Especial América Latina

Fome e altas tarifas influenciaram derrota de Macri em eleição na Argentina

Em entrevista ao Brasil de Fato, professor da Universidade de Quilmes fala sobre a derrota do atual presidente

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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"Não há dinheiro nos bolsos da maioria, ele está concentrado nos cofres de quem tem mais", diz Carceglia / Arquivo pessoal

Após a derrota do presidente Mauricio Macri, nas eleições argentinas do último domingo, o Brasil de Fato Paraná entrevistou o professor Daniel Carceglia, da Universidade Nacional de Quilmes, para entender os motivos do resultado eleitoral.

Brasil de Fato: A derrota do atual presidente, Mauricio Macri, tem muito a ver com a situação econômica do país. Quais são os principais problemas que hoje afetam a população argentina, especialmente os mais pobres?

Daniel Carceglia: Certamente, uma das principais causas da derrota do modelo neoliberal do governo Macri é a situação econômica em que mergulhou o país, que impacta diretamente as condições materiais da existência das pessoas. Em geral, as condições econômicas, para nossos povos que vivem sempre no limite, sem possibilidades concretas de acumulação de capital para melhorar sua situação, são definitivas na hora de avaliar um governo. Desta forma, é importante entender que os setores mais empobrecidos do nosso país são atingidos pela fome. E fome é comer às vezes, sem saber como ou de onde virão os recursos para a próxima refeição toda vez que se sentarem à mesa.

Por outro lado, as camadas de renda média da população tiveram aumento de 3600% nas tarifas de gás e de 1800% nas tarifas de eletricidade, gerados pela dolarização dos serviços – e o dólar passou de 9,75 pesos em dezembro de 2015 para 68,80 hoje, e em alta - e pela remoção de subsídios ao consumo de energia. Além disso, aqueles que desejavam empréstimos para a compra de moradias foram enganados pelo Estado com aumento que impossibilita pagar os empréstimos, que o próprio Estado propôs e promoveu como um acesso seguro a um teto. Para as pequenas empresas, o desapego à produção nacional foi expresso em políticas que resultaram no fechamento de pelo menos 20 dessas empresas por dia.

Desta forma, a fome - a situação mais grave e horrível com que temos de viver, sofrer -, a queda na renda e a redistribuição de capital – concentrado novamente nas mãos das empresas de energia e do capital especulativo - e a falta de proteção para a indústria e as empresas nacionais - na abertura de importações, mas, também, na ausência de políticas de apoio - configuram um cenário em que esses três setores, em sua maioria, retiraram o apoio ao Cambiemos [movimento pelo qual Macri se elegeu].

Não há dinheiro nos bolsos da maioria, ele está concentrado nos cofres de quem tem mais. Portanto, a demanda é escassa, a oferta cai no vácuo, as chances de pensar em como seguir adiante são frustradas. Assim, a fome, o custo das tarifas e a falta de renda, as importações e a indústria argentina são os principais problemas que o novo governo deve enfrentar.

Nas últimas eleições, houve muita discussão sobre corrupção nos governos Kirchner, esse discurso continuou. Houve difusão de notícias falsas (fake news) como no Brasil?

Certamente, houve e há uma enorme campanha de divulgação não apenas de notícias falsas (fakes news), mas também de paradigmas culturais – de senso comum - distorcidos, focados em mentiras argumentativas. Mas essa proliferação - focada numa mídia altamente concentrada e "distribuidores de trolls" para disseminação - não seria tão eficaz se não contasse, para a "verificação do que foi dito", com suportes judiciais. Na frente de cada "fake" inicia um processo para pressionar e condicionar a pessoa denunciada - na maioria das vezes, mesmo com testemunhas e “provas” falsas - enquanto "mostra à sociedade" como é corrupta a pessoa denunciada. Uma operação articulada entre o poder, a mídia e o sistema judicial (lawfare) para, a partir de uma manobra conservadora típica, rotular os governos populares como corruptos, desacreditando a oposição. Além disso, a geração de argumentos de ódio extremo - necessários para sustentar um modelo autocrático - estabelece um cenário certamente lamentável para a democracia.

Quais são os principais desafios de Alberto Fernández após a vitória? Quais são os problemas mais importantes a serem resolvidos no curto e médio prazos?

Alberto Fernández tem de resolver três questões imediatamente: a fome - é absurdo que um país que produz alimentos para 400 milhões de habitantes não consiga alimentar 15 milhões -; a desdolarização de tarifas e alimentos; e a reativação das pequenas empresas e da indústria.

Ele tem também de reestruturar imediatamente a dívida externa - obscena, recorde em quantidade e tempo em que foi adquirida e inadimplente pelo mesmo governo que a fez - em níveis de que o país possa pagar sem comprometer o bem-estar da população. Mais tarde, poderá começar a recompor os direitos perdidos - conquistados durante os três governos anteriores - e começar a projetar uma Argentina que volte a ser referência para aqueles que trabalham por um mundo com direitos, justiça social, economicamente livre e politicamente soberana.

Edição: Lia Bianchini