Festividade

Círio de Nazaré reúne fé, tradição indígena e esperança nas ruas de Belém

Neste domingo (13), ocorre a maior procissão católica do Brasil

Brasil de Fato | Belém (PA)

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A festa religiosa movimenta R$ 1 bilhão e reúne cerca de 2 milhões de pessoas durante o mês de outubro / Elielson Pereira

O estado do Pará tem belezas naturais que fazem dele um atrativo o ano inteiro, mas durante o mês de outubro, a capital paraense ganha um colorido diferente. Isso porque a cidade se transforma para festejar a maior procissão católica do Brasil: o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, que será celebrado neste domingo (13). Na cidade, as ruas se enfeitam para prestar homenagens à padroeira dos paraenses. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a estimativa é de que aproximadamente 2 milhões de pessoas circulam pela cidade todos os anos durante a festa. 

O comerciante Jaderson Pinto, 37 anos, mora na cidade de Canindé, no Ceará, e veio para o Círio trabalhar. Ele viaja o país vendendo artefatos religiosos em procissões. Além dele, outros 60 homens vieram de ônibus para comercializar terços, chaveiros, botons e fitas. Como viaja por diversos estados, ele sempre adapta os produtos para a santa que será homenageada.

Nas ruas, é comum ver homens e mulheres vendendo itens religiosos, sobretudo, perto da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, construída para a padroeira. Por entre as mangueiras características da cidade, misturam-se balões, fitas e decorações que anunciam uma grande festa. As fachadas de lojas e das casas e a publicidade local e nacional se rendem a homenagear a santa. 

Como vive de vender artigos de fé, Jaderson chegou à capital na sexta-feira (11) e ficará até o próximo domingo (13). Para fazer o trabalho, alugou uma quitinete no bairro do Guamá, próximo à Basílica, por R$ 400. Ele conta que o que mais vende são as tradicionais fitas coloridas. Com elas, os devotos fazem pedidos para a santa. O uso consiste em dar três nós. Cada nó corresponde a um pedido e a tradição manda que a fita precisa romper por si só para o pedido ser alcançado.

Nessa peregrinação de vender produtos religiosos, Jaderson diz que conhece o Brasil todo. "Eu estava em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Depois, a gente está indo para casa e de lá vai para Sergipe. Para cá, para o Círio, já tem sete anos que eu venho. Se Deus permitir, todo o ano estaremos aqui de volta", afirma, dizendo que o Círio e a procissão do Divino Pai Eterno, em Trindade, em Goiânia, são as mais rentáveis do Brasil e que é com essa venda que ele sustenta a família.



A maniva é uma planta venenosa que precisa ser cozida por até sete dias. Foto: Catarina Barbosa.

O Natal dos paraenses e a ceia indígena

Quando se fala em Natal, lembramos da ceia com comidas particulares, casa enfeitada e presentes. Em outubro, a festividade de Nossa Senhora de Nazaré antecipa o Natal dos paraenses. No lugar da ceia com peru, o paraense celebra o Círio com pato no tucupi e maniçoba. A parte da confraternização é igual, uma vez que reúne familiares, amigos e parentes que vêm de outros estados para a comemoração.

Contudo, apesar de ser uma festa católica, os itens que fazem parte da ceia do Círio têm origem na cultura indígena. O tradicional pato no tucupi – indispensável na ceia – é feito com um derivado da mandioca. A maniçoba, por sua vez, é uma espécie de feijoada, mas no lugar do feijão, usa-se uma iguaria chamada maniva.

A maniva é uma planta venenosa e o seu preparo leva até sete dias, nos quais a folha da mandioca precisa ser bastante cozida. Do contrário, pode fazer mal. A aparência da maniçoba pode assustar alguns, mas o seu cheiro perfuma as ruas da cidade de Belém com um aroma de deixar água na boca.

Durante o Círio, Jane acorda às quatro horas da madrugada e trabalha até 23h30 todos os dias. Fotos: Catarina Barbosa.

Jane Santos, 40 anos, vende a planta cozida e pré-cozida há mais de 15 anos. A feirante mora no bairro do Coqueiro, em Ananindeua, na região metropolitana de Belém. O tempo da casa dela até o Mercado do Ver-o-Peso em dia sem trânsito é de aproximadamente uma hora. Para ter um box no mercado, ela paga R$ 42 por mês para a prefeitura de Belém, mas afirma que não recebe nenhum tipo de apoio ou incentivo. Por morar longe do centro, ela acorda cedo todos os dias, mas na época do Círio acorda mais cedo ainda para poder colocar comida não só na mesa de quem vai celebrar a festa, mas também na sua. "Nós que temos que ajeitar tudo, organizar. Somos nós mesmo que fazemos. É daqui que eu tiro o meu sustento, da minha família, dos meus filhos. Eu me sinto honrada de trabalhar com a maniva, o tucupi", diz com orgulho.

Apesar do seu sustento advir de uma coisa peculiar do Círio, Jane reforça que é devota de Nossa Senhora de Nazaré e que percorreu a procissão do Círio na corda por 10 anos. O motivo lhe encheu os olhos de lágrima: a saúde dos filhos. Hoje, ela não paga mais a promessa, apenas, agradece à santa pela benção alcançada. "Dez anos de corda. Eu fiz a promessa pelos meus filhos, problema de saúde. Mas graça alcançada, eu agradeço ela todos os dias, até hoje", conta.

A corda é um dos símbolos do Círio e faz parte da festividade desde 1885. A festa religiosa existe desde 1793. Feita de sisal – a fibra de uma planta – a corda é vista como forma de agradecimento pelas bênçãos alcançadas. Os fiéis acompanham a procissão puxando-na durante todo o trajeto. 

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré conta com 13 romarias terrestres e também por rios da Amazônia. Foto: Elielson Pereira.

Produção agroecológica

A maniva que Jane comercializa vem de várias localidades próximas de Belém, como o Acará e o Genipaubá, no nordeste do estado. Ela conta que este ano preparou a maniva no próprio Mercado do Ver-o-Peso, mas que antes a fazia em casa. Para fazer o preparo, foram usadas quatro panelas grandes, que lhe garantiram a boa renda do mês. Assim como a feirante, que trabalha com alimentos agroecológicos, os camponeses que vivem em assentamentos e acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) levaram para o Mercado de São Braz, nesta semana, cerca de 20 toneladas de alimentos saudáveis, que foram vendidos a preços populares.

Mas a maniçoba precisa de acompanhamento no preparo. Aí entra o trabalho de outro feirante, Manoel Magno, 60 anos, popularmente conhecido como Batatinha. Com uma blusa personalizada da barraca que leva o seu nome, o senhor conta que é famoso e já concedeu entrevistas para o Brasil inteiro. O motivo: inventou uma mistura de ingredientes que pode ser usada tanto no feijão, quanto na maniçoba. Isso há mais de 40 anos. O produto surgiu, segundo ele, da necessidade dos fregueses, que não encontravam uma mistura igual a dele nos mercados tradicionais. 

Seu Batatinha vende mistura de ingredientes que pode ser usada no feijão e na maniçoba. Foto: Catarina Barbosa. 

"Nós criamos isso aqui, não tinha no supermercado. Aí começamos e hoje a gente tem essa organização aqui que é tradicional. Quando chega outubro vem pessoas que a gente nem se lembra mais, mas que só compra aqui. Tem todos os ingredientes: pé, orelha, bacon, chouriço, calabresa, charque, costela, toucinho branco e coisas mais", enumera.

A mistura do feirante custa R$ 24 o quilo e ele não deu detalhes de quanto arrecada por mês, mas disse que era mais do que suficiente e assegurou que o negócio é tão bom que ele não pensa em fazer outra coisa. Segundo o Dieese, aproximadamente R$ 1 bilhão é movimentado durante o Círio. Mas esse volume de turistas não se encerra junto com a procissão deste domingo, ela segue durante todo o mês de outubro.



Fiel acompanha a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. Foto: Pedrosa Neto.

Para quem mora na capital paraense, outubro é mais do que dados estatísticos, é viver um momento que emociona até quem não é devoto. É olhar para todos os lados e encontrar o Círio em cada esquina e detalhe da cidade. É lembrar dos que agradecem por suas casas, pela saúde recuperada, pela aprovação no vestibular, por um sonho realizado. É o orgulho de um evento que é capaz de misturar a fé católica e a tradição indígena dando origem a uma celebração única, que só poderá ser, finalmente, compreendida por quem está em Belém do Pará no segundo domingo de outubro.

Edição: Camila Maciel