São Paulo

Corregedoria contradiz PM e confirma abordagem policial onde jovem sumiu em Jundiaí

Corporação disse ‘não ter conhecimento’ de ação no bairro onde Carlos Eduardo sumiu, mas Corregedoria confirma abordagem

Responsável por investigar irregularidades, Corregedoria confirmou viatura e PMs que rondaram área em que Carlos Eduardo sumiu / Foto: Divulgação/SSP

A Corregedoria da Polícia Militar identificou uma viatura responsável pela ronda do bairro Jardim São Camilo, periferia de Jundiaí, cidade na Grande São Paulo, no dia 29 de dezembro de 2019, data do desaparecimento do jovem Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20 anos. Segundo testemunhas, policiais o colocaram na viatura após abordagem e ele não foi visto depois disso.

Inicialmente, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) do Estado de São Paulo, chefiada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), explicou à Ponte que a PM “não tem conhecimento de nenhum fato envolvendo policiais militares na localidade”, em posicionamento enviado às 15h46 do dia 2 de janeiro de 2020.

Nesta quinta-feira (2/1), a Corregedoria esteve no local em busca de informações sobre o desaparecimento. Carlos Eduardo estava em um bar na favela existente no local junto de outros quatro amigos quando os policiais teriam chegado, abordado o grupo e levado somente ele na viatura. O jovem era o único negro do grupo.

De acordo com o coronel Marcelino Fernandes, que comanda a Corregedoria da PM paulista, a investigação busca depoimento de testemunhas, mas afirmou que já há a confirmação da viatura e dos policiais responsáveis pelo policiamento no setor que inclui o bairro no dia 29.

Carlos Eduardo tem 20 anos, trabalha como ajudante de caminhão e pintor | Foto: Arquivo pessoal

“Houve uma abordagem em um bar e foi lançada em relatório alguns abordados, vamos atrás destas testemunhas. A VTR [viatura] bate e eles [policiais] falam de abordagens”, detalha. No entanto, o nome de Carlos Eduardo não consta no documento oficial sobre as pessoas enquadradas pelos PMs no dia 29 de dezembro.

Em nota enviada no dia 2 de janeiro através de sua assessoria de imprensa terceirizada, a InPress, a SSP assegurou que “qualquer informação que chegue a respeito será imediatamente apurada”. Questionada após a confirmação de que uma viatura da PM esteve no Jardim São Camilo e abordou pessoas em um bar, SSP e InPress explicaram que a “Polícia Militar instaurou Inquérito Policial Militar pelo Batalhão da Área para apurar o ocorrido”. “As fotos e qualquer outra informação que chegar serão enviadas à autoridade que preside o IPM (Inquérito Policial Militar) para análise”, assegurou.

Pai do jovem, Eduardo Aparecido do Nascimento, 50 anos, prestou depoimento na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Jundiaí também no dia 2 de janeiro, seis dias depois do desaparecimento. Esta é a delegacia responsável pela apuração feita na Polícia Civil. Até aquele momento, nenhum órgão público o ajudou nas buscas pelo filho, apenas parentes e amigos. Eles permaneceram de sábado até as 20h de quarta-feira, ano novo, em uma mata buscando indícios de Carlos Eduardo.

De acordo com o pai, que atua como segurança em uma universidade da cidade, foi feito B.O. (Boletim de Ocorrência) na delegacia. Os policiais pegaram o número de celular do jovem para rastrear a localização no último sinal captado por antenas.

“Eles disseram que a Corregedoria já estava em cima, que esteve em Jundiaí para investigar o caso. Mas não falaram quando eles [Polícia Civil] vão ao local, iriam começar a fazer hoje”, prossegue Eduardo. O pai explicou que nenhum dos amigos do jovem o acompanhou na delegacia por medo de sofrer algum tipo de represália.

Rua em que o jovem estava quando foi abordado e desapareceu, segundo testemunhas | Foto: Google Street View

Carlos Eduardo estava desempregado, ganhava a vida com bicos de pintor e ajudante de caminhão, o que rendia entre R$ 300 e R$ 400 por semana. A expectativa era de terminar os estudos do terceiro ano do ensino médio em 2020 para, depois, começar estudos na universidade que o pai trabalha.

“Como trabalhamos, temos uma bolsa gratuita. Ele ainda não tinha escolhido o curso.. Ia atrás dele terminar o terceiro ano e ia dar uma bolsa na faculdade, mas… espero que ainda dê tempo”, desabafa o segurança, que trabalha há cinco anos no local.

Edição: Ponte Jornalismo