SOBERANIA NACIONAL

"As privatizações são um erro estratégico", afirma economista e professora da UFPR

Em entrevista ao Brasil de Fato, Eliana Carleial fala sobre os riscos que o Brasil corre com as medidas do atual governo

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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"Essa tentativa de transformar o Estado numa empresa é uma tentativa fracassada. O Estado tem pressupostos diferentes, objetivos diferentes" / Divulgação

O Brasil tem, atualmente, uma participação da indústria no seu Produto Interno Bruto (PIB) menor que em 1950 e está implantando medidas contra os interesses nacionais, como a venda de empresas estatais. Veja abaixo trechos da entrevista exclusiva da economista e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eliana Carleial, concedida na roda de conversa promovida todas as segundas-feiras pelo Brasil de Fato Paraná e transmitida ao vivo pelo Facebook.

Brasil de Fato: O que falar da situação do Brasil, hoje, na economia, em que o Estado está sendo desmontado com as privatizações e políticas neoliberais?

Liana Carleial: A gente está discutindo uma política social no contexto de um capitalismo financeirizado e que usa essas práticas neoliberais como se fosse uma saída. Isso aconteceu no governo de Fernando Collor, no governo Fernando Henrique Cardoso e está acontecendo agora de forma mais violenta. Isso não é novo também na América Latina, a gente está vendo a situação no Chile, que foi o primeiro a implementar essas medidas de maneira muito forte. Até demorou para ter reação. Isso está nesse pacote de que o Estado tem de ser menor. E pergunto: existe um tamanho ideal de Estado? Creio que não. Tem de ver o tamanho da população que se tem - no caso do Brasil são 210 milhões de pessoas -, que necessidades que essa população tem, e a partir daí pensar que tamanho o Estado precisa ter. 

E em relação às privatizações?

É, a meu ver, um erro estratégico. As privatizações estão no princípio de que o privado é mais eficiente que o público. E eu não conheço metodologia que possa comparar a eficiência do Estado e da iniciativa privada. Vamos falar, por exemplo, na Vale, que foi privatizada. Será que o que vimos em Mariana e Brumadinho pode ser tomado como símbolo da eficiência privada? Essa tentativa de transformar o Estado numa empresa é uma tentativa fracassada. O Estado tem pressupostos diferentes, objetivos diferentes. A eficiência do Estado é a eficiência e a efetivação de suas políticas. Se você tem ou não efetividade na política pública.  

E o papel do Estado no desenvolvimento do país? 

A outra questão é a ideia de que não se podem usar empresas públicas em prol do desenvolvimento do país. Como se essas empresas não fizessem parte do Estado e dos objetivos do Estado. Por que os Estados Unidos, por exemplo, fazem etanol de milho, que é caríssimo? E subsidiam fortemente, com qual objetivo? É para ter autossuficiência energética. Isso é contraditório, está errado? Claro que não. Eles têm de produzir tudo que seja estratégico para eles. No nosso caso, a estrutura produtiva brasileira já perdeu vários elos de sua cadeia. E a Petrobras, por exemplo, que tinha uma forma muito ajustada de ir do poço até o posto, utilizando as refinarias para investir no que era importante, que era a prospecção em águas profundas, como vai abrir mão disso se tem vários elos produtivos encadeados?

Há o risco de o governo Bolsonaro tornar o Brasil um país dependente da importação de produtos industrializados?

A questão da soberania nacional parece em nenhum momento despertar o interesse ou ter algum compromisso do governo. Eles usam a bandeira brasileira como símbolo, mas prestam continência à bandeira dos Estados Unidos. Mas o que vai acontecer se tivermos uma estrutura produtiva “vazia”? O que me inquieta é que os próprios empresários permanecem calados. Você não os vê lutando pelos seus espaços produtivos. Porque temos, em 2018, uma participação da indústria no PIB menor que em 1950, houve uma perda grande. E os empresários parecem não se incomodar com isso. Será que eles acham que simplesmente é suficiente serem rentistas? Se o Brasil não der certo, vão embora, compram casa em Miami? 

Edição: Lia Bianchini