SÃO PAULO

Detidos sem provas: familiares denunciam arbitrariedade contra jovens da São Remo

Dados dos celulares dos adolescentes, acusados de roubar um veículo, confrontam versão da vítima e da PM

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ytalo e Arlailson estão internados na Fundação Casa desde o último dia 16; Mães afirmam que provas foram forjadas / (Foto: Arquivo pessoal)

Em meio à dor e ao sentimento de injustiça, provar a inocência dos filhos se tornou prioridade na vida de Maria Ivone de Carvalho e Iracema Rosa da Silva. Ytalo Gabriel Carvalho, de 16 anos, e Arlailson da Silva, de 17 anos, foram detidos na noite do dia 16 de julho e permanecem até hoje apreendidos na Fundação Casa. Eles são acusados de terem roubado um carro e feito uma motorista refém.

A vítima, uma policial de 37 anos, alega que dois jovens a renderam enquanto estacionava seu carro na praça General Porto Carreiro, no bairro do Jaguaré, zona oeste da capital paulista. Um deles teria apontado a arma em sua cabeça e colocado o revólver em sua boca. O mesmo rapaz teria assumido o volante do carro, enquanto o outro permaneceu ao seu lado no banco traseiro do veículo. 

O depoimento do boletim de ocorrência é confuso: nele, a vítima relata que ela e os jovens foram perseguidos por uma viatura na Avenida Presidente Altino, mas eles conseguiram despistar o veículo policial. Ao chegarem na entrada de uma favela e estacionarem o carro, ela teria conseguido fugir quando "o indivíduo que estava atrás desembarcou tendo a vítima auxiliado ele a abrir a porta e aproveitado desse instante para sair correndo". 

Após receber a denúncia, policiais da 4ª Companhia do 23º Batalhão da PM afirmam ter localizado o veículo parado na rua Onofrio Mileno, 1,5 km distante do local do assalto. Próximo do carro, estariam três jovens que saíram em fuga ao avistar a viatura. Ytalo e Arailson são apontados pela PM como dois deles e teriam sido apreendidos nesse local. 

Levados ao 91º Distrito Policial, a vítima reconheceu “sem a menor sombra de dúvidas”  Arailson como sendo o jovem que lhe abordou armado e Ytalo como aquele que a manteve retida. Segundo os policiais, ele estava com a chave do veículo roubado. Desde então, foram encaminhados à Fundação Casa do Brás, onde permanecem. 

Além do reconhecimento da vítima, esse foi o outro fator que justificou a detenção dos garotos. Eles alegam ser inocentes e asseguram que saíram naquela noite em direção a casa da namorada de Ytalo, no bairro do Jaguaré, em endereço diferente do que consta no B.O. 

Ao longo desses 25 dias, familiares e amigos se articulam em busca de provas que comprovem a inocência dos garotos, moradores do Jd. São Remo, na zona oeste da capital paulista. A comunidade divide muro com a Universidade de São Paulo (USP).

“Eu creio que isso foi uma grande confusão. Primeiro por meu filho morar na comunidade, por meu filho ser um menino moreno. As pessoas falam que o racismo acabou. Mentira. Ele continua escondido e de uma hora para outra, aparece. Como apareceu na minha casa, na minha família”, denuncia Maria Ivone, mãe de Ytalo, com a voz embargada. 

A confiança também é compartilhada pela mãe de Arailson. “É uma injustiça o que estão fazendo com ele. Ele foi criado com muito amor e carinho, ensinando o que é certo e errado. Falaram que ele tinha colocado a arma na boca da moça e dirigiu o carro. Mas meu filho não sabe dirigir… O sonho dele é aprender a dirigir”, conta Iracema, apontando a contradição com a narrativa apresentada pela polícia. 

As inconsistências do caso

Devido à ausência de provas contundentes, no dia 25 de julho, Santiago Miguel Nakano Perez, promotor de Justiça da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), emitiu um parecer urgente pedindo a revogação da internação provisória dos dois adolescentes.

Para prosseguir com a investigação, Nakano solicitou que os jovens apresentassem seus celulares e senhas de acesso a emails e aplicativos em juízo, para que fossem analisados. Isso porque a geolocalização e geoposicionamento dos celulares de Ytalo e Arlailson naquela noite podem ser obtidos por meio do programa Google Maps. Acessando a ferramenta, é possível identificar o itinerário completo dos usuários pelo GPS, que apresenta o local de partida, de destino e o percurso de todas as rotas feitas pelos jovens. 

Apesar do pedido de revogação da internação ter sido negado, as famílias sustentam que o resultado do requerimento feito pelo promotor é a prova principal da inocência dos jovens da São Remo.

As informações de geolocalização do celular de Ytalo foram reunidas, e, segundo os familiares, comprovam que os rapazes de fato seguiram o trajeto que alegaram fazer naquela fatídica noite. Ou seja, o mapeamento do telefone evidencia que eles não estiveram na praça onde ocorreu o assalto, nem onde o carro foi supostamente recuperado. 

Ivone, mãe de Ytalo, afirma que o mapeamento do celular mostra que os adolescentes chegaram ao endereço da namorada de seu filho às 21h38min. De acordo com o B.O, o crime teria ocorrido às 21h40min. Os aparelhos com todas as informações necessárias foram entregues e passam por aferição técnica. 

Nakano também solicitou que o Batalhão da PM envolvido no caso enviasse os itinerários e o geoposicionamento por GPS das viaturas que participaram da ocorrência no prazo de 10 dias. 

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Ferramenta presente em celulares com sistema operacional Android mostra itinerário de usuários (Foto: Reprodução)

Francisco Chagas, advogado responsável pela defesa dos garotos, detalha que solicitou ofícios da Justiça para que os estabelecimentos que possuem câmeras de segurança localizados no trajeto feito pelos garotos, liberassem as imagens daquela noite.

A defesa corrobora com a análise que as provas da inocência de Ytalo e Arlailson são irrefutáveis. “Não vejo nenhum motivo para o juiz condenar esses garotos. É inadmissível que pessoas inocentes paguem por um crime que não praticaram”, diz Chagas. 

Ele complementa que os garotos ainda estão internados somente em razão do reconhecimento da vítima.

“Não vamos aceitar uma derrota por ela ser policial, ao contrário. Ela tem que ser e sincera naquilo que vai falar porque temos argumentos para questionar. Do modo que ela se reportou está errado. É um boletim de ocorrência que não tem nexo, nem fundamento. São coisas que ela está criando de forma fantasiosa”, argumenta o advogado, que cita outra inconsistência no depoimento.

Conforme registrado no documento, quando a vítima conseguiu fugir do carro em que estaria sido mantida, correu e “entrou em um veículo da Yellow” para pedir ajuda, que depois a teria deixado num "posto de abastecimento". A empresa citada presta apenas serviços de bicicletas e patinetes compartilhadas, o que tem sido usado pela defesa para apontar inconsistência no depoimento.  

Com a notoriedade do caso, o último episódio do programa Profissão Repórter, da Rede Globo, entrevistou os familiares e exibiu imagens das câmeras de segurança da região, que também mostram os garotos passando pelo percurso alegado. Procurada pela reportagem do programa, a policial se negou a conceder entrevista.

À espera da Justiça

A audiência de julgamento está marcada para o próximo dia 15 de agosto. O processo está nas mãos do Dr. Rodrigo Marzola Colombini, juiz da 5ª Vara Especial da Infância e Juventude. 

Com apoio da Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio - articulação de movimentos sociais e profissionais que atuam contra o genocídio e o encarceramento da juventude pobre e negra do país - os familiares e amigos transformam a dor e a angústia em mobilização. 

Para eles, não há dúvidas: As “provas” contra Ytalo e Arlailson foram forjadas. Os garotos não estavam no local alegado e nem em porte da chave do veículo roubado. 

“Todo mundo tá vendo que eles não fizeram isso. Isso aí foi um forjamento que fizeram para os dois. Aqui na comunidade, todo mundo gosta deles. Minha família, vizinhos, estão todos torcendo que os dois saiam”, conta Iracema, com os olhos cheios de lágrimas e dizendo repetidamente o quanto sente falta de seu único filho.

Juntas, as mães relatam que os meninos “são grudados, melhores amigos, de contar tudo”, uma relação que permitiu que uma nutrisse um carinho enorme pelo filho da outra e vice-versa. Ambos estão no último ano do ensino médio e participam ativamente de cursos e atividades na São Remo. 

Ytalo à esquerda e Arlailson à direita: Jovens sonham em se tornar jogadores de futebol profissional (Foto: Arquivo pessoal)

Ivone também preocupa-se com os efeitos psicológicos que a detenção sem provas pode causar em Ytalo. “O que estão acusando meu filho é uma coisa tão séria que pode mexer com a mente dele… Ele só tem 16 anos. O sonho dele é, como ele diz: ‘Vou ser jogador profissional para tirar a senhora daqui de dentro [do Jd. São Remo], para a senhora não ter que trabalhar mais limpando o chão e o banheiro de ninguém”.  

Segundo Luiz Marcos dos Santos Silva, professor de futebol e coordenador do projeto social Escolinha de Futebol Catumbi, tanto Ytalo quando Arlailson tem futuro no futebol. 

“O Ytalo é muito dedicado no que ele faz. Considero que ele é o Viola da favela. Um velocista, não tem bola perdida pra ele. Ele quer ganhar, crescer. Um menino que pensa em seu futuro. Bem respeitoso. O Arlailson é mais pacatão, tem mais o estilo do Ganso. Na hora que a bola chega no pé dele, ele sabe o que fazer", afirma, relembrando de momentos vividos com os adolescentes, que chama carinhosamente de “meus meninos”.

Ytalo já chegou a jogar, inclusive, no estádio do Pacaembu, durante a Taça das Favelas de São Paulo, quando o time da São Remo chegou na final, contra o Pq. Santo Antônio.

Foto de Ytalo e seus companheiros de time no site da Taça das Favelas, que teve a final transmitida em TV aberta. (Foto: Reprodução)

Nascido e criado na São Remo, Lula, como é conhecido o professor, se dedicou a ir atrás de provas para provar a inocência de seus alunos. Fez o mesmo percurso que os jovens fizeram aquela noite. “É tão forjado que eu fiz o caminho aqui da São Remo até o local da namorada do Ytalo avaliando o local onde foi o assalto. Não tem como estar em dois lugares ao mesmo tempo, naquele horário”, garante. 

Ele conta que a presença ostensiva da PM na comunidade é cotidiana, assim como o caso dos abusos policiais.“Teve momentos que passei maus bocados na mão da polícia dentro da favela. É ser abordado de uma forma grosseira, receber tapas na orelha, chutes no calcanhar e não ter como se defender naquele momento. Até evitamos estar na rua para não sermos forjados, não sermos confundidos e não sofrer abusos. Eu sempre peço pros meninos: acabou o treino, direto pra casa”. 

Lula acrescenta que o clima violento é tão presente, que as aulas que terminavam às 20h20min precisaram ser canceladas devido ao ambiente hostil. Mesmo conhecendo o cenário, ele diz ter ficado em choque com a notícia da detenção de Arlailson e Ytalo.

“Por conhecer os meninos tão bem, não tem como eles estarem nessa internação sem dever. Por isso estou nessa luta, em prol da liberdade deles. Dia 15, com certeza, meus meninos vão estar comigo aqui”. 

A certeza da inocência

Em reunião realizada essa semana com amigos da comunidade, as mães trouxeram notícias da visita que fizeram aos seus filhos no último domingo, na Fundação Casa do Brás.

Com detalhes, elas descrevem que o momento de choque e desespero se apaziguou. Agora, a certeza da inocência que sempre esteve com eles, se fortaleceu. 

Arlailson e Ytalo pedem às mães que separem as melhores roupas para que eles saiam no dia 15. Eles planejam, inclusive, usar o mesmo tipo de boné. O que elas consideram um sinal de que a amizade sairá desse triste episódio ainda mais fortalecida. 

“Ele me disse: ‘Mãe, fica sossegada. Meu celular está na mão do juiz O do Alairson também. Eu sei que não fiz nada contra ela [contra a vítima]. A maior prova estava no meu bolso: meu celular. Vamos descansar e esperar a Justiça ser feita. Eu preciso que a senhora esteja de pé para que eu fique de pé. Se a senhora balança, eu também balanço’”, conta Ivone, mostrando que o uniforme escolar que Ytalo usaria na volta às aulas ainda está dobrado em cima de sua cama.

“Eu não vejo a hora desse pesadelo acabar. Estou vivendo o pior dos pesadelos. É acordar e não ver meu filho. Dormir e não ver meu filho”, desabafa. 

Mesmo dias após a detenção, o sentimento de Iracema, ainda é de incredulidade. “Durante a  visita, quando o Arlailson me viu, começou a chorar de alegria. Disse que sente muita saudade de mim, do pai dele. Sexta-feira, dia 9, é aniversário dele… 18 anos e ele não vai estar em casa pra gente abraçar ele e falar 'eu te amo'. Por que fizeram isso com meu filho?”, questiona, sem encontrar respostas. 

Apesar de tudo, as mães não escondem por um segundo que a angústia e ansiedade pelo chegada do dia 15, quando ocorrerá a audiência de julgamento, são acompanhadas por um grande sentimento de esperança. Ivone define seu sentimento em uma frase: "Eu só quero poder acordar e ter meu filho para abraçar. É só isso que eu quero." 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira