Março das mulheres

“Nós somos o corpo coisificado, o corpo fetiche”, constata a trans Helena Meireles

Após ressignificação de seu ser, Helena luta contra o preconceito, o medo e as ameaças e busca no coletivo a sua força

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) |
Afeto, entendimento, o apoderamento das origens e o coletivo Quilombelas são suas armas para mudar realidade de violência contra pessoas transexuais - Foto: Katia Marko

Helena dançava em um corpo que, no espelho, era refletido de outra forma. Em busca de uma aceitação e valorização desse corpo já existente, Helena lutou por sua existência. Cresceu em uma família negra, com todas as questões que isso implica. A suposta virilidade do homem negro, o sustento do pai e o olhar sempre atento da mãe. Ela gostava de brincar com bonecas, mas como não as tinha, desconstruía seus playmobils e dava uma cara feminina. Na ausência de ter bonecas para brincar, transformava os soldadinhos numa versão mais aproximada do seu desejo.

Após a ressignificação dessa existência no mundo, hoje, Helena luta contra o preconceito, o medo, as ameaças. Não está imune à violência crescente, permitida e estimulada pelo contexto político atual, em que o Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas transexuais. Por meio do amor, do afeto e, principalmente, do seu coletivo, o Quilombelas, Helena Soares Meireles, busca mudar essa realidade. 

“A importância do coletivo [é grande] na construção de uma vida melhor, não só para mim, mas para os meus. E os meus subentende-se pessoas negras, pessoas LGBTQ+, professores, as pessoas que simpatizam com essa causa e que ainda se permitem se vulnerabilizar por esse afeto. E aquelas pessoas que não sentem e se colocam em um outro espaço, em um outro lugar contra tudo isso, ainda assim elas não devem ser rechaçadas, mas, em algum momento, através desse trabalho, se consiga trazer essas pessoas para o nosso lado e não afastá-las cada vez mais”, defende.

Moradora da periferia da capital gaúcha e professora da rede municipal, estar nesse espaço com seu corpo trans é estar incomodando, ajudando, educando e aprendendo muito com ele. “Nós vivemos sob um status de subalternidade, somos o corpo coisificado, o corpo fetiche, e, ao mesmo tempo, aquele corpo que é agredido à luz do dia, aquele corpo que é invisibilizado”, aponta.

Nessa entrevista ao Especial do 8 de Março do Brasil de Fato RS, com um sorriso no rosto, mas não disfarçando a emoção, Helena nos mostrou a força da solidariedade e do afeto e a importância do coletivo na busca de uma vida melhor.

Brasil de Fato RS: Para começar queremos conhecer um pouco da tua vida.

Helena Meireles: Meu nome é Helena Soares Meireles, tenho 42 anos, e sou arte-educadora. Gosto sempre de dizer que sou uma mulher negra e transexual, porque durante muito tempo, em um contexto de invisibilidade eu não sabia o que eu era. E hoje eu entendo que não saber o que eu era, na infância, adolescência e boa parte da minha vida adulta fazia parte desse contexto social no qual eu sempre vivi, que justamente não queria que eu soubesse o que eu era. E que na verdade me tratava como se eu fosse nada. Vivi muito tempo nessa busca de saber o que eu era. Hoje gosto de dizer que sou uma mulher negra, transexual, trabalho na zona sul de Porto Alegre, extremo Sul, Restinga, dou aula em uma escola municipal. Estou lá, com meu corpo trans, incomodando, ajudando, educando e aprendendo muito com eles.

Sou a filha mais velha, até final da adolescência éramos meu irmão e eu, socialmente dois meninos, mamãe e papai. A partir do final da adolescência meu pai, homem negro, tinha um relacionamento fora do casamento, e desse relacionamento teve dois filhos. A mãe dos meninos morreu, e um tempo depois houve uma denúncia de que eles, talvez, estivessem sendo agredidos por um cunhado. O meu pai teve que assumi-los e veio toda a história à tona, e passamos a ser quatro irmãos. Hoje eles têm 20 e 21 anos, respectivamente. Está tudo tranquilo, mas naquela época foi bem complicado.

Minha mãe é dona de casa, trabalhou até o início da primeira gravidez, a minha, e após isso, por vontade do meu pai, acabou largando o emprego para cuidar dos filhos. Meu pai era eletricista, faleceu em 2017. Trabalhava na CEEE, e no final da década de 1990, com toda aquela situação da empresa vir a ser privatizada, ele se aposentou.

Nasci no Hospital Vila Nova, zona sul de Porto Alegre, e sempre morei no extremo sul de Porto Alegre, entre a Juca Batista, Restinga, Belém Novo. Ali eu fiz minha vida.

Em que momento tu te descobriste mulher?

Como falei, durante muito tempo da minha vida eu não sabia o que eu era. A partir de um determinado momento eu sabia o que eu não era. A imagem e as lembranças que eu tenho da infância era a escola, onde, talvez, tenha sido o primeiro momento em que eu entrei em contato com pessoas diferentes, fora da minha família, e esse contato sempre me mostrava que de alguma forma eu não pertencia aquele grupo.

Durante a infância a questão da raça foi invisibilizada pela questão de gênero, que sempre foi latente, era sempre o que se sobressaltava. Eu passava por questões de racismo e não identificava como tal e sim como questões ligadas à negação das pessoas quanto minha identidade de gênero, mesmo que eu não soubesse que eu era uma transexual. Quando eu apresentava minha feminilidade e tudo que eu trazia com ela, isso sempre me gerava conflitos. Só fui entender que eu sofria racismo quando depois de adulta comecei a me aproximar dessas questões de negritude. Só ai fui entender que eu era atravessada pela questão de gênero, de classe e raça. Muitas vezes eu me peguei falando que eu não sofria racismo, e claro, tudo isso era uma construção ingenua de alguém que  não acessava sua origem, e que vinha muito marcada pela sua questão de gênero. 

Aos 25 anos, clandestinamente, eu comecei a tomar hormônio, muito lentamente. Eu tinha um amigo na época que tomava uma injeção de Perlutan, uma vez por semana, e eu tomava uma a cada dois meses. Mas só com mais de 30 anos foi que eu me descobri enquanto transexual. Já vinha em um processo de hormônio, ainda não me vendo como uma mulher transexual, mas visualmente já não tendo mais uma figura masculina. E isso gerava muitas situações na rua, como, por exemplo, das pessoas perguntarem meu nome, e eu dizer o nome que meu pai me deu, Heleno. E as pessoas ficavam esperando, e dizendo algo como, mas não tem outro nome? Não tem um nome de mulher? Eu dizia, não, não sou mulher.


"A partir de um determinado momento eu sabia o que eu não era" / Foto: Katia Marko

Para o olhar do outro eu já passava uma outra imagem. Teve uma ocasião que isso foi percebido em uma situação de banheiro. Aconteceu em uma casa noturna, um lugar que sempre adorei ir, pois adoro samba e ía com amigos. Estava nesse processo visualmente muito feminina, e fui ao banheiro, um banheiro masculino. Na época os banheiros eram abertos. Entrei no banheiro e fui fazer xixi, banheiro vazio, e eu tinha cabelo bem comprido, usava megahair, parecendo uma índia. Bem, estava fazendo xixi de pé, e para minha tristeza, naquela noite, eu comecei a ouvir um barulho, vozes de homens se aproximando, aí eles entraram no banheiro. Quando eles entraram, eu estava em uma parte fechada, mas que dava para ver meus cabelos, parte das minhas pernas, e ouvi quando um deles disse assim: “Meu, tem uma mulher no banheiro”, e eu fui olhar para os lados, e de repente ele deu um grito, “e ela está mixando de pé”. Quando ele falou isso eu me dei conta que estava falando de mim. Foi a primeira vez que tive medo, porque eu olhei para trás e tinham sete, oito ‘caras’ dentro do banheiro e eu. Sai no meio deles, e ali nunca mais entrei.

Meses depois voltei nesse local, tentei usar o banheiro feminino e não me deixaram, tive que sair de lá, na época tinha um posto na frente, tentei entrar, mas não pude, aquilo me traumatizou.

Em janeiro desse voltei ao local para um evento. Na ocasião fui uma das primeiras a chegar, eu estava passando e ouvi um rapaz me chamar, fui até ele. A primeira coisa que ele disse foi: “Por que tu nunca mais veio aqui?” Sorri, olhei para ele, mas não sabia quem era, e disse: “Coisas da vida, minha vida mudou para outros lados e eu nunca mais vim”. Ele disse quem explicou que naquela época ele frequentava junto com o pai, e lembrou de quando eu ia lá. Lembrou das brincadeiras que o pai fazia, brincadeiras que não eram legais, dizendo coisas ao microfone que me deixavam muito constrangida. Ele lembrou, começou a chorar e aquilo me desmontou, dei um abraço nele, e ele disse que eu era bem vinda.

O mundo dá voltas, depois de anos eu voltando naquele lugar onde um dia não me deixaram usar o banheiro, voltando em um outro contexto, sendo uma pessoa “importante” naquele momento, fiquei muito feliz.

Eu me descobri como uma mulher transexual foi quando consegui acessar que eu não era uma mulher comum,  não era uma mulher geneticamente nascida como tal, mas o que eu era uma mulher transexual. O tempo todo sempre a questão da transexualidade veio acoplada ao ser mulher. E claro,  durante algum tempo isso me gerou muito incômodo porque eu queria ter a passabilidade de uma mulher comum, geneticamente nascida mulher. Porém, quando eu entendi que a minha potência era ser uma mulher transexual, a partir daí isso ganha peso positivo no meu discurso, na minha fala. Acredito que eu não tenha me descoberto mulher, eu me descobri uma espécie de mulher, um tipo de mulher, uma mulher transexual e desde então vem descobrindo as potências de ser uma mulher transexual

Como foi a reação da tua família?

Hoje em dia vejo esse processo muito mais a partir de mim. A minha família respondeu muito conforme os meus movimentos. E o meu movimento foi sempre de não mostrar, porque na minha cabeça não podia, não era possível, dentro do contexto que eu vivia, de uma família negra, com pai negro, com uma questão forte da sexualidade, dessa suposta virilidade do homem negro. Eu entendo muito disso, no sentido do quanto um homem negro sofre com essas questões do racismo, de cobranças. Essa questão da virilidade é também uma imposição social desse papel do homem negro. Existe inclusive um movimento dos homens negros de não aceitar isso, essa imposição. 

Meu pai era reflexo disso, mas por falta de conhecimento, da vida se apresentar dessa forma, e ele tendo de se colocar nesse papel. Os homens negros são tão violentados como nós. 

Meu pai tinha um trabalho, adorava samba, passava os finais de semana fora, tinha outra família, e de alguma forma se mostrava em uma situação onde a tendência era que eu reproduzisse isso. Eu via que era natural que um dia eu fosse reproduzir aquilo, eu via o meu irmão fazendo. Acho que em algum momento da minha vida, e eu lembro, não sei porque, mas tenho muito marcado, na quinta série, foi onde me deu um clique que eu ia ter que me esforçar muito para conseguir mudar aquela minha realidade.

E aquela mudança estava muito ligada a fazer uma faculdade, que era algo que meu pai sempre falava muito, queria que um dos filhos fizesse. Eu peguei aquilo para mim como uma forma de satisfazer minha família, mas ao mesmo tempo aquilo iria me tirar dali para que eu pudesse viver algo que eu nem sabia o que era. Quando eu consegui bem tardiamente sair de casa foi que dei passos bem maiores em relação a minha sexualidade. E sempre achando que a minha família não sabia.

Mas havia a própria questão da infância, onde sempre fui muito cobrada. Sempre gostei desse universo feminino, e minhas lembranças são da minha mãe me podando. Lembro que eu tinha brinquedos masculinos, eu ganhava bonequinhos playmobil, e eu queria boneca. Aí eu encontrava formas de transformar os meus bonecos, os meus brinquedos masculinos em bonecas: eu arrancava a cabeça do playmobil e botava linha para fazer cabelo comprido e aquilo virava as minhas bonecas. Lembro que eu tinha um saquinho de plástico, onde eu andava com quatro, cinco playmobil, um pente ou uma escova, e um novelo de linha, e brincava de cortar cabelo. Depois, na vida adulta eu me tornei cabeleireira, mas não exerço a profissão. Mas voltando, eu adorava cortar o cabelo deles, dava nome feminino. Então meus playmobil foram as minhas primeiras mulheres transexuais, porque eu literalmente transformei eles em elas.

E a minha mãe quando pegava, jogava fora. Meu pai, como era mais ausente em casa, e aí vem muito essa questão do afeto do homem negro, que para ele estava muito ligado ao prover à família, e não necessariamente dar carinho, amor e participar do cotidiano. Ele sempre chegava muito tarde, e essas questões das minhas vivências, do meu universo feminino, ele não acompanhava muito, e deixava, acho que meio propositalmente, para minha mãe. E a mulher, coitada, leva mais essa responsabilidade, teu filho é assim porque tu não soube educar.

Com o falecimento do meu pai, meus irmãos ficaram espalhados, os dois filhos mais novos do meu pai já não moram mais conosco. Eu acabei voltando para casa, e hoje moramos minha mãe, meu irmão e eu.

Três anos após o falecimento dele, digo que sou muito grata a ele por tudo que vivi, lamento muito que só agora tenha esse entendimento, do quanto ele era uma pessoa que precisava de afeto também, tanto quanto eu. Essas são as "drogas" que o racismo faz com a gente, pessoas negras, de muitas vezes em um passado vê-lo como um inimigo. Ele precisava, assim como eu, de cuidado. Ele faz muita falta dentro de casa enquanto aquela figura de referência da família.  Lamento muito de não ter conseguido ter uma aproximação maior do meu pai, mas ao mesmo tempo fico tranquila porque nos últimos meses de vida estava perto dele. 

Em uma relação que envolvam famílias negras eu sempre tento passar isso, falar sobre isso. A minha transição fez com que toda minha família transicionasse, e acho que é assim sempre em uma família onde existe uma pessoa trans. Toda a família faz a transição, todas as pessoas ao seu redor. Isso é muito complexo, complicado, delicado, exige sensibilidade, paciência e cuidado grande de todas as pessoas envolvidas. É preciso que as pessoas repensem suas relações, seja em casa, no trabalho com o fato de ser transexual. Temos uma responsabilidade muito grande de ajudar essas pessoas. 

Não somos nós que estamos doentes por sermos transexuais, é a sociedade que está doente por estar mergulhada em um orgulho, num ranço, numa heteronormatização, cis, ocidental, machista, branca. E somos frutos e reflexos disso, e temos que estar atentos a isso enquanto pessoas trans, porque se não, fatalmente caímos nesse engodo de que o mundo está contra nós. Existem muitas pessoas contra nós, como a gente vê, por exemplo, em palestras que estão tentando disseminar, falando de epidemia transgênero, sobre as negativas que temos sobre nossos corpos. Mas não é a totalidade da sociedade, isso é uma parte da sociedade.

O que eu quero é mobilizar a outra parte da sociedade para se mostrar, para, como diz a ialorixa Sandrali Bueno, em relação da branquitude ser escudo dos negros, é esse movimento, é mobilizar essa população que necessariamente que não é LGBTQ+ se sensibilizem, e se coloquem como escudos, enquanto pessoas que tem esse privilégio cis, hétero normativo e branco de viver em uma sociedade, de ter oportunidade, de ter direito a uma escola, de poder ter uma sequência de vida.

Uma pessoa trans muitas vezes não consegue ter essa sequencia de vida, muitas vezes ela não consegue frequentar a escola porque é expulsa, ela não se enxerga nessa escola. Tudo isso é muito triste, muito grave, muito forte. E é preciso que as pessoas que tenham possibilidade dessas oportunidades se coloquem juntos conosco para lutar contra essa onda. Além de nos respeitar, nos ajudem a nos apoderar dos espaços e mostrar que ninguém corre nenhum risco por estarmos na sociedade. Gênero não tem nenhuma relação com caráter. Minha filosofia enquanto educadora é sempre pautar pela humanidade das pessoas. 

Quando tu voltas, já é como Helena?

Quando eu voltei para casa havia toda uma vida de invisibilidade, quando me descobri tive muita certeza, mas para a família eu não conseguia abrir, a não ser para minha mãe, ela foi a única pessoa que eu contei, acho que um ano antes de fazer a cirurgia. Quando eu saí de casa foi na época que coincidiu com a minha entrada na prefeitura, e veio também a mudança de bairro, isso em abril de 2011. E foi também quando me descobri, tive a certeza que eu era uma mulher transexual.

Nesse mesmo início de ano, 2011, eu nunca esqueço, dia 7 de abril, uma colega minha, enquanto eu estava dando aula para uma turma do ensino médio, entrou e me mostrou o jornal onde constava meu nome, aprovada para dar aula pela prefeitura de Porto Alegre. Eu já era contratada do Estado por quase 10 anos. E ali, coincidiu com minha entrada no Hospital das Clínicas, quando numa conversa um médico me diagnosticou como uma mulher transexual. E a partir dali foi a forma que eu vi, na minha cabeça, naquele momento, de mudar de vida, ir para um outro lugar, para um outro bairro, onde ninguém me conhecia porque eu já tinha uma vida já toda certinha.

Para mim, quando eu descobri também foi um choque, pensei, o que eu vou fazer com isso agora, com 30 anos, tendo uma vida socialmente construída como um homem, como é que eu vou mudar isso? Principalmente dentro desse lugar que ninguém melhor do que eu sabe que é extremamente conservador, que é a escola. Foi aí que eu disse, vou aproveitar, eu saio daqui, vou para outro lugar. Recebi essa notícia no dia 7 de abril, no dia 27 estava me exonerando do Estado, e no dia 28 de abril, que era uma quinta-feira, se não me engano, estava chegando na escola que eu comecei a dar aula, a Escola Municipal Deputado Victor Issler, no bairro Mario Quintana, chegando já como Helena. Foi literalmente de um dia para o outro. Quando eu cheguei na Secretaria Municipal de Educação (SMED) eu estava com muito medo, se elas iam me tratar como uma mulher. E durante muito tempo, depois que eu descobri a minha transexualidade, esse era um dos meus fantasmas, como eu ia me relacionar com as pessoas, e como elas iriam me tratar.

Hoje eu vejo que isso é muito comum, eu tenho contato com outras meninas trans, e ouço relato delas através de um grupo da rede social, e me identifico muito com o momento passado da minha vida, esse medo latente de me relacionar com qualquer pessoa justamente porque eu ficava sempre nessa dependência: será que vai me tratar como ele ou como ela. E tinha a questão da documentação, tudo isso era muito complicado. E hoje eu vejo como para elas é pesado, faz parte.


"Depois que eu descobri a minha transexualidade, esse era um dos meus fantasmas, como eu ia me relacionar com as pessoas, e como elas iriam me tratar" / Foto: Katia Marko

Contastes com ajuda no teu processo de superação?

Na verdade eu sou bem teimosa. Essa questão de uma ajuda, o meu povo, e quando eu falo meu povo, estou falando do povo negro, é fruto de um processo de adoecimento, mental principalmente, que é fruto de todo esse processo de escravização no qual o Brasil se formou. Eu demorei praticamente 30 anos para entender isso, para acessar isso. Até entrar no Clínicas, na minha família se falasse em terapia, em psicóloga, vinha a reação: “Bem capaz, no mínimo isso é coisa de veado, é coisa de gente fraca, é coisa de mulher”. Nunca se falou nisso, a coisa ia no se vira nos 30, e eu acho que hoje ainda é muito assim, se pensar na periferia, nas famílias de periferia que não tem acesso.

Durante os dois anos e oito meses que eu passei pelo Hospital de Clínicas houve um grande número de meninas negras e nenhum momento eu vi elas ou eu ter acesso a uma discussão que tomasse como pauta a questão da racialização, o fato de sermos mulheres trans negras. Essa é uma outra busca de que seja considerado, somos corpos específicos como qualquer outro corpo, temos as nossas subjetividades. É preciso que se considere toda uma questão ancestral, espiritual, e que faz com que se tenha certos pontos se quer sejam abordadas pela equipe médica.

Bem, no Clínicas fiz parte do grupo, e no último ano, quando estava prestes a fazer a cirurgia, foi o ano que eu pirei, que eu brigava até com as paredes, aí eu pedi ajuda e a psicóloga me direcionou para um psiquiatra maravilhoso inclusive, e foi ele que me ajudou nesse processo, nessa reta final. O que acontece, e acho que isso é bem comum com as meninas que passam pelo processo da cirurgia, é o de se sentir uma mulher maravilha. Fiz a cirurgia em outubro de 2013, e até janeiro de 2014 fiquei em casa, afastada da escola.

Quando eu voltei estava me achando a mulher mais poderosa do mundo, e de alguma forma me dei alta. O médico estava saindo do Clínicas, eu não quis acompanhá-lo e preferi ficar, mas não por muito tempo. Como na verdade eu não estava mais afim de participar do grupo, porque na minha cabeça, como libriana teimosa que sou, com ascendente em escorpião, e lua em áries, um azedume total, decidi não, não quero mais. Fui a dois encontros, foi muito ruim também porque acabei perdendo vínculo, mas naquela época achava que estava tudo bem, mas não, estava só no início de um outro processo. A partir daí, digamos assim, que eu considerei uma parte da minha vida resolvida, mas desconsiderei que eu tinha infinitas outras questões que não eram resolvidas, e elas vieram à tona. Hoje digo: Não façam isso! Não façam o que fiz.

Os anos 2015/16 foram marcados por um período bem difícil na minha vida, um período de depressão bem complicado. E foi no meio disso que surgiu a religiosidade, sou uma mulher de terreiro. E foi quando eu entrei de fato para a religião, isso me segurou para aguentar muitas das coisas que eu passei.

Quando falamos de mulher trans, há ainda toda uma questão de preconceito, de violência, estamos no país que mais mata trans e travestis, tu chegaste a sofrer algum caso de violência física?

A vida de uma mulher trans... nós vivemos sob um status de subalternidade, somos o corpo coisificado, o corpo fetiche, e ao mesmo tempo aquele corpo que é agredido à luz do dia, aquele corpo que é invisibilizado. A minha vida inteira é uma vida de violência. Pensando em uma violência física, de terem me batido, depois de ter assumido minha transexualidade, aconteceu uma vez, na última greve que o município fez. Na ocasião a Brigada Militar tentava impedir que os professores participassem de uma plenária, e um grupo de professores foi atacado, e eu fui covardemente agredida por uma força policial com spray de pimenta no meu rosto. Foi muito desesperador, eu não estava fazendo nada a não ser fazer valer meu direito de assistir sobre a decisão que seria tomada sobre minha vida profissional enquanto professora. 

Antes da minha transição em 2011, também fui atacada verbalmente por um pai e ele só não atentou contra mim porque foi segurado, ele gritava dizendo que uma pessoa como eu não deveria estar em um local como a escola porque eu era um mal exemplo para crianças e adolescentes. 

Há momentos tensos sim. Hoje em dia, principalmente em função do contexto político que vivemos, onde temos um governo que se mostra completamente homofóbico, transfóbico, que de alguma forma tenta apagar essas ditas minorias, que não o são, que passa por um processo de educação, que envolve isso também, eu tenho medo de estar na rua em determinadas situações.

Minha vida inteira passei por violências, principalmente psicológicas, e por ameaças. Mas vou te dizer que há algum tempo, dois, três anos atrás, eu não tinha tanto medo porque de alguma forma me sentia mais protegida, e atualmente não me sinto protegida nem por quem deveria me proteger.

Em janeiro fui para praia com a minha mãe, e lá, à noite, fiquei sabendo do assassinato de outra menina trans, e aquilo mexeu muito comigo. Lembro que à noite eu não consegui sair, e quando sai me peguei muitas vezes observando as pessoas com medo que alguma coisa acontecesse de surpresa. Era um período de carnaval, tinha medo que voasse uma garrafa, ou algo pior.

Porque é isso, o corpo de uma mulher trans para grande parte da sociedade, eu digo grande parte porque hoje em dia essa parte se mostra muito, porque se sente representada, o meu corpo é ao mesmo tempo depósito do fetiche, do gozo, do prazer, e logo depois ele tem que ser apagado porque não pode se tornar o espelho, o reflexo desse ato. Isso faz com que tenhamos essas situações de violência macabras.

Pensando nessa questão da subalternidade ela é inerente a qualquer mulher na sociedade que vivemos. Com relação as mulheres trans ela está ligada diretamente à questão da morte, tirar esses corpos do caminho.

"Pensando nessa questão da subalternidade ela é inerente a qualquer mulher na sociedade que vivemos" / Foto: Katia Marko

As mortes das mulheres trans não são contabilizadas quando se revelam os dados do feminicídio, há uma discussão em torno desse ponto, do desaparecimento desses corpos...

Eu estava olhando esses dias uma pesquisa que a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) publicou. Só nos dois primeiros meses desse ano aumentou 90% o número de mulheres trans e travestis assassinadas.

Isso na verdade está querendo dizer que parte dessa sociedade não quer a gente ali. Uma forma de se lutar contra isso é justamente unindo forças, porque no momento que tu começas a segmentar, se a mulher é trans, se ela é cis, isso fragiliza mais ainda. Claro que não dá para desconsiderar as especificidades de cada uma, mas a luta tem que ser coletiva.

Hoje (7 de março), enquanto estava almoçando, eu vi na TV, se eu não me engano, que só esse ano aumentou cerca de 97% o feminicídio. E muito provavelmente não estão sendo consideradas dentro dessa porcentagem as mortes de mulheres trans. Há uma outra questão sobre isso. Muitas mulheres trans não têm sua identidade de gênero respeitada, muitas quando morrem são colocadas como homem.

Tem outra questão que acho importante mencionar e que tem a ver com saúde pública e que nos envolve. Ainda está previsto para esse mês de março a votação sobre a doação de sangue por pessoas LGBTs. Estamos sendo impedidas de doar sangue justamente porque somos consideradas como homens que fazem sexo com homens, e pensar em pleno século 21 esse tipo de discussão é um absurdo. 

Tu segues alguma corrente feminista? 

Eu me adentrando a essas questões de militância da negritude eu me encontro mais dialogando com o mulherismo afrikana. Uma das pautas do movimento é essa relação do homem negro enquanto  um irmão negro que também é tão violentado quanto as mulheres negras, e que em função disso tem suas subjetividades, suas especifidades. Essa questão do homem  me deu um clique para saber mais sobre o mulherismo afrikana. E depois lendo,  assistindo coisas sobre esse movimento, e de entender que a raça não é desconsiderada para as pessoas negras, para a mulher negra, bem pelo contrário, ela vem como centro das nossas questões, do mulherismo, e um retorno a essa origem africana. 

Hoje temos todo um questionamento da forma de fazer política dentro das organizações de esquerda. Há uma crítica de que elas não trazem a periferia e não falam a língua da periferia. E, ao mesmo tempo, a gente vê vários movimentos surgindo na periferia, como o movimento da juventude no Slam e tantos outros. Como professora na Restinga, como tu enxergas isso?

Durante muito tempo da minha vida eu não pensei em política, para mim era uma coisa muito distante. E foi nessa construção, desde que eu comecei o processo, é que eu tive a primeira experiência com a política, que foi quando eu participei do curso das meninas da Atinuké, no Africanamente. E foi muito conturbado, eu não consegui terminar o curso tamanho foi o meu incômodo. Depois eu fui entender que aquele incômodo era porque eu estava acessando questões que durante a minha vida inteira não tinha acessado. E foi a partir dessa experiência, coincidentemente, que fundamos o coletivo Quilombelas lá na escola.

Esse meu entendimento de política vem muito a partir do coletivo, no sentido enquanto engajamento, enquanto luta pelos ideais que eu acredito, que são ideais coletivos. Politicamente eu não penso só em mim, eu penso em mim, mas penso em toda uma rede, em toda uma comunidade que vem junto comigo. Eu não falo sozinha, eu falo por tudo e  todos que eu represento. A política nesse sentido, do interesse, na preocupação com o outro, essa filosofia Ubuntu, eu sou porque o outro é; minha construção política vem ligada à essa comunhão, essa comunidade a qual eu me vejo, considero representando uma vez que estou em um lugar de um pouco mais de destaque, então tenho que usar isso em prol dessas minhas comunidades.

Hoje há toda uma relação de entender que meu corpo é político, que eu faço política, e de tentar mostrar para aquela comunidade a qual eu pertenço, que o corpo de cada um também é político, que eles fazem política diariamente nas suas relações, eu considero isso muito importante. E acho que isso está sendo percebido e visto por essa outra política que está querendo trazer essa questão de alguma forma. Mas creio que tem que se ter um cuidado muito grande para que a gente não continue mantendo essa estrutura patriarcal, cisgênera, onde o homem é quem decide, ou pior, quem tem o poder, e que fatalmente muitas vezes vai ser essa figura.

Muitas vezes vemos que se quer fazer discussões e que se quer chamar e ter essas vozes (periferia), mas que ao mesmo tempo essas pessoas que chamam essas vozes querem falar por elas. E sempre há o quesito poder, uma estrutura de poder, e que em grande parte, as pessoas não querem se desfazer e se desligar dele porque está ligado a um privilégio, mesmo que isso não seja consciente, acaba acontecendo. Eu vejo muito isso nos lugares pelos quais eu acesso, de alguma forma eu vejo isso na escola também, em uma outra proporção. E eu acho que quando essa galera (periferia) de fato começar a acessar e entender que ali, no que ela faz, tem sim um poder, e esse poder está ligado a possibilidade de mudança que passa muito pelo coletivo, vamos começar a ter outro resultado positivo.


"Há toda uma relação de entender que meu corpo é político e de tentar mostrar para a comunidade a qual eu pertenço que o corpo de cada um também é político" / Foto: Katia Marko

Pensando agora em ti enquanto educadora. Como esse projeto da direita do Escola Sem Partido te atinge na escola?

Eu tenho aproveitado e discutido tudo que eu posso. Acho que para gente ter paz, a luta é inevitável, não conseguiremos ter paz se não fizermos alguns movimentos e nos colocarmos em algumas frentes. Eu entendo hoje que eu, enquanto uma mulher negra, trans, professora, arte-educadora, em uma escola da periferia, da Restinga, um bairro que produz muita coisa, é uma responsabilidade travar algumas lutas, colocar-me dessa forma, e utilizar esse lugar, e que esse uso é mais por uma questão de sobrevivência, do que um privilégio. Eu penso, estou 42 anos, sete anos de bônus pensando que as mulheres trans tem uma expectativa de vida de 35 anos, sou uma sobrevivente, e aí eu tento me utilizar disso.

A minha relação na escola nesse sentido é tranquila. Quando eu cheguei na atual escola os colegas já sabiam porque a minha história foi divulgada em 2013, em uma reportagem feita pela jornalista Larissa Rosso, o que acabou me ajudando muito porque me poupou de ter que explicar muitas coisas para as pessoas, elas leram ali, um trabalho brilhante da Larissa.

E a partir da minha chegada, o contato com as crianças, as do primeiro ano principalmente, era algo com que eu já estava acostumada, os questionamentos vinham, às vezes de uma forma mais agressiva, outras não. Às vezes não vinham como forma de questionamento, mas sim na forma como eles se relacionavam comigo. Eu tive que me despir um pouco de um orgulho, e de um escudo, para também, de alguma forma ajudar, ensinar aquela comunidade como uma pessoa como eu, poderia e deveria ser tratada. Fomos trocando, tanto que dois anos depois, era como se a Helena trans, meio que sumiu dali, era só Helena que vivia ali, que dava aula.

E o que me trouxe de volta para esse lugar foi o coletivo Quilombelas, porque com ele alunos começaram a aparecer, a se mostrar, a pedir ajuda, a se sentirem representados através da minha imagem e aquilo me deu um clique: aquela história que tu dissestes lá na reportagem que a única coisa que tu queria era ter uma vida simples de mulher, não meu bem. Primeiro, a vida de uma mulher nunca vai ser simples, se essa mulher for negra, não, e se essa mulher for trans é um leão a cada 20 minutos. Então assim, esquece.

A gente passa por esse momento de querer esquecer um pouco, de querer experimentar um pouco o que é essa vida dita simples de uma mulher, simples no sentido de não estar sempre sendo apontada como aquela que não é mulher. Isso passou, depois veio o coletivo e com ele a questão da militância, e para mim é importante dizer quem eu sou, às vezes correndo riscos que já aconteceram, nunca fui agredida, como eu disse, mas mentalmente muita violência, e alguns momentos tensos.

Cabe destacar, quando se fala nessa questão de educação, que nossa luta é pela equidade. Assim como pessoas negras e pessoas brancas não partem do mesmo lugar em termos de oportunidade, para pessoas trans não é diferente, e é tão violento quanto. Grande parte da população trans ainda é privada dessas mesmas oportunidades, desse ponto de partida, e que muitas vezes não sai desse ponto de partida, a luta é por uma sociedade mais equânime, e a base está na educação.

Falamos de preconceito, violência, tensão, vamos falar de afetividade, de amor...

[Risos] Olha, não é muito diferente, vem tudo dentro de um pacote. Acho que a sociedade ainda não está preparada para esse tipo de relação. E é engraçado porque até a questão da própria homossexualidade parece algo mais aceitável. Eu não sei te dizer o motivo, mas o que eu vejo, da minha história, sempre que eu converso isso com minhas amigas, que hoje são em grande parte mulheres cis, negras, vem sempre a frase: Não, isso é com todo mundo, tu não és a única. Eu sempre fico pensando, não, é diferente. Um dia eu disse assim: “É diferente, até porque tu tens namorado, tu és casada, e eu estou solteira, então não é bem assim.”

Esse corpo é visto para um determinado objetivo e socialmente... Deve ser muito triste ser homem né? O tempo todo ter que ter uma postura de, sei lá, macho alfa (risos), e se for um homem negro mais ainda. Eu vejo um despreparo dos homens. Vejo que sou desejada o tempo todo, mas quase nunca sou abordada do jeito que eu gostaria, de uma forma simples. Sempre sou abordada na clandestinidade. E hoje, não vou te dizer que aceito, mas esse processo de entender, porque durante muito tempo eu me culpei por isso. Eu não fiz todo o meu processo achando que eu conseguiria, que esse seria o caminho.Hoje estou solteira, eu tive bem poucos relacionamentos pós-transição. Mas hoje em dia me deixa mais tranquila de pensar que isso não é uma coisa minha. São coisas que passam por educação, e tento fazer a minha parte nesse sentido lá na escola, tentando humanizar esses corpos, através de conversas.

Eu sempre me coloco diante deles como a possibilidade de que,  eles,fora da escola, consigam ser capazes de ter empatia, humanidade como qualquer pessoa, inclusive uma pessoa como eu. O discurso eu pauto muito por isso, a única diferença entre mim e a prostituta trans que eles conhecem, que eles veem todo dia lá na esquina, na saída da escola, é que eu, de alguma forma, tive um pouco mais de oportunidade, não privilégio.

Essa oportunidade veio através de uma família que mesmo negra, diante de todas as dificuldades impostas pelo racismo estrutural que vivemos, me segurou e junto com um movimento meu,  que veio lá nos meus 11, 12 anos e fez com que eu tivesse essa visão de que por mais retrógrado e conservador que aquele lugar, que a escola fosse eu tinha que ficar lá passar por aquilo, porque era a única oportunidade de eu conquistar algo e não ser, de alguma forma, aniquilada dessa sociedade. 

Sobre essa reportagem do Fantástico, onde se aborda a solidão das mulheres trans naquele espaço. Em nossa primeira entrevista abordamos a questão das visitas das mulheres encarceradas onde se observou que elas também, na maioria das vezes, são esquecidas por seus parceiros...

É muito maluco pensar na fala de algumas delas, até pela própria reportagem que ao mesmo tempo é muito triste, mostrava elas de alguma forma mais humanizadas do que muitas das trans e travestis que estão aqui fora. Isso é o retrato do quanto nossa sociedade é hipócrita, não aceita. De alguma forma se eu estou aqui hoje, tem um pouco de sorte.

Ontem (6 de março) assistimos na aula a reportagem do Fantástico (Drauzio Varela), antes fizemos uma conversa e fomos assistindo, fazendo pausas, fui pontuando coisas que achava importante que eles parassem e refletissem sobre aquilo, sobre o sistema carcerário, de como a sociedade trata esses corpos, sobre a fala das personagens, e foi muito proveitoso. No final da aula começamos a escrever cartas para uma das meninas que aparecem na reportagem. Após o desenrolar envolvendo a Suzy, confesso que fiquei confusa e com medo em relação a esse trabalho (cartas), mas conclui que esse meu compromisso de trabalhar com essa questão da humanidade, da equidade, da solidariedade, pensando nesses corpos trans e em todas essas ditas minorias que habitam, inclusive, esse espaço escolar, é um compromisso. Talvez não enviemos as cartas, talvez eu tenha que chamar mais pessoas para essa discussão, a própria comunidade.

Mas elas serão escritas porque acho que é um dever exaltar, mexer, trazer essa questão da humanidade dessas crianças, desses adolescentes uma vez que a gente, na atual conjuntura, vive em um país que se caracteriza pela violência, pela perda de direitos, pela falta de empatia. Pensando em um compromisso profissional, espiritual e filosófico, de acordo, por exemplo, do que eu pratico dentro de uma comunidade de terreiro, não tenho como recuar, essas cartas vão existir, vamos conversar caso eles venham trazendo esse outro lado do que aconteceu com essa reportagem, vamos encarar os fatos. Acredito que é assim que tem que ser, é assim que eu me coloquei para eles, e foi assim que eu obtive o afeto dos meus alunos, colocando a minha verdade, as minhas vulnerabilidades e criando elos de afeto com eles. Essa marca que eu quero deixar nessas crianças, para que no futuro, onde eles não estarão mais perto de mim, mas estarão em qualquer lugar na sociedade convivendo com pessoas trans, LGBTQ+, e talvez eles lembrarão que um tiveram na vida deles uma professora negra e trans, e que era tudo tranquilo, legal, normal.  

Fale um pouco sobre o Coletivo Quilombelas.

Para nós o dia 14 de março é um dia extremamente importante. Dez dias depois do dia 14, há dois anos, iniciamos um movimento dentro da escola, fazendo uma performance muito no intuito de mobilizar a nossa comunidade para algo que visualizamos acontecendo e que viria só a piorar, e realmente piorou, que foi o assassinato da Marielle.

As meninas e eu, inicialmente éramos seis, uma delas está afastada por questões profissionais, hoje somos cinco, nos reunimos para fazer essa performance em um dia de formação na escola com pais. Utilizamos um poema da Ana de Cesáro, junto com o Slam do Bruno Negrão, slamer aqui do Sul, e também com a Helena Paz, professora do coletivo que está afastada, mas que na ocasião tinha sido premiada com uma coreografia em homenagem a Marielle Franco, com uma aluna também chamada Marielle.

O nome Quilombelas vem muito de uma vivência e ao longo do tempo, do quanto fomos estudando, nos conhecendo, entendendo o que era esse coletivo, mas inicialmente ele vem de um momento na escola em que percebemos o quanto corpos negros quando começam a se agrupar de alguma forma incomodam, isso é visto de uma forma muito sútil nos comentários. Quando nos vimos na escola foi uma empatia coletiva justamente por sermos negras e por nunca termos vistos tantas pessoas negras juntas em um ambiente como a escola, isso fez com que nós nos juntássemos e a todo momento estivéssemos trocando figurinhas. E nesses momentos ouvíamos sempre comentários do tipo, o que estão tramando? Sempre estávamos tramando algo quando estávamos juntas.

Um dia, literalmente ocupamos a sala dos professores, num lugar que normalmente não ficávamos, e que ficavam normalmente as outras professoras, coincidentemente mulheres brancas. E estávamos só nós, mulheres negras, sentadas conversando, e uma profe chegou brincando, sorrindo, dizendo a frase, o que vocês estão tramando já? E aquilo me bateu como um incômodo, e eu respondi, não estamos tramando, estamos conversando sobre coisas específicas do nosso dia a dia, estamos aqui no nosso quilombo porque somos quilombelas, e aquilo ficou. Isso aconteceu uma ou duas semanas antes do assassinato da Marielle.

E quando fizemos a performance, e foi muito bom porque conseguimos estabelecer uma discussão com a comunidade a partir desse fato em que eles se mostraram muito mais atentos do que nós imaginávamos para todas essas questões, para todos os desmandos que na sequência a escola veio a sofrer de fato. E a partir dali vimos a possibilidade de estabelecer um trabalho utilizando a Lei 10.639/3, inicialmente dentro da sala de aula, e que hoje faz com que trabalhemos com a formação de professores. Numa das conversas por whatsap pensando em um nome para o coletivo eu sugeri o nome coletivo quilombelas, essa questão de não ter uma hierarquia, tudo é discutido, brigamos muito, somos cinco mulheres negras, e mulher negra é tinhosa, batemos muito, mas temos consciência da importância desse movimento que criamos, principalmente para nós, porque com certeza nem eu, nem a Cris, nem a Vanessa, nem a Jana, nem a Ana, nem a outra Helena, somos as mesmas pós coletivo Quilombelas. Cada uma de nós vem de alguma forma conquistando muitas coisas para si, esse entendimento de negritude, de ser uma mulher negra, de acessar questões que antes, nessa solidão, não era possível. É a solidão da mulher trans, a solidão da mulher negra, então de solidão eu entendo e vamos aprendendo muitas coisas.

O que representa o dia 8 de Março para ti?

O dia 8, pensando nessa unidade e em toda essa possibilidade de mulheres que temos na nossa sociedade, no nosso país, é mais uma oportunidade de marcar como um dia de luta, como um dia de ir para rua, se mostrar, dessa outra parte da sociedade que não compactua com todos esses desmandos, com a questão do racismo, da transfobia, é um momento dessas pessoas se colocarem e se solidarizarem e mostrarem coletivamente que também tem força.

No coletivo nós costumamos também, até mais que no dia 8, pensar no dia 25 de julho, que é o dia da mulher negra latino-americana e afro-caribenha. Independente dessa importância que damos para esse dia, é considerar esse dia como um dia para reforçar esse movimento de coletividade e de busca dessa tão sonhada paz que almejamos para todos os diversos grupos que aqui habitam.

É também uma data para observar que em 1857 não contemplava as mulheres negras, continuavam na casa das mulheres brancas cuidando dos seus filhos, e em muitos casos sendo estupradas por seus maridos; elas continuavam sendo mulheres negras escravas. Por isso a gente não comemora, mas pensa como um dia de reivindicação, de luta, de fala.

Enquanto mulheres negras, a gente precisa entender o que acontecia nesse dia, na data que iniciou, e onde estavam as mulheres negras, quem eram as mulheres negras, realmente ele contemplava as mulheres negras? Hoje sim, pode ser que se fale. As mulheres feministas,  talvez, não retomem, não pensem nisso, no tanto de de luta que a gente (mulheres negras) vem tendo, sempre teve, e talvez, vai ter por muito tempo. Mas nessas questões de negritude  a gente faz questão de sempre lembrar isso, onde estavam essas mulheres negras, o que elas estavam fazendo. Não dá para se desconsiderar mais uma vez a questão da raça. 


"No coletivo nós costumamos também, até mais que no dia 8, pensar no dia 25 de julho, que é o dia da mulher negra latino-americana e afro-caribenha" / Foto: Katia Marko

Helena por Helena...

Helena é uma mulher negra sempre, uma mulher muito forte, uma mulher muito difícil porque ela traz muito de uma dureza que a vida obrigou ela a ter, para conseguir sobreviver, mas ao mesmo tempo é doce, é capaz de coisas que nem ela imagina e ela é do coletivo, não só do Quilombelas. Hoje em dia ela entende que a força dela está ligada à todas as pessoas, sejam elas negras, LGBT+, sejam elas educadoras, enfim a força está ligada a ajudar essas pessoas a se encontrarem. Ela é o resultado de uma busca que ela nem sabia, e hoje ela sabe quem é, sabe principalmente onde quer chegar.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko e Vivian Fernandes