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Para driblar "bloqueio total" dos EUA, Maduro aposta em renovação no time ministerial

Governo venezuelano também anunciou uma consulta popular para definir se antecipa ou não as eleições do legislativo

Brasil de Fato | Caracas (Venezuela)

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Cinco dos sete novos ministros têm menos de 40 anos / Foto: Divulgação

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou nesta semana trocas em sete ministérios e uma secretaria executiva do governo. Maduro deu mais espaço aos jovens, pois pelo menos cinco dos novos ministros têm menos de 40 anos e participação de organizações e atividades políticas ligadas a juventude. “Vamos avançar a uma nova etapa, de renovação do governo”, explicou o mandatário. 

Houve mudança no comando dos ministérios de Agricultura Urbana; Turismo e Comércio Exterior; Desenvolvimento Mineiro Ecológico; Mulher; Educação Universitária; Ecossocialismo; Obras Públicas; e na Secretaria executiva dos programas sociais Somos Venezuela e Sistema de Missões e Grandes Missões.

Nada mudou, entretanto, nas pastas consideradas mais importantes e no alto escalão do governo.

Novos planos para enfrentar novas sanções

A medida faz parte de uma resposta preparada pelo governo venezuelano às últimas sanções econômicas aplicadas  pelos Estados Unidos contra o país, inaugurando o que especialistas têm chamado de "bloqueio total". Foram estabelecidas novas metas de produção interna de alimentos e de outros produtos de primeira necessidade.

Na posse dos novos ministros, Maduro enfatizou a necessidade de “um novo impulso nas áreas sociais e de geração de riquezas, como a mineração, turismo e exportação”.

Para Alexander Gallardo, estudante de direito e militante da Frente Francisco de Miranda, o desafio da Venezuela é ser independente no setor produtivo. “Nós, como jovens e como povo, estamos preparados para produzir em qualquer terreno. Se dificultarem a chegada de alimentos temos ferramentas para produzir nossos alimentos”, afirma o jovem de 24 anos.

A Venezuela é um país exportador de petróleo e importador de alimentos, remédios e outros produtos industrializados. Cerca de 85% do que consome é trazido de outros países, segundo dados do ministério de Relações Exteriores.

:: Como o bloqueio imposto pelos Estados Unidos afeta a vida dos venezuelanos ::

A dona de casa Jenifer Martins, de 44 anos, comemora o apoio de países aliados do governo venezuelano, como Rússia, China e Turquia, que evita o isolamento completo do país. “Não nos sentimos isolados, porque contamos com o apoio de outras nações e povos que apoiam a revolução. Como povo estamos aqui defendendo nossa revolução”, afirma a moradora do município de Guarenas, na periferia da grande Caracas.

 

Dona de casa venezuelana Jenifer Martins diz que Venezuela não está sozinha | (Foto: Fania Rodrigues)

O ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, afirmou que governo está buscando soluções internas e externas para superar as últimas sanções econômicas. “Não posso adiantar, porque não seria prudente, mas nós temos várias opções, dentro do direito internacional, para contestar a cada um dos ataques que estamos sofrendo”, destacou.

O governo venezuelano, que nos últimos 20 anos subsidiou importações de produtos de necessidade básica, estabeleceu novas políticas de importações, com menos subsídios, devido a crise econômica, mas com mais abertura comercial para pequenos e médios importadores. O uso do dólar também foi liberado no comércio, assim como criado um incentivo fiscal para os produtos em falta no país, como peças de reposição de carros. Essas mudanças econômicas foram aplicadas sobretudo a partir do último ano.

Governo estuda adiantar eleições

 

Deputados constituintes farão assembleias populares para consultar sociedade (Foto: Fania Rodrigues)

Como forma de sair da atual crise política, o governo venezuelano avalia adiantar as próximas eleições parlamentares, mesmo depois da suspensão da última rodada de diálogo com a oposição venezuelana, onde esse era o principal tema em negociação.

A Assembleia Nacional Constituinte (ANC) anunciou na segunda-feira (12) a criação de uma comissão parlamentar para avaliar a melhor data para eleição, que deveria ocorrer normalmente em 2020. Essa comissão composta por deputados constituintes realizará assembleias populares em todo o país para discutir o tema

O parlamento venezuelano atualmente tem maioria opositora e teve seu poder de legislar suspenso pelo Tribunal Supremo de Justiça, por desacato, após descumprir uma ordem judicial em 2016.

O presidente da ANC, Diosdado Cabello, afirmou que a consulta popular terá a palavra final da escolha do período eleitoral. “Em consonância com a Constituição, vamos fazer uma consulta com todos os poderes, e também com as ruas, para estabelecer qual é o melhor momento para realizar essas eleições. Se dessa consultar resultar a decisão de que a melhor data é 1º de janeiro vamos fazer, mas apontar que devem ser feitas esse ano, então será quando diga essa consulta”, destacou Cabello durante sessão da ANC. As assembleias populares terão início nos próximos dias, de acordo com o parlamentar.

Durante essa mesma sessão da ANC, foi suspensa a imunidade parlamentar de quatro deputados opositores do Congresso. Trata-se de José Angel Guerra, Rafael Gusmán, Juan Pablo García e Tomás Guanipa, acusados pelos crimes de traição à pátria, conspiração, instigação de insurreição, rebelião civil, organização criminosa, usurpação de funções e instigação ao ódio.

Os deputados são investigados por participação em ações violentas na tentativa de golpe de Estado, no dia 30 de abril, de acordo com o deputado constituinte Jesus Faría. “Todos eles participaram no golpe de 30 de abril, existem evidências nesse ato contra o Estado e a nação. Uma ação apoia pelos Estados Unidos e tinha uma propósito criminoso de gerar violência e uma guerra civil”, disse ao Brasil de Fato. Os deputados agora serão investigados pelo tribunais de primeira instância da Justiça venezuelana.

Edição: Rodrigo Chagas