América Latina

Por que o Estado e as elites econômicas da Colômbia não respeitam o acordo de paz

Dossiê levanta as causas do conflito e identifica elementos que limitam o fim da violência no país sul-americano

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Ivan Duque, presidente da Colômbia desde 2018 / Marco Miranda / Presidencia de la República

Em consonância com outros países da região, a Colômbia passa por uma onda de protestos massivos. Uma das reivindicações dos manifestantes é o respeito aos termos do acordo de paz entre o Estado e organizações políticas que, no século passado, optaram pela via armada. 

Celebrado mundialmente, o acordo de paz, fruto de negociações em Havana, Cuba, é visto de forma mais complexa por ativistas colombianos, cuja visão é refletida no dossiê nº 23 do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, intitulado “Neoliberalismo, paz e mudanças políticas na Colômbia”

“As forças da extrema direita ligadas ao modelo econômico dominante de financeirização permanecem comprometidas em sustentar a guerra como um cenário vantajoso para seus interesses econômicos e sua perpetuação política”, diz o documento em sua introdução. 

Laura Capote, integrante da Secretaria de Formação da Alba Movimentos e militante da Equipe Internacional da Marcha Patriótica, explica que o acordo de paz – “uma solução política, não violenta” – era uma demanda dos movimentos sociais colombianos. Sua conquista, entretanto, não era vista como uma resolução das contradições sociais no país, mas a abertura de uma possibilidade para uma nova etapa da luta política. 

Nesse sentido, diz Capote, a própria implementação dos termos formais do acordo se tornou objeto de uma disputa política. 

:: Defesa do acordo de paz mobiliza colombianos ::

Raízes

O encerramento do conflito armado representaria uma tentativa de resolução das causas que levam à violência. Capote afirma que, historicamente, a violência armada foi parte da formação social colombiana.

"A causa principal é a propriedade da terra. Essa forma de acumulação, através do espólio, adotada pelas classes dominantes colombianas desde o início de século 20, impactou profundamente o campesinato”, defende. Ela explica que, antes da existência do conflito armado, principalmente nos anos que antecederam 1948, se desenvolveram os elementos do embate social colombiano.

Na história do país, o reflexo político desse processo socioeconômico foi a violência de Estado, que “não só não garante o acesso à terra, mas criminaliza e veta a participação política das classes populares”. A via encontrada seria a guerrilha, um “mecanismo para resolver os problemas que originaram”. 

Através da identificação de um “inimigo interno”, a guerra se torna uma justificativa, para as elites, na contínua adoção de políticas antipopulares: “O Estado necessita do conflito”, resume Capote.

Geopolítica

Javier Calderon, mestre em Sociologia pela Universidade Nacional da Colômbia e doutorando em Ciências Sociais na Universidade de Buenos Aires, lembra que a dinâmica conflituosa na Colômbia deve ser entendida também à luz das relações internacionais. A posição estratégica na América do Sul – com acesso ao Pacífico e ao Caribe, além de fronteiras com diversos países – sempre fez da Colômbia um território-chave na região. Esse elemento criou um contexto favorável a uma estável e íntima relação entre a elite do país e os EUA.

O “setor tradicional que não quer perder seus privilégios e que é apoiado pelos EUA”, afirma, é um dos componentes políticos que limitam a resolução das contradições sociais que permitem a emergência e continuidade da violência na Colômbia – inclusive, com o surgimento de novos elementos que dificultam ainda mais a paz.

“A Colômbia, desde o início da OEA, ocupou um papel de principal aliado dos EUA. E segue sendo. Temos que ter em conta a 'guerra contra as drogas'. Os EUA insistem que é preciso tratar essa questão através da criminalização e punição ao camponês que cultiva a folha de coca”, diz.

A política dos EUA para o combate às drogas, defende Calderon, jamais focaram nos pontos fundamentais das “cadeias transnacionais” do tráfico, com “os grandes capitais que lucram com o comércio da droga”.

“O governo colombiano, liderado pela extrema direita, age contra o Acordo de Paz. Utiliza mecanismos institucionais e burocráticos para atrasar a implementação dos seis pontos do Acordo e se recusa a dialogar com o ELN. Eles têm medo da paz política porque esta implica desmantelar o sistema de dominação baseado na coerção, repressão e estigmatização do movimento popular”, sintetiza o dossiê do Tricontinental. 

Edição: Julia Chequer