ESPECIAL SOBERANIA NACIONAL

A vida de quem foi “privatizado”

Trabalhadores do Paraná relatam impactos negativos em suas vidas com a venda de empresas públicas

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Péssimas condições de trabalho e de segurança para o trabalhador, e falta de inserção no desenvolvimento do país são alguns dos problemas / Arte: Vanda Moraes

Os governos federal e estadual têm apresentado a privatização de empresas públicas como solução para melhorar a economia. Porém, quem já “sentiu na pele” os efeitos da privatização tem opinião contrária. O Brasil de Fato Paraná entrevistou trabalhadores que vivenciam os impactos da venda de uma empresa pública para a iniciativa privada. Péssimas condições de trabalho e de segurança para o trabalhador e falta de inserção no desenvolvimento do país são alguns dos problemas citados decorrentes da privatização. 

Confira os depoimentos:  

Reginaldo Fernandes Lopes da Silva trabalha na Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen-PR) 

(Foto: arquivo pessoal)

“Aos 25 anos, entrei na Fafen por processo seletivo. Nessa época, a empresa havia sido privatizada e por isso já não se fazia concurso. De 1999 até 2013, ficou privatizada. Foi reestatizada em 2013, no governo Lula. No tempo da privatização, foram cerca de três empresas, e o que vi foi que quanto maior era o acionista, pior era o investimento dentro da empresa, mais precarizado o trabalho, menos preocupação com a nossa segurança e mais interesse somente com o lucro. Teve demissão de empregados, e a Fafen perdeu sua importância como empresa nacional. Atualmente, com o governo anunciando sua venda novamente, o clima é o pior possível entre os trabalhadores. Já existe recuo na produção e isso impacta na economia da cidade, no ânimo dos trabalhadores e na soberania do país”.

* O governo Temer mandou a Petrobras vender a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) para a Acron, uma empresa russa, sem licitação. A medida só foi impedida pelo ministro Ricardo Lewandovski, do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu serem necessários debates em audiências públicas e votação no Congresso Nacional. Agora, no atual governo, a Fafen voltou para a lista de empresas que podem ser vendidas. 

Darci Saldanha é bancário do ex-Banestado e Itaú

(Foto: Giorgia Prates)  

“Entrei no antigo Banestado por concurso, em 1977, passando pela época da venda deste importante banco para o Itaú. Não esqueço do dia 19 de outubro de 2000, no Governo Lerner, quando o banco foi vendido. Foi triste. O Banestado tinha uma carteira para projetos na área rural, estava em todos os municípios do Paraná e servia à sociedade, e não ao lucro de uma empresa. De 17 mil trabalhadores, com a venda para o Itaú, passamos para sete mil. Depois, para cerca de dois mil trabalhadores. A diferença de ter trabalhado em um banco estatal é que tínhamos garantias como Plano de Carreiras, Licença prêmio e possibilidade de crescimento dentro da empresa, além do orgulho de trabalhar num banco que participava ativamente do crescimento do estado. Isso acaba totalmente com a venda para o Itaú”. 

* O Banestado foi vendido ao Itaú via leilão, no dia 17 de outubro de 2000, pelo valor de R$ 1,6 bilhão, após o então governador Jaime Lerner reagir à ameaça de intervenção pelo Banco Central do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Consuelo Trancoso é auxiliar de enfermagem e trabalha no Hospital de Clínicas  

(Foto: Giorgia Prates)

“Desde 2002, trabalho no Hospital de Clínicas. Com a entrada da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), em outubro de 2014, as coisas foram mudando dentro do hospital. A promessa era que a privatização traria mudanças positivas, mas o que vem acontecendo é a piora. Há aumento crescente de assédio moral, infelizmente, e descaso com trabalhador e com os usuários do hospital. Neste momento, estamos vivendo um clima de incertezas em todo o Complexo Hospitalar, com as demissões de servidores da Fundação de Apoio da Universidade Federal do Paraná (Funpar), deixando um clima de desmotivação e sobrecarga. No lugar das pessoas demitidas, teremos substituições de pessoas com salários mais baixos e com menos qualificação. Onde havia dois funcionários, agora tem apenas um. Onde havia funcionários que conheciam bem o serviço, tem um que não conhece. Estamos trabalhando com vidas, e isso não tem sensibilizado a empresa que gere o hospital”.

*Em 28 de agosto de 2014, foi aprovada pelo Conselho Universitário da Universidade Federal do Paraná a adesão do HC – Hospital de Clínicas – à Ebserh, a partir de então, o HC foi submetido à administração de uma entidade de caráter privado. 

Edição: Lia Bianchini