Coluna

Não chegou a hora de pedir impeachment

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07 de Novembro de 2019 às 16:02

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Devemos aprender a cultivar a paciência revolucionária de acompanhar o povo, e lutar ao seu lado. / Giorgia Prates
Não há razão para desespero, a mobilização social contra Bolsonaro virá

A discussão sobre o uso da tática do impeachment de Jair Bolsonaro (PSL) voltou. O pedido de impeachment desperta simpatia, o que é fácil de compreender depois de 300 dias terríveis de Bolsonaro.

Aliás, já foram apresentados três, desde janeiro, todos engavetados. Trata-se de uma iniciativa improdutiva, portanto, um erro, porque será arquivado, sumariamente, por Rodrigo Maia. Sim, essa é uma prerrogativa da presidência da Câmara dos Deputados.

Enquanto a relação social e política de forças não mudar, favoravelmente, todos os novos pedidos terão o mesmo destino. Serão manchete de um dia na internet, e nada mais. Os atos de 5 de novembro foram muito combativos, especialmente o de São Paulo, debaixo de um dilúvio bíblico, porém, apenas uns milhares.

Nos atos dos últimos meses – ações de vanguarda com alguns milhares de abnegados ativistas – tem tido ampla adesão o "Fora Bolsonaro", como expressão de "Basta, Chega", e isso alimenta ilusões.

Ao que parece teve repercussão no Rock in Rio, o que é ótimo. "Fora Bolsonaro" como palavra de ordem de agitação, sinônimo de "Basta e Chega", é um desabafo.

Mas abraçá-lo como eixo da estratégia política, ou seja, "Abaixo o Governo", significa que se considera que estão reunidas as condições objetivas e subjetivas para tentar derrubar Bolsonaro, aqui e agora.

Trata-se de uma revolução política e isso é precipitado. Porque essas condições, infelizmente, ainda não existem.

Dedicar todas as forças empenhadas em uma campanha que não podemos vencer, porque não temos forças, só pode gerar desmoralização. Oxalá a situação evolua, rapidamente, e então será correto e oportuno.

Se concentrarmos forças na convocação de atos pelo "Fora Bolsonaro", que não podem, por enquanto, ter audiência nas amplas massas, deixamos de tentar construir mobilizações que têm o potencial de um despertar para a luta. Essas mobilizações serão, como o tsunami da educação em maio, a única vez em que milhões ouviram a esquerda, defensivas.

Foi e continuará sendo assim, enquanto a experiência prática das massas não se esgotar. Isso exige tempo, e os 300 dias não foram, infelizmente, suficientes. Sim, temos pressa. Mas devemos aprender a cultivar a paciência revolucionária de acompanhar o povo, e lutar ao seu lado.

Mas vale a pena lembrar que o impeachment e o "Fora Bolsonaro" são duas dimensões de luta políticas diferentes, embora conectadas. A tática do impeachment é somente uma tática parlamentar. Deve estar articulada e, sobretudo, subordinada a uma estratégia política para a questão do poder.

São três, essencialmente, as posições em debate. Há aqueles que defendem o quietismo, os que defendem a ofensiva permanente e os que defendem a Frente Única.

Estes conceitos têm uma história e remetem ao repertório acumulado pela esquerda marxista mundial. O quietismo está associado à orientação do SPD o partido da socialdemocracia alemã sob a orientação de Kautsky. A ofensiva permanente era a posição de Bela Kun, líder húngaro da III Internacional para a situação alemã, que resultou na derrota da revolução em 1923. A tática da Frente Única foi elaborada sob a inspiração de Lenin e Trotsky.

Os que defendem o quietismo partem da premissa que sofremos uma derrota histórica. Concluem que a situação é contrarrevolucionária, e exigirá anos para uma recuperação da capacidade de luta, e o maior perigo é um autogolpe, portanto, não podemos provocar.

Os que defendem a ofensiva permanente partem da premissa que a derrota foi, essencialmente, eleitoral, as forças da classe trabalhadora estão intactas, a situação é pré-revolucionária, e a expectativa é uma derrubada, mais ou menos iminente, do governo, e não podemos hesitar.

Por último, estamos aqueles que consideramos que ocorreu uma derrota político-social grave, de tipo estratégico, avaliamos a situação como reacionária, e temos a expectativa de um período defensivo, em que a resistência precisa acumular forças para ter capacidade de contraofensiva, e não podemos vacilar.

A proposta de impeachment é sustentada por uma minoria de partidos, organizações, correntes e lideranças que descuidam de fazer uma análise séria da relação social ou política de forças.

Se o fizessem, teriam que considerar que o governo mantém uma devastadora ofensiva, até o momento, incontível. Porque apoiado, em primeiro lugar, na embaixada norte-americana, no apoio da imensa maioria dos capitalistas animadíssimos com os pacotes sucessivos de Paulo Guedes; nas Forças Armadas e nas polícias; na maioria reacionária no Congresso Nacional; no Supremo Tribunal Federal e na maioria da classe média abastada. Enquanto na classe trabalhadora e no povo ainda prevalece o desânimo e a insegurança, quando não a confusão. 

Mas, como já aconteceu esse estado de ânimo vai passar.

Não há razão para desespero, a mobilização social e política contra Bolsonaro virá.

Edição: Rodrigo Chagas