Coluna

A Polícia Militar precisa ser extinta

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02 de Dezembro de 2019 às 15:00

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O massacre de Paraisópolis foi mais uma tragédia causada por policiais mal treinados e mal pagos / Miguel Schincariol/AFP
Precisamos de uma força pública a serviço da sociedade e não da minoria rica

Em uma ação mal planejada e mal executada, a Polícia Militar causou a morte de nove pessoas na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, na madrugada de domingo.

As imagens disponíveis são de arrepiar. Para piorar o cenário, há relatos de que as mortes ocorreram após um mês de ameaças constantes a moradores. O resultado foi uma trágica operação, realizada por uma polícia que não está preparada para atuar em sociedades complexas.

O massacre de Paraisópolis foi mais uma tragédia causada por policiais mal treinados e mal pagos. Armados por um Estado excludente que vê o jovem negro de periferia como inimigo a ser abatido.

Crianças são abatidas a tiros de fuzil. Homens, mulheres, jovens são encurralados e abatidos pelo Estado que deveria protegê-los.

A Polícia Militar há muito tempo fez a sua escolha: proteger a elite branca que a alimenta e a legitima. As periferias brasileiras se tornaram campos de morte nas mãos dos cães de guerra de um império racista e desigual.

É preciso extinguir a Polícia Militar, passar uma régua e começar de novo, em um contexto civil, com outros propósitos. E principalmente com uma formação humanista. Precisamos de uma força pública a serviço da sociedade e não da minoria que reside nos bairros ricos.

Um policial tão pobre como uma criança pobre, mas armado. Um policial desamparado de humanidade. Em uma favela pobre e insegura. Esse policial não puxa o gatilho sozinho. Há uma estrutura por trás. Quem puxa o gatilho da Polícia Militar está protegido em condomínios guardados por esses mesmos policiais, à serviço do Estado ou fazendo bicos por fora.

A Polícia Militar é uma instituição, em alguns casos, assassina. Precisa ser contida, desarmada e desmobilizada.

Os policiais precisam passar por tratamento psicológico e serem alocados em atividades que evitem que troquem a farda pela roupa paisana da milícia que cresce a cada dia, protegida pela mesma polícia que a deveria combater, mas que é sangue do mesmo sangue, carne da mesma carne.


Nunca a polícia matou tanto quanto em 2019, desde que foi criada.


O Rio de Janeiro precisou apenas de 8 meses, de janeiro a agosto, para bater o recorde de mortes por policiais. Na cidade de São Paulo, policiais são responsáveis por uma em cada três mortes violentas.

Em apenas seis meses, policiais mataram quase 3 mil pessoas no Brasil. É uma guerra que ao final deste ano terá exterminado mais de 5 mil vidas. Sem contar as mortes entre os próprios policiais, na sua maioria mortos fora de serviço, fazendo bicos.

Segundo Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), o aumento das mortes por policiais é consequência do discurso de guerra ao crime e das propagandas populistas de alguns novos governos do Brasil.

“Segue muito preocupante o discurso dos governos campeões de homicídios, que tentam enganar a população ao associar a violência policial com uma suposta eficiência ou produtividade da instituição”, escreveu ele, que é pesquisador do NEV-USP.

Em 2012, o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas já recomendava a extinção da Polícia Militar brasileira, que em muitos casos atua como verdadeiro esquadrão da morte.

A PM é uma aberração que tomou corpo durante a ditadura militar, quando foi consolidado seu papel como responsável pelo policiamento urbano. É uma aberração porque Polícia Militar, em quase todo o mundo, é uma força que exerce papel de polícia dentro das Forças Armadas e não nas ruas.

A Polícia Militar precisa ser desmilitarizada, extinta, substituída por uma força pública modernizada e condizente com o Estado de Direito.

Edição: Rodrigo Chagas