Diversidade: literatura infantil fortalece identidade de crianças afro-brasileiras

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Mosaico Cultural

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Maria Flor e Maria Alice leem desde cedo / Rodrigo Zaim
Me dei conta que meninas como eu, cor de chocolate, podiam existir na literatura

Com o livro infantil, as crianças têm o primeiro contato com a leitura. Por meio de histórias fantásticas, elas desenvolvem o senso crítico, a criatividade e o hábito de ler. Nesta reportagem, vamos conhecer duas pequenas leitoras, mas vou deixar que elas se apresentem:

 

                                 - Meu Nome é Maria Flor. Eu tenho 10 anos. Eu gosto de culinária, de princesa e eu também gosto de livros que falam sobre biografia, livros como Zumbi e Bucala, que são livros africanos.

 

- Maria Alice, quatro. Eu gosto de livro de culinária… Eu gosto do livro da Iara!

Desde cedo, Maria Flor e Maria Alice tiveram acesso a livros que traziam personagens negros como protagonistas. 

Entre as publicações preferidas de Maria Flor está 'Zumbi, o pequeno guerreiro', da editora Quilombhoje. Ela conta a história do líder do Quilombo dos Palmares. Usando livremente a imaginação, o autor Kayodê recria a infância do herói brasileiro, que Maria Flor já conhece de cor e salteado.

 

- Uma pessoa negra, que lutou a favor das pessoas. E ele queria contar essa história. E o desenho [mostra] como ele era quando criança.

 

Outro livro recomendado pela ávida leitora é ‘Bucala - a pequena princesa do Quilombo do Cabula’, de Davi Nunes, da  editora Uirapuru. E a Flor, o que pensa a respeito? 

 

- O da Bucala, eu acho que foi uma pessoa boa e gentil que fez.

Diferente de Flor e de Alice, na infância, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, só tinha acesso à histórias inglesas e estadunidenses. Ela conta que foi uma leitora precoce, bem como uma escritora precoce:

 

- Quando comecei a escrever aos sete anos - contos a lápis com ilustrações de crayon - eu escrevia o mesmo tipo de história que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis, que brincavam na neve, comiam maçãs e falavam muito do clima, que lindo era quando o sol saia. 

 

A aparência física, os hábitos alimentares e culturais dos personagens que ilustravam as histórias  lidas e escritas pela pequena menina africana eram bastante diferentes das pessoas e do lugar onde ela vivia.

 

- Não tinhamos neve, comíamos mangas e nunca falávamos do clima porque não era necessário.

 

Por apenas ler publicações de outros países, Chimamanda conta que estava convencida de que os livros, por natureza, deveriam ter personagens estrangeiros e narrar coisas com as quais ela não se identificava. 

 

- Eu amava os livros ingleses e estadunidenses que lia. Despertaram minha imaginação e me abriram para novos mundos. As consequências involuntárias foram que eu não sabia que personagens como eu podiam existir na literatura. Descobrir escritores africanos me salvou de conhecer uma só história.

 

A partir dessa descoberta, a escritora africana diz que sua percepção sobre a literatura se transformou. 

 

- Me dei conta que meninas como eu, com cor de chocolate, cujo cabelo crespo não se podia prender em rabos de cavalo, também podiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.

 

Hoje, Chimamanda Adichie é uma das principais escritoras de literatura africana da atualidade. Autora de poemas, contos e romances, ela falou sobre “O perigo da história única” em um evento do  TEDx.

Os livros da autora já foram traduzidos para mais de 30 idiomas. A escritora africana venceu o prêmio de ficção do Baileys Women’s Prize de 2007 e o de “melhor dos melhores” da década do mesmo prêmio. 

Assim como Chimamanda, a educadora brasileira Odara Dèlé fala sobre como é importante para as crianças negras se reconhecerem positivamente nos personagens dos livros que lêem.

 

- Para a menina ou menino negro se ver em uma obra é extremamente importante, ainda mais com atributos positivos. Muitas vezes, nos ambientes escolares, se ressaltam aspectos negativos da população africana e afro-brasileira. 

 

Odara Dèlé é autora de ‘Lukenya e seu poder poderoso’. O livro é escrito em português e em kimbundu, língua originária do território africano nas regiões da República do Congo e de Angola. 

 

- Os leitores têm essa possibilidade de fazer esse fluxo transatlântico entre o continente africano e o americano através de um livro infanto-juvenil. 

Página a página, Lukenya leva o leitor a viver uma aventura em busca de um grande tesouro. O livro traz referências da cultura africana como a ancestralidade, a oralidade, a música e a filosofia. 

A ideia, diz Dèlé, é  fortalecer as identidades negras ainda na infância. Ela conta que muitas das palavras que nós usamos aqui no Brasil tiveram origem no  Kimbundu, e agora fazem parte da nossa herança cultural.

 

- As palavras mais usuais que nós usamos no nosso dia-a-dia é dengo, cafuné, caçula, moleque, quitanda… São palavras que usamos em nosso cotidiano e não temos essa percepção de que houve essa herança africana.

 

O Kimbubdu está entre as cerca de 2.092 línguas de origem africana. O Diego Barbosa é pesquisador. No artigo ‘Encontros e Confrontos Linguísticos: O Local e o Global na África’, ele conta que esse número corresponde a cerca de 30% de todas as línguas do mundo.

A escritora brasileira Odara Dèlé explica que a existência de livro infantis com protagonistas afro-brasileiros é importante não só para a construção e fortalecimento da identidade da criança negra como também para que as crianças brancas desenvolvam o sentimento de empatia e na noção de respeito às diferenças.

Edição: Geisa Marques