TECNOLOGIA

Aplicativo "Cataki" aumenta renda de catadores de materiais recicláveis

Dispositivo mapeia as áreas de atuação dos trabalhadores e oferece contato mais próximo para os geradores de resíduos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Rodrigue Lucena, catador em São Paulo, comemora sucesso do dispositivo
Rodrigue Lucena, catador em São Paulo, comemora sucesso do dispositivo - Foto: Lu Sudré/Brasil de Fato

Disponível para os sistemas Android e iOS, o aplicativo Cataki surgiu com o objetivo de potencializar o trabalho de catadores de materiais recicláveis que circulam em todo o país. De forma inédita, a plataforma idealizada pelo projeto Pimp My Carroça conecta esses trabalhadores diretamente com os geradores dos resíduos, facilitando o processo de reciclagem. 

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Com 4,7 mil catadores inscritos e espalhados em mais de 500 cidades brasileiras, o app utiliza a localização dos celulares e mapeia os catadores que estão mais próximos das pessoas que desejam descartar algum material.

Após a instalação do Cataki, o usuário e o catador podem fazer contato direto por meio da disponibilização telefone, além de um perfil com foto e dados do trabalhador.

O aplicativo também detalha qual tipo de material é recolhido por cada catador, por exemplo, papel, alumínio, metal, baterias, produtos eletrônicos, móveis, entulhos e outros. Depois do contato inicial, o cliente e o profissional combinam o valor que será pago pelo serviço.

Levantamento feito por uma consultoria contratada pelo Pimp My Carroça, apontou um crescimento na renda mensal de 54,5% dos catadores não motorizados, ou seja, que usam a carroça para recolher os materiais recicláveis e demais entulhos. A média de aumento foi de 82,6%.

Entre os catadores que utilizam veículos motorizados, 64,7% também declaram aumento da renda.

Aplicativo Cataki mostra catadores de material reciclável que estão ao seu entorno (Foto: Lu Sudré/Brasil de Fato)

O catador Rodrigue Lucena de Souza, que circula pelas ruas de São Paulo com uma carroça grafitada, está contente com o resultado do aplicativo.

“O Pimp My Carroça e o Cataki melhoraram 100% a vida dos catadores de São Paulo. Os clientes passaram a ter mais noção do trabalho com material de resíduos na cidade. Através do aplicativo, fica mais fácil do cliente chamar o catador”, diz Lucena. 

Ele critica o fato da sociedade, no geral, não considerar o trabalho em reciclagem uma profissão. Segundo o catador, muitas pessoas se recusam a pagar o serviço prestado por considerá-lo uma doação daqueles que produziram os resíduos.

“Que diferença tem de um catador para uma empresa? Nenhuma. Somos pessoas que fazem parte de um ambiente que muitos não querem fazer. Se o lixo é seu, por que o catador tem que assumir? Ele está fazendo uma prestação de serviço. Porque não podemos ser reconhecidos enquanto profissão?”, questiona Lucena.

Consumo e descarte conscientes

Elissa Fichtler, representante de relacionamento institucional do Pimp My Carroça, afirma que grande parte das cidades brasileiras não conta com um sistema público de coleta seletiva, e, por isso, é importante reconhecer os catadores como prestadores de serviço e valorizar esse trabalho.

A profissional defende a urgência de uma conscientização coletiva sobre a importância da reciclagem. "Nós vemos esse trabalho como uma função de outros e não nossa. Mas todos nós somos responsáveis pela geração de resíduos. Temos que fazer o descarte adequado e mudar a forma que consumimos”, sugere.

Fichtler destaca ainda que os catadores são os pioneiros na implementação do consumo e do descarte consciente, que respeite o meio ambiente.

"É um convite para a sociedade assumir esse papel que é nosso, de fazer o descarte adequado dos resíduos, e aproveitar também para fazer a inclusão desses prestadores de serviço que faziam sustentabilidade muito antes de ser um tema que estava na moda. Os catadores fazem, na prática, o que muitas empresas falam na teoria”.

De acordo com Rodrigue Lucena, quanto mais catadores estiverem no aplicativo, melhor. Muitas vezes a distância que deve ser percorrida para chegar ao local de retirada do material é tanta, que não compensa o ganho financeiro -- principalmente no caso dos carroceiros. 

“Se tiver um catador conhecido na área que não está aplicativo, você pode cadastrar ele e colocar o material que ele recicla. Através disso, você consegue abrir mais mercado pro catador que não tem conhecimento [do Cataki]”, ressalta. 

Pimp My Carroça

Inspirado no nome do programa de televisão norte-americano chamado Pimp My Ride, onde se restauravam automóveis em péssimas condições, o Pimp My Carroça transforma a vida dos carroceiros e dos seus principais instrumentos de trabalho. Na versão brasileira, os equipamentos ganham pinturas personalizadas, grafites, instalação de itens de segurança e aparelhos de som.

Edição: Rodrigo Chagas