Vazamento

"É impossível vir direto da Venezuela", diz oceanógrafo sobre óleo em praias do NE

Governo brasileiro se apressa em culpar país vizinho sobre derramamento de petróleo, mas esconde relatórios sobre o caso

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Manchas de óleo na praia de Pirambu, em Sergipe: derramamento atingiu todo o litoral do Nordeste e a foz do São Francisco / AFP/ADEMAS/Marcos Rodrigues

O governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) demorou um mês para se manifestar sobre o vazamento de petróleo em todo o litoral do Nordeste, mas foi rápido para encontrar um “suspeito”. Baseado em suposto relatório da Petrobras e da Marinha – que está sob sigilo e não foi divulgado oficialmente – o governo informou que o óleo está vindo “muito provavelmente da Venezuela”, sem explicar como teria chegado ao litoral brasileiro.

A hipótese de um vazamento direto do país vizinho, no entanto, não poder ser levada a sério, já que as coordenadas geográficas da Venezuela levariam o petróleo para bem longe do Brasil.

“Seria impossível vir da Venezuela, porque lá predomina a corrente do Caribe, que vai em direção ao Golfo do México, e os ventos alísios do Norte, que vão para a direção oeste”, afirma o oceanógrafo Thiago Oliveira.

Ao mesmo tempo em que a acusava a Venezuela, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse no começo da semana, também sem esclarecer a fonte de suas afirmações, que o óleo “veio por um navio estrangeiro, ao que tudo indica, navegando próximo à costa brasileira, com derramamento acidental ou não”.

Segundo o Ibama, que trabalha na limpeza das praias, até agora foram retiradas 130 mil toneladas de óleo nos quase 140 pontos de contaminação. O volume equivale à capacidade de um navio petroleiro, entre 140 mil a 175 mil toneladas de óleo cru.

A área atingida tem cerca de dois mil quilômetros de extensão e vai do norte da Bahia ao meio do litoral do Maranhão

A demora do governo em agir pode estar relacionada ao fato de o monitoramento das águas brasileiras ser feito, de fato, pela IV Frota Naval do EUA, e não pela Marinha Brasileira, segundo afirma o cientista político William Nozaki.

“A dificuldade da Marinha em monitorar nossa costa é resultado de uma política que terceirou a proteção da costa brasileira para a IV Frota Naval dos EUA e que desmontou a nossa indústria naval. Da mesma forma, a dificuldade de o Ibama e outros órgãos competentes de apresentar uma avaliação conclusiva sobre o ocorrido é resultado de uma política que abriu mão de zelar pelos nossos recursos naturais e águas para se ocupar de interesses predatórios do agronegócio e do extrativismo”, critica.

Meio Ambiente

A primeira vítima visível do derramamento foi uma tartaruga verde marinha adulta encontrada morta no dia 1 de setembro, na praia do Sabiaguba, em Fortaleza (CE).

Desde então, até 8 de outubro, as manchas de petróleo cru causaram a morte de mais 14 tartarugas e atingiram outros 177 animais.

Além do litoral, a chegada do óleo ao rio São Francisco também preocupa técnicos e ambientalistas.

O rio, com uma das principais bacias hidrográficas do Brasil, também foi atingido pelo vazamento. Na quarta-feira (9), uma comitiva formada por técnicos do Ibama, membros do Comitê do Rio São Francisco e a Marinha fiscalizou a situação da foz do São Francisco, na divisa entre Sergipe e Alagoas.

“Foram encontrados, já no rio, tanto do lado de Alagoas como de Sergipe, focos de contaminação. A equipe de Emergência Ambiental do Ibama está na região. Como não sabemos a origem, não tem como barrar o avanço. A nossa preocupação é com as comunidades ribeirinhas”, disse Maciel Oliveira, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco.

Na foz do Rio São Francisco, o mar avança até 12 quilômetros com a maré alta. É uma região onde a economia gira em torno da pesca do camarão, com desova de tartarugas e reprodução de diversas espécies de peixes marinhos e de água doce.

Edição: João Paulo Soares