Jornada de Agroecologia

“Podemos ter 500 tipos de agrotóxicos na água que bebemos”, diz pesquisador

O tema foi abordado durante a 18ª Jornada da Agroecologia, conduzido pelo Observatório do Uso de Agrotóxicos

Curitiba

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Dados sobre contaminação da água por agrotóxicos foram debatidos na 18ª Jornada de Agroecologia / Ana Caldas

Ao longo das Jornadas de Agroecologia, o Observatório do Uso de Agrotóxicos e Consequência para Saúde Humana e Ambiental do Paraná  vem trazendo dados e denunciando o alto nível de contaminação da água no Brasil por agrotóxicos. Nesta edição, na 18ª Jornada de Agroecologia, em Curitiba, o coordenador do Observatório, Professor Guilherme Albuquerque, levantou o debate sobre a fragilidade dos níveis considerados toleráveis de agrotóxicos. Para o professor,  que também integra o Núcleo de Saúde Coletiva da UFPR, não há base científica e cada vez mais fica evidente que estamos sem controle do uso e efeitos na saúde humana.

“Dos 500 agrotóxicos rotulados no Brasil, apenas 27 são pesquisados na água. Em mais de 80% dos municípios foram detectados todos os 27. Então, é possível e vai ficando cada vez mais evidente que existam os 500 tipos na água que bebemos”, diz Guilherme. Para ele, os dados mudam toda hora e além da fragilidade cientifica, existem grandes divergências entres os países.  “Pois, não há evidência que os brasileiros sejam mais resistentes que os europeus. Na Europa, o glifosato está em um nível 5 mil vezes menor que no Brasil. A água que os brasileiros bebem seria considerada imprópria na Europa”, diz. O glifosato é o agrotóxico mais utilizado no Brasil e pesquisas já revelaram que pode causar intoxicação humana mesmo quando consumido em baixas doses. Recentemente, pelo atual governo, a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)fez uma reavaliação toxicológica do glifosato e liberou, considerando que o mesmo “que não causa prejuízos à saúde.”

Para o professor, “o que temos de evidente é que há adoecimento por causa destas substâncias em lugares com níveis aceitáveis. O que quer dizer que estes níveis não medem os efeitos na saúde humana. O leite materno, por exemplo, pesquisas vêm demonstrando alto nível de contaminação”, cita.

De 2007 a 2017, data do último levantamento oficial do Ministério da Saúde, foram notificados cerca de 40 mil casos de intoxicação aguda por causa deles. Quase 1.900 pessoas morreram. Segundo maior produtor de grãos do país, o Paraná é o estado com o maior número de casos relatados. 

Pesquisa no Paraná detecta agrotóxicos não autorizados

Recentemente uma pesquisa foi realizada em 25 municípios paranaenses ampliando o número de substancias a serem detectadas. Pela legislação, semestralmente, as companhias de abastecimento de todo o país são obrigadas a verificar periodicamente a presença de 27 tipos de agrotóxicos. A pesquisa do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da água para consumo humano vinculado à Secretaria Estadual de Saúde do Paraná ampliou para 228 princípios ativos. A informação foi dada também na Jornada de Agroecologia, junto à atividade do Observatório, pela engenheira sanitarista Alana Fleming, que participa do programa. Ela disse que os resultados trouxeram grande preocupação. “A pesquisa realizada em 25 municípios paranaenses analisou 75 amostras e destas, em 26% foi detectado princípios ativos. Entre os agrotóxicos pesquisados, apenas um era regulamentado e autorizado”, explica.  O Programa entrou em contato com o Ministério da Saúde solicitando revisão da portaria aumentando os níveis.

Sobre o Observatório

O Observatório é uma parceria entre o Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva – NESC, da Universidade Federal do Paraná, o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção ao Meio Ambiente do Ministério Público do Paraná e o Ministério Público do Trabalho no Paraná – PRT 9ª Região. Tem a finalidade de monitorar o uso dos agrotóxicos e suas consequências para a saúde, por meio da realização de pesquisas, divulgação de informações e coleta de dados sobre contaminações por agrotóxicos pela notificação popular.

Edição: Laís Melo