América Latina

Movimentos do Uruguai temem que novo presidente siga os passos do argentino Macri

Integrante do MPP critica Lacalle Pou e afirma que, apesar da derrota, esquerda demonstrou força popular no pleito

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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A diferença entre Luis Lacalle Pou e Daniel Matínez foi de 1% / Foto: Reprodução Instagram

Em entrevista ao Brasil de Fato, Sebastián Vázquez, integrante do Movimiento de Participación Popular (MPP), classifica a vitória de Luis Lacalle Pou (Partido Nacional) para a presidência República da como um “retrocesso” e compara o uruguaio com o argentino Mauricio Macri. "É o mesmo discurso de mudança de melhorar o país. A primeira coisa que disseminou em sua campanha foi o corte de gastos do Estado, algo muito importante para o pacote neoliberal”, afirmou. O presidente eleito também teria aproximações com partidos ligados a militares.

Lacalle Pou, teve sua vitória confirmada pelos órgãos eleitorais na última sexta-feira (29), depois de passar por um pleito apertado com o seu adversário Daniel Martínez: cerca de 1% de vantagem. Dada a pequena margem, o anúncio chegou a ser adiado por quatro dias. O Partido Nacional – também conhecido como Partido Branco – abriga políticos de direita, ao contrário da Frente Ampla (FA), de esquerda.

Assim como em toda a América Latina e outras regiões do mundo, foi uma disputa entre posições político-ideológicas frontalmente divergentes. Demonstrando estar aberto para um clima amistoso, entretanto, Martínez, aceitou a derrota e já anunciou um encontro entre os dois.

Sob o governo Macri, a Argentina viu o recrudescimento da recessão econômica. Segundo o Instituto Nacional de Estadística y Censos de Argentina (INDEC), durante o período, a dívida externa cresceu 75 bilhões de dólares (cerca de 300 bilhões de reais), a inflação ficou acima de 55%, cerca de 35% da população sucumbiu à pobreza e os salários e benefícios previdenciários sofreram um reajuste de 35%. No Chile, apesar dos índices econômicos expressivos, a desigualdade e a falta de acesso a direitos básicos, como saúde e educação, levaram a população chilena às ruas, nos últimos meses. 



Daniel Matínez, da Frente Ampla, aceitou a derrota e anunciou um encontro amistoso com o vencedor Lacalle Pou (Foto: Reprodução Twitter).

Aliança entre os partidos de direita

Diante da derrota da Frente Ampla, Vázquez acredita que é importante fazer uma análise a respeito dos equívocos da esquerda. "Essa foi uma das eleições mais difíceis dos últimos anos, e por diversas coisas pelas quais estávamos passando, entendemos que podíamos ganhar, mas isso não aconteceu. Alguns erros foram cometidos”, disse ao Brasil de Fato.

Ainda assim, para ele, o cenário não é tão pessimista. Ao fim da campanha, ele concluiu que houve um “grande força popular”, sobretudo de uma militância nova, que não era tão atuante, mas entendeu que “o país está polarizado entre dois projetos”. “Acreditamos que a campanha, para a FA, foi muito boa, porque militou muito mais gente do que em todos os demais meses e tivemos um resultado bem apertado”, analisa. 

O quadro atual pode ser resumido na seguinte configuração: a direita se conformou em uma maioria parlamentar com cinco partidos. Sozinha, nenhuma sigla tem a expressividade da Frente Ampla, com mais cadeiras, entre 42 e 50 legisladores. “O que aconteceu no segundo turno é que todos os partidos da direita fizeram uma aliança em torno de um candidato que havia passado para o segundo turno com 28% dos votos, o Lacalle Pou.”

A diferença de votos entre os dois candidatos no segundo turno – de 1% – mostra que, apesar de aliança da direita ter garantido um grande número de votos, a FA também teve abrangência expressiva. Para Vázquez, “a primeira diferença se vê quando a FA cresceu 10% sem fazer nenhuma aliança”. No segundo turno, no entanto, as pessoas “foram votar em um projeto que se contrapunha a outro, no qual o outro lhes parecia pior. O resultado é essa diferença”.

Sobre as relações exteriores, o integrante do Movimiento de Participación Popular acredita que a direita irá alinhar o país às direitas, estão em ascensão no restante da América do Sul – como no Paraguai, Chile e Colômbia. “A conformação da aliança política inclui o objetivo de tirar a esquerda dos governos e impor as piores práticas da direita”, conclui.

Edição: Julia Chequer