Desastre ambiental

Fiocruz se junta aos esforços de combate ao óleo no Nordeste

Fundação anunciou que suas equipes vão analisar a saúde das populações litorâneas atingidas

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Voluntário mostra as mãos cheias de óleo coletado na praia de Camaçari (BA) / Foto: Mateus Morbeck/AFP

A Fundação Osvaldo Cruz afirmou que vai atuar junto ao Ministério da Saúde para analisar os impactos na saúde da população litorânea do nordeste. O anúncio foi feito ontem (4). A região foi impactada pelo derramamento de óleo.

Segundo nota emitida pela fundação, o foco principal da ação - que será desenvolvida em conjunto com o Centro de Operações de Emergência (COE Petróleo) - é monitorar a qualidade dos alimentos sendo fornecidos na região. Além de capacitar a população para lidar com os efeitos nocivos do óleo e informar os moradores atingidos a respeito dos riscos envolvidos no contato com o material e sobre seu descarte apropriado.

Cerca de 144 mil pescadores e marisqueiras vivem na região afetada e dependem diretamente do mar, seja como fonte de alimentação, seja como fonte de renda. A Fiocruz enfatizou que deve focar seus esforços no atendimento dessa população cuja vida depende das águas. 

Em entrevista à coluna Repórter SUS, que vai ao ar nesta sexta-feira (08), a pesquisadora Idê Gurgel, da Fiocruz Pernambuco, falou sobre a ampla variedade de efeitos nocivos que o contato com o óleo tem na saúde humana. 

“Os sintomas têm variado: desde irritação de pele e mucosas até problemas respiratórios, mal-estar, náuseas, tonturas”, afirmou. Ela enfatizou que a mobilização de voluntários nos esforços de contenção do óleo têm aumentado o número de pessoas impactadas pela substância.

A situação tem preocupado membros da Fiocruz envolvidos na força-tarefa que analisará os impactos do óleo sobre a saúde da população.

“A gente pode ter desde quadros leves até quadros graves, como o coma e a pneumonia química. Os efeitos crônicos [do contato com o óleo] comprometem diferentes órgãos e sistemas, porque ele é neurotóxico, com ação no sistema nervoso central”, explica. 

Ela diz ainda que podem “haver neuropatia periférica, comprometimento hematológico, anemia, leucemia, linfoma, comprometimento do sistema respiratório, inclusive com desenvolvimento de cânceres, disacusia e perda auditiva. Isso sem falar que todo o processo de degradação ambiental por si só já tem comprometido a vida das pessoas que vivem do mar”. 

A questão da contaminação dos que se esforçam por conter o óleo também foi abordada em nota publicada ontem pelo Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Brasil (MPP). 

“Diante da falta de atuação do Estado, nós pescadores temos colocado nossa vida em risco numa tentativa desesperada de retirar o óleo de nossos locais de vida, das águas de onde vivemos e onde mantemos nossas famílias e alimentamos a sociedade brasileira com pescado saudável e de qualidade” aponta o documento. 

“Já temos relatos de companheiros e companheiras que apresentaram problemas de saúde após o contato com o mesmo, principalmente em Pernambuco”, relatam os pescadores. 

Mancha tóxica

No final de agosto deste ano, manchas de óleo de procedência desconhecida foram avistadas em Praia Bela, no estado da Paraíba. Desde então, a substância tem se alastrado e agora se estende por nove estados, 114 municípios e 342 localidades.  

O governo anunciou ontem que 4 mil toneladas já foram retiradas do mar, mas a quantidade total do óleo segue desconhecida. Segundo o último relatório do Ibama, 112 animais foram encontrados cobertos de óleo. Destes, 83 já haviam morrido quando foram interceptados pelas equipes do órgão.

Edição: Katarine Flor