Coluna

A travessia do deserto

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08 de Novembro de 2019 às 11:15
"Nos tempos atuais, é como se o Brasil e a América Latina estivessem em meio à travessia do deserto" / Foto: Shutterstock
Qualquer travessia do deserto exige muito trabalho de base e muita formação

Reunião de articulação das Escolas de Fé e Política gaúchas em meio à tradicional Feira de Economia Solidária, sábados de manhã, no Centro de Eventos em Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter em Santa Maria, Rio Grande do Sul, no final de outubro de 2019: falei que estamos, na atual conjuntura brasileira e latino-americana, como numa travessia pelo deserto, no plano simbólico.

Todas e todos com alguma vivência, ou nem tanta, já atravessaram o deserto, alguma ou várias vezes, seja no plano individual, seja no plano comunitário, político, coletivo, familiar, profissional. Poderia citar vários momentos de vida e diferentes situações pessoais: a expulsão da PUCRS nos anos 1970, por envolvimento no movimento estudantil, com a consequência de ter negada a ordenação sacerdotal – crise de um projeto de vida; demissão, como professor, do Colégio Anchieta, anos 1980, em polêmica e debate público semelhantes às do Colégio Rosário em 2019; a separação, fim do casamento, anos 1980 - crise nunca plenamente superada; a não reeleição como deputado estadual, principalmente por erros, equívocos e escolhas políticas minhas, pessoais, anos 1990; a não eleição de Lula para presidente em 1989; o impeachment/golpe da presidenta Dilma em 2016.

A travessia pelo deserto costuma ser longa, cheia de imprevistos, sobressaltos, crises de todos os tipos e tamanhos, perdas de variadas ordens. Nunca se sabe, com certeza, se a travessia levará a um porto seguro, em quanto tempo, com quais custos políticos, sociais, afetivos, quem acompanhará toda a jornada, quem e quantos chegarão do outro lado do deserto sãos e salvos.

Por outro lado, travessias do deserto podem ser oportunidades, aprendizados, experiência.

O caso mais emblemático e mais conhecido é a travessia do deserto feita pelo povo hebreu, o líder Moisés à frente, fugindo da dominação egípcia, rumo à Terra Prometida. Foi o momento histórico da constituição de um povo, com valores, com unidade, com sonhos, com construção de futuro e de esperança. No caso, foram 40 anos atravessando o deserto.

Nos tempos atuais, é como se o Brasil e a América Latina estivessem em meio à travessia do deserto: aridez, incertezas políticas, sofrimento social, caos econômico. Difícil saber o que vai acontecer na conjuntura, como e por quanto tempo a travessia vai se desenvolver, como vai terminar.

De toda maneira, tempos de travessia do deserto são tempos onde deve-se combinar a denúncia com o anúncio. Denunciar os desmandos e a dominação dos faraós opressores do povo. Anunciar os novos tempos, saber ler os sinais de sua chegada.

Em tempos de travessia pelo deserto, as pequenas experiências, que na verdade são grandes, como as da Economia Solidária, entre outras tantas, tornam-se especialmente importantes. Além de garantirem a sobrevivência em muitas situações, criam vínculos, aproximam as pessoas, valorizam o fazer junto e coletivo, mostram que pode ter, e haverá, amanhã e que o sol um dia voltará a brilhar.

São também as experiências nas periferias, com atividades culturais, com Cursinhos Populares, com lutas por direitos e organização popular. Além de juntarem o povo e as juventudes, escapam aos tentáculos dos poderosos de plantão, sempre prontos a não permitirem a auto-organização e o pensamento próprio.

Qualquer travessia do deserto exige muito trabalho de base e muita formação. É o momento de cultivar valores, de consolidar vivências comuns, de abrir-se para o aprendizado comunitário.

Qualquer travessia do deserto exige permanente mobilização. O povo que quer chegar na Terra Prometida não pode ficar parado à espera dos acontecimentos. As circunstâncias favoráveis precisam ser construídas com a participação de todas e todos dispostos a fazer da travessia um caminho de esperança e de sobrevivência coletiva.

Não se atravessa o deserto sem caminhar junto, sem unidade. Ninguém solta a mão de ninguém nesta hora, neste tempo, nesta conjuntura.

A América Latina, ao longo dos séculos, atravessou o deserto mais de uma vez, como parece estar fazendo mais uma vez neste momento em diferentes países, onde o povo, soberano, altivo, está dando a resposta ao poder opressor e à dominação histórica. Não será diferente no Brasil, em algum momento da História. O povo brasileiro já demonstrou sua capacidade de luta, seu destemor, seu amor à liberdade e à justiça mais de uma vez, como quando enfrentou a ditadura e a derrotou.

A travessia do deserto está acontecendo. A Terra Prometida está adiante, e é uma questão de tempo ocupá-la com democracia, como povo soberano, como Nação.

Edição: Marcelo Ferreira