Quem são as famílias que vivem no Assentamento Normandia?

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Momento Agroecológico

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Sebastião considera que sua vida é feliz, com filhos e netos por perto, trabalhando no seu próprio roçado / Vinícius Sobreira
Assentados produzem alimentos para escolas de Caruaru e outras cidades

O trabalhador rural Sebastião Manoel da Silva, hoje com 66 anos, chegou à antiga Fazenda Normandia no início dos anos 1970, quando ainda era um garoto de nove anos, já que o pai começou a trabalhar para os antigos proprietários. A casa de taipa em que viviam pertencia à fazenda.

Os trabalhadores perdiam quase todo o salário pagando o aluguel, comprando leite e comida. Cada casa tinha direito a apenas duas latas de água por dia, já que não tinham abastecimento.

Ele relembra de uma situação quando a esposa estava grávida. "À noite, uma parte da casa estalou. Nós saímos, porque a casa estava perto de cair. De manhã, quando fui falar com o administrador da fazenda, ele fez piadas e não resolveu. Disse para a mulher passar o dia na casa e à noite dormirmos fora", conta.

O casal foi morar em um galpão da fazenda e, quando o administrador soube, mandou uma intimação judicial para deixarem o local.

Sebastião lembra bem o dia em que teve o primeiro contato com o MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, organização que ele já conhecia pela televisão.

"Era uma segunda-feira, ia dar 7 horas da manhã. Eu estava com dor de dente e fui avisar que não conseguiria ir trabalhar. Se eu só faltasse, eles diziam que estávamos bêbados ou de ressaca. Ninguém podia adoecer. Quando estava no caminho para a casa grande, vi dois senhores carregando sacos nas costas, pedindo informação sobre a caixa de água. E vi que eles estavam com bonés do MST. Percebi que a fazenda estava sendo ocupada pelos sem terra. Quando cheguei na casa grande, de cima do prédio vimos as bandeiras”.

Ele não possuía fazenda, empregados e o pouco de roça que usava, era frequentemente tirado dele sob acusação de roubo. Para ele foi fácil a escolha de se somar ao MST e fazer daquelas terras um novo lugar. Dos nove trabalhadores da fazenda, só ele quis ficar.

"Mudou muita coisa desde que os sem terra chegaram aqui. Entrou muito projeto do governo, o Incra nos ajudou a construir casas para nós. Graças a Deus estou muito satisfeito e tranquilo”, relembra Sebastião.

Aposentado, assim como a esposa, Sebastião considera que sua vida é feliz, com filhos e netos por perto, trabalhando no seu próprio roçado, onde planta milho, feijão, palma "e mais uma pá de coisas".

Sua filha Lucicleide Maria da Silva, de 42 anos, tornou-se liderança no assentamento. É vice-presidenta da associação de moradores e participa do grupo de boleiras, que produz toneladas de pães e bolos anualmente para merendas escolares.

Elas começaram as atividades há quatro anos, fazendo cursos no Centro Paulo Freire. Hoje, produzem uma grande variedade de produtos.“Temos pão de milho, pão integral, pão de abóbora, pão de beterraba, pão de leite. Bolo, a gente tem o bolo de banana, bolo de cenoura, bolo de macaxeira, mandioca, chocolate e o leite”, explica. 

A produção, segundo Cleide, já passa dos 10 mil quilos por ano, principalmente para escolas da Prefeitura de Caruaru e para o campus Caruaru do Instituto Federal de Pernambuco, além do Armazém do Campo, no Recife, para onde também mandam empadas. 

Edição: Michele Carvalho