerda permitem, sem dúvida alguma que… não é Bolsonaro, quem cria o Bolsonarismo, né?? Na verdade, na minha opinião o Bolsonaro não é causa, ele é consequência! E nesse sentido eu acho que a grande falha… foram muitos os equívocos da esquerda, mas o principal, nesse sentido da pergunta que você me faz, eu acho que é não ter compreendido 2013. Acho que 2013 é um capítulo à parte na história da esquerda que até hoje a gente não conseguiu resolver… Parte dos meus amigos do PT, por exemplo, leem 2013 como um movimento reacionário-conservador?!? Eu não vejo assim… eu acho que 2013 tinha uma pauta que era progressista e os governos de esquerda não conseguiram entender! E acabaram alimentando a manutenção da velha política sem entender que a nova iria trazer coisas da velha muito mais danosas pra gente. Porque não tem uma nova política, né?? Tem uma negação da política como forma suposta de se anunciar uma nova política! E acho que a esquerda teve uma incapacidade de ler 2013 muito grande o que gerou a possibilidade do bolsonarismo virar uma anticandidatura, sem nunca o ter sido. 

Marcos Thomaz - Na sua visão teria havido, ou há, uma intransigência do PT, quanto a ocupar sempre o protagonismo das esquerdas? Hoje, não haveria uma sanha desenfreada do PT pelo poder, sem ouvir outras frentes do bloco e, muitas vezes, como foi em todas as presidências petistas, dando mais espaço até à forças conservadoras em detrimento da própria esquerda?? 

Marcelo Freixo - Acho que o modelo de presidencialismo de coalizão, desses acordos feitos com setores reacionários e conservadores desmoronou, né? Desmoronou completamente! Isso pode ter sido válido na cabeça de alguns por algum momento, mas é insustentável para se pensar qualquer política daqui pra frente. E eu acho que é necessário uma releitura do que aconteceu para que a gente não cometa os mesmos erros. E eu acho que isso vem acontecendo. Eu sou otimista em relação à perspectiva de uma aliança progressista, inclusive com o PT fazendo releitura do seu papel hegemônico. Eu tenho muitos contatos com companheiros do PT e acho que a gente vem caminhando pro entendimento de que há algo acima de nossas siglas que precisa ser priorizado, que é o enfrentamento ao fascismo. Se a gente não teve capacidade de fazer isso no passado, a gente precisa fazer no presente! Hoje o PT tem muito mais condição e já dá sinais claros disso, de rever essa política hegemônica… claro que não dá para fazer uma política hoje progressista sem contar com o PT! Mas evidente que não se pode contar com o mesmo PT, ou sobre a hegemonia dele em todos os lugares… 

Marcos Thomaz - Você, naturalmente, pertence a outro partido, mas já que tratamos do PT, e como você bem frisou não se pode pensar a esquerda sem o PT, afinal estamos tratando do partido de maior densidade eleitoral no campo… Enfim, seguindo essa linha e baseado na sua percepção de releitura, até onde podemos acreditar nessa autorreflexão tomando como parâmetro até recentes movimentações… Uma coisa que pra mim é emblemática é que, logo após o golpe, na Caravana do Nordeste do Lula, a primeira reunião é um jantar nas Alagoas com os Calheiros, a quem, inclusive, o Haddad, já em campanha apoiou explicitamente… Onde estaria essa mudança do PT?? 

Marcelo Freixo - Eu acho que as contradições, elas vão se manter durante um tempo, mas eu falo a partir do Rio de Janeiro, onde a gente vem construindo um programa, um projeto que é muito valioso para o Rio nos setores mais conservadores e o PT tem dado sinalizações muito importantes ali, de compreensão ao processo, de apoio ao projeto… Eu não tenho nenhuma vírgula para reclamar do PT do Rio de Janeiro, nesse sentido… Acho que eles têm a total compreensão de que é preciso repensar a hegemonia ali. E foi um lugar que nós tivemos muitos problemas. Eles participaram de governos, que nós fizemos oposição! Então acho que hoje a gente tem essa maturidade, que é muito rica, muito importante. Espero que isso siga para outros estados também… 

Marcos Thomaz - Marcelo Freixo será candidato a prefeito do Rio de Janeiro em 2020? 

Marcelo Freixo - A pré-candidatura está colocada. Eu acho que se a gente conseguir a reunião de todo campo progressista do Rio iremos com a força importante e necessária hoje. 

Edição: Cida Alves