Todo estádio de futebol tem um pouco de navio negreiro

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Papo Esportivo

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Segurança Fábio Coutinho sofreu ofensas racistas no clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro no último domingo (10) / Reprodução / Internet
De todos os 20 treinadores dos clubes da Série A, apenas dois são negros

Aconteceu com Taison e Dentinho, brasileiros que jogam pelo Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Os dois sofreram ofensas racistas por parte da torcida do Dynamo Kiev em partida disputada no último domingo (10). Revoltado com a situação, Taison mostrou o dedo do meio para os torcedores que o xingaram e chutou a bola na arquibancada.

Aconteceu também com Fábio Coutinho, segurança do Mineirão. Ele sofreu ofensas racistas de dois torcedores do Atlético-MG durante o clássico contra o Cruzeiro no momento em que ele e outros seguranças barravam a ida de atleticanos exaltados para uma área restrita do estádio. Fábio Coutinho ouviu coisas como “olha a sua cor, não coloca a mão em mim”.

Aconteceu com quase metade dos atletas negros que atuam pelos 60 clubes das Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro. Em levantamento feito pelo site globoesporte.com, 48,1% dos 163 jogadores entrevistados afirmaram que já foram vítimas de racismo no futebol.

Quase todos os estádios de futebol têm um pouco de navio negreiro. O racismo vem em forma de xingamento disfarçado de “paixão clubística” e costuma ser amenizado por expressões como “ânimos exaltados” e “calor do momento”. São os mesmos que não pensam duas vezes em chamar um jogador ou um segurança de “macaco” (ou até coisa pior) e que afirmam não serem racistas quando são confrontados. “Temos até amigos negros”, dizem eles.

Ainda temos o racismo estrutural que sai da boca daqueles que condenam tais atos num primeiro momento, mas que sempre procuram erros em quem foi vítima desse tipo de violência. Gente que condenou a reação de Taison ao se levantar contra esse câncer que ainda toma conta da nossa sociedade. Gente que defende que jogadores de futebol deixem de ser humanos e se tornem máquinas. Gente de cabeça pequena e de coração seco.

De todos os 20 treinadores dos clubes da Série A, apenas dois são negros: Roger Machado, do Bahia, e Marcão, do Fluminense. Quer demonstração mais clara de racismo estrutural do que essa?

Desde o torcedor elitizado que se acha o “capataz” do setor mais caro do estádio, passando pelos “senhores de engenho” do futebol (FIFA, UEFA, Conmebol, CBF e afins) que ensurdecem o mundo com seu silêncio diante das cenas lamentáveis que assistimos nas últimas semanas, o racismo está tão presente no velho e rude esporte bretão quanto a bola, as traves e os gritos de gol. Mas tem gente que prefere manter o tal navio negreiro em curso sem que nada atrapalhe o “espetáculo” dentro de campo.

É claro que isso não se limita ao futebol. O que acontece num estádio é apenas o reflexo da nossa sociedade doente que pensa que pode tirar o seu racismo do armário e desfilar com ele pelas arquibancadas.

Todo estádio ainda tem um pouco de navio negreiro. Nossa sociedade ainda tem muito de um navio negreiro. Seja nas cadeiras cativas ou dentro das quatro linhas. E sempre que negamos isso, damos mais uma remada em direção ao nosso passado triste, medíocre e mesquinho.

SELEÇÃO BRASILEIRA ENFRENTA A ARGENTINA

A Seleção Brasileira entra em campo nesta sexta-feira (15) para enfrentar a Argentina em Riade, na Arábia Saudita. Enfrentar nossos “hermanos” é sempre um bom teste para a equipe comandada por Tite. Por outro lado, eu não devo ser o único que sente falta de ver o escrete canarinho jogando aqui no Brasil. Nem tanto por ver nomes como Firmino, Alisson e Thiago Silva nos nossos campos, mas pela necessidade de se recuperar a proximidade com o torcedor. É algo fundamental para a nossa Seleção.

Edição: Brasil de Fato (RJ)