Colômbia

Direto de Bogotá, jornalista explica reação popular de colombianos contra Iván Duque

Num cenário de violência e assassinatos, os colombianos marcham por paz e justiça

A pauta de reivindicações escancara o rechaço dos colombianos às políticas sociais e econômicas do presidente Iván Duque / Foto: AFP

Desta vez é a Colômbia que vai às ruas protestar seguindo a maré de levantes populares que têm tomado a América Latina. Dia 21 de novembro, o país avançou em marcha convocada por um comitê amplo que inclui mais de 50 entidades, como a Confederação de Trabalhadoras da Colômbia (CTC), a Central Unitária de Trabalhadores (CUT), Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a União Nacional de Estudantes da Educação Superior (Unees). 

A pauta de reivindicações escancara o rechaço dos colombianos às políticas sociais e econômicas do presidente Iván Duque, do partido Centro Democrático, sucessor do atual senador e ex-presidente Álvaro Uribe, uma das figuras mais influentes da direita no país. A população protesta contra o “Paquetazo” de Duque, eleito com 54% dos votos, no cargo desde agosto de 2018. Algumas das medidas rejeitadas pela população.

Reforma trabalhista que altera a jornada de salário e remunerações, diminui em 25% o salário mínimo para os jovens, diferencia o salário por região, estabelece o contrato por hora e elimina extras por trabalho em dias de domingo e feriados; Reforma nas aposentadorias que implanta e o modelo de poupança individual e mudança do sistema previdenciário para fundos privados; Desinvestimento na Educação superior pública; Aumento de 35% nas tarifas de energia elétrica e privatizações; e Reforma tributária que diminui encargos para grandes empresas e multinacionais.

Mas, para além dessas pautas, o povo colombiano também marcha por paz e justiça diante de um cenário de violência e assassinatos de lideranças sociais e indígenas. Desde quando Duque assumiu o posto de mandatário do país, cerca de 135 indígenas foram assassinados, de acordo com a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC).

O Acordo de Paz firmado desde 2016 pelo governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que deveria reformular as relações do Estado colombiano no processo de diminuição da violência no país, tem tido o efeito contrário. Os números de mortos divergem. Para a Defensoria do Povo, órgão do governo colombiano, foram cerca de 462 de líderes sociais assassinados, enquanto movimentos sociais e ONGs afirmam que esse número chega a aproximadamente 800 nos últimos quatro anos.

Deste as causas da violência contra indígenas e líderes sociais, o que se discute nos meios de comunicação é a existência de grupos dissidentes das FARC que vão ao ataque contra indígenas que não aceitam ter suas terras usadas como área de cultivo de coca e, por isso, o crescente número de mortes. O argumento de combate aos grupos dissidentes, acusados de recrutar menores de idade para suas fileiras, fragiliza a situação dos povos indígenas e outros grupos que ficam reféns e desprotegidos porque não têm asseguradas pelo Estado garantias de sobrevivência e sustentabilidade econômica e social.

Em agosto deste ano, uma ação das Forças Armadas colombianas contra um acampamento dissidente na cidade de San Vicente del Caguán, no sul do país, resultou em meninos mortos em bombardeio. Segundo o governo, foram oito, mas segundo os moradores morreram entre 16 e 18, com idades entre 12 e 17 anos. As críticas e polêmicas envolvendo ação findaram na renúncia do Ministro da Defesa, Guillermo Botero, no dia 6 de novembro.

Na capital, Bogotá, foram cerca de 34 pontos de marcha, que tiveram seu momento mais simbólico na Plaza de Bolívar, no centro histórico da cidade e diante das principais representações do poder no país: o Capitólio Nacional, que sedia o órgão máximo do legislativo colombiano, a sede da Alcaldía (a representação do município) e o Palácio de Justiça. 

A estátua de Simón Bolívar, que dá nome à praça, começara o dia coberta e cercada por uma parede metálica, teve os muros derrubados e a venda tirada diante de uma multidão que desde a madrugada seguia nas ruas e para lá fluía durante todo o dia, ainda que sob chuvas. As principais cidades colombianas como Cali, Medellín, Barranquilla e Bucaramanga tiveram grandes atos. Foram registrados alguns ataques a estações do sistema de ônibus de Bogotá, o TransMilenio e saques em algumas lojas. Em função dos protestos, o transporte público foi suspenso.

As marchas tiveram amplitude nunca vista no país por contemplarem diversos segmentos sociais, que canalizaram suas vozes contra um presidente impopular e o sistema que há anos permeia a política colombiana, o Uribismo, simbolizado na figura do ex-presidente e atual senador pelo Centro Democrático, Álvaro Uribe Vélez. O chamado Uribismo se caracteriza por um Governo de direita, conservadorismo e liberalismo econômico. Essa combinação tem gerado insatisfação por parte do povo colombiano, que se une em busca de uma alternativa.

Repressão ao Paro Nacional e Toques de recolher

O grande ato na Plaza de Bolívar começou pacífico e terminou ecoando bombas de gás lacrimogêneo assim como em outras cidades colombianas. Em Cali, foi decretado toque de recolher já na quinta, dia 21. Com protestos seguindo na sexta, 22, o prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, do Partido Liberal Colombiano, decretou toque de recolher até a manhã do sábado, 23, e anunciou a presença de 4 mil soldados e 7 mil policiais nas ruas. O recém-assumido Ministro da Defesa, Carlos Trujillo, informou que os protestos do dia 21 de novembro terminaram com três mortos, mais de 122 feridos e 98 pessoas presas. 

Após a parada, o presidente Ivan Duque disse em pronunciamento oficial que o protesto pacífico é legítimo, mas que aplicará o rigor da lei nos casos de vandalismo. Mesmo dizendo que os protestos foram convocados com base em notícias falsas, afirma que o diálogo social é a principal bandeira de seu governo: “um governo que escuta e constrói” e “seguirá a agenda de luta contra a corrupção”. Duque convocou para esta segunda, 25, uma Agenda de Conversação Nacional, na qual diz que ouvirá todos os setores da sociedade colombiana.

Clima de medo

As tentativas de minimizar os protestos começaram dias antes. Mesmo com um índice de rejeição que chega aos 60%, o presidente Duque afirma que a parada foi organizada a partir de notícias falsas sobre o “Paquetazo”. Álvaro Uribe acusa o então Foro de São Paulo de convocar o ato como parte de sua estratégia de desestabilizar as democracias na América Latina. Foi realizado controle migratório nas fronteiras colombianas sob a prerrogativa de vir pessoas de outros países que também passaram por protestos recentes como o Chile e Equador. Com forte presença de venezuelanos na Colômbia, estes imigrantes também foram acusados de estarem no país para promover a desordem. Coletivos artísticos e políticos foram invadidos pela polícia, que intimidaram artistas em uma suposta busca de materiais explosivos. 

Durante o toque de recolher da noite da última sexta, 22, em Bogotá, diversas Fake News de que encapuchados estariam invadindo condomínios residenciais e saqueando casas durante a madrugada aumentaram o clima de medo na população. Muitas pessoas se dividiram em grupos e, segurando paus, puseram-se em plantão para proteger seus lares e bens. Em vídeos que circulam nas redes sociais, pessoas denunciam que soldados do Esquadrão Móvel de Combate a Distúrbios (ESMAD) e a própria polícia estariam estimulando a atuação de encapuchados para justificar a repressão aos atos e assim dar uma resposta governamental à sociedade colombiana.

El paro continua

O grande ato dia 21 não representou um momento isolado, mas um pontapé para uma série de manifestações que estão ganhando corpo pela Colômbia. Na sexta, 22, e sábado, 23, pessoas seguiram marchando nas ruas e batendo panelas. Na tarde deste sábado, em Bogotá, um jovem estudante de 18 anos, identificado como Dilan Cruz, foi atingido com uma bala de borracha no crânio por um agente da ESMAD enquanto tentava ajudar amigos atingidos por gás lacrimogêneo. 

O jovem segue internado em estado grave e manifestantes se uniram para demarcar o chão banhado de sangue e garantir que a prova continuasse ali.

Os protestos não acabaram. Os colombianos seguem nas ruas desde o dia 21. Os próximos dias dirão.

Edição: Saiba Mais